quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Shine

Sem nem mesmo se sentir um pouco idiota, ela caminhava pelas ruas sorrindo. A cidade estava belamente decorada para o Natal que se aproximava rapidamente, e a neve fazia com que o clima ficasse perfeito. Ela enterrou as mãos nos bolsos de seu grosso casaco branco e ficou por um momento observando o Tâmisa ao longe. Era maravilhoso estar em casa outra vez. Gostava de sentir que algo mais forte do que ela trouxera-a de volta. Era feliz ali, feliz como jamais se supusera capaz de ser. Ali não precisava de cigarros ou qualquer outro vício, tudo o que precisava era respirar fundo e sorrir. Não havia o que pudesse atingí-la ali, ela sabia bem. E isso havia sido a sua força em seus dias mais belos.
Como já estava anoitecendo, ela resolveu ir para sua casa, preparar uma bela xícara de chá, ler um ótimo livro e depois assistir um filme, aproveitando que só tinha de trabalhar à tarde no outro dia. Ela ia caminhando tranquilamente até o ponto de ônibus quando repentinamente vislumbrou alguém conhecido. Levantou a cabeça para olhar e não teve dúvidas de quem realmente era. Ele a viu e pareceu não acreditar em sua visão. Seu rosto sardento e lindo abriu-se num sorriso enorme, no seu mais sincero sorriso. Eles não precisaram de saudações, correram um para o outro a se abraçarem fortemente. Ele a puxou de encontro a si, rindo de alegria com ela, depois de alguns momentos, ainda próximos, eles se largaram para olharem-se nos olhos.
- Mal posso acreditar que reencontrei você! - disse ela com um sorriso largo, justo ela que só tinha sorrisos contidos.
- Eu sabia, eu sabia que você ia voltar algum dia! Por que diabos demorou tanto? Venha, vou lhe mostrar meu novo apartamento, você vai se apaixonar por ele. Tem todos os livros que você ama e os que você queria ler quando foi embora.
Ela assentiu com a cabeça, empolgada, e logo ambos estavam no carro dele, indo para sua casa, ouvindo Glen Hansard, como nos velhos e maravilhosos tempos, só que agora era melhor - havia o adicional da saudade, coisa que eles não conheciam até então. E o imenso tempo (eram apenas quase cinco anos, mas para eles parecia uma eternidade inacabável) que passaram afastados não mudara absolutamente nada entre eles, de alguma estranha forma a intimidade e a afinidade haviam sido conservadas.
De fato, ele havia organizado-se e possuía todos os livros que ela poderia imaginar querer. Havia seu sorvete favorito na geladeira, ainda havia uma foto dos dois quando crianças na sala. Era difícil acreditar que mesmo depois de tanto tempo ele estivesse ali, esperando por ela, mas afinal, ela própia não havia estado procurando quase que automaticamente ele por toda a cidade desde que chegara? Ora, ela podia permitir-se ser feliz, nem que fosse apenas por uma vez na vida. Era feliz ao lado dele, não podia evitar isso. E, à duras penas, aprendera que não deveria evitar isso.
Ela estava olhando através da janela da cozinha, quando ele se aproximou e ela virou-se para vê-lo. Ele sorriu, afastando uma mecha de cabelo ruivo que caía sobre o rosto dela. Ela sorriu também.
- Mal posso acreditar que você continue vivendo da mesma forma - disse ela, quase num sussurro.
- Eu disse que estaria aqui para te dar as boas-vindas quando você voltasse, e um homem sempre deve honrar as suas promessas - disse ele, aproximando-se e beijando-a com o amor e a amizade de uma vida inteira. Não havia escuridão ou fraqueza que pudesse atingí-la ali, onde a perfeição era cotidiana e os sonhos simplesmente eram possíveis. O cotidiano era belo e rico, e ela sabia perfeitamente bem que as coisas simplesmente se encaminhariam, tão simples o quanto fechar os olhos e fazer um desejo. Os olhos deles estavam azuis e brilhavam. Os mesmos olhos que mudavam de cor, os mesmo cabelos ruivos e exatamente as mesmas sardas que, como num sonho perfeitamente idealizado, o filho deles viria a ter alguns anos depois. E exatamente o mesmo brilho no olhar.

Nenhum comentário: