segunda-feira, 29 de novembro de 2010

“A Solidão é meu Cigarro” *

Há muitas campanhas na mídia que alertam sobre os riscos que os mais variados vícios trazem para a vida das pessoas. Não há apenas comerciais, mas também reportagens e filmes que retratam e alertam sobre os problemas derivados dos vícios, mas mesmo assim jovens e adultos ainda procuram não apenas narcóticos, mas também outros hábitos (como apostas e jogos) que viciam e, em 99% dos casos, são prejudiciais a todos os aspectos da vida da pessoa. Mesmo sabendo de todos os contras, parece completamente impossível que alguém possa sujeitar-se a esses riscos, não parece haver nada que justifique essa escolha. Mas isso acontece o tempo todo e, na verdade, existem muitas justificativas para isso.
Apesar de toda a informação disponível, existem dois grandes problemas que só as informações não podem resolver: as ideologias que apoiam os vícios e a solidão. Mesmo que, de alguns anos para cá, as ideologias que apoiam os vícios estejam sendo lentamente substituídas por ideologias antidrogas, ainda existem fortes resquícios da antiga e forte ideologia. Muitos jovens ainda acreditam e levam como lema de vida a sentença “Sexo, drogas e rock n'roll”, mesmo que o verdadeiro rock tenha praticamente sido extinto há décadas e estejamos num país muito distante dos países onde viveram as grandes lendas do rock. Há quem julgue interessante e poderoso dizer-se contra as regras, autodestruir-se e ações desse gênero. Por um mero status, muitos jovens entram para uma vida desregrada sem sequer saber o que realmente estão fazendo, apenas para serem “legais” aos olhos dos outros. Isso pode parecer uma prática obsoleta e irracional (o que, de fato, não deixa de ser), mas infelizmente isso ainda é surpreendentemente comum, ainda mais em jovens do ensino médio, que ainda estão tentando definir e criar uma imagem “legal” aos olhos dos outros, pois ainda não são maduros o suficiente para perceber que ser legal não é a coisa mais importante do mundo.
Aqueles que escolhem deliberadamente vícios apenas por influências externas e auto-afirmação ainda conseguem se livrar destes vícios com menor dificuldade, afinal, nesse caso isso é apenas uma questão de amadurecimento. O grande problema se dá mesmo é com aqueles que acabam procurando nos vícios a distração para a solidão, para as próprias dores existenciais. Essas pessoas sim, tentam esquecer-se de grandes problemas ou simplesmente encontrar um último prazer que seja na vida, pois já não possuem motivação para viver. Nesses casos, os vícios são realmente preocupantes, porque se tornam o único motivo para a pessoa viver.
Com o avanço da tecnologia, o contato com as pessoas tornou-se infinitamente mais fácil. Temos os telefones, a internet, os meios de transporte, enfim, o isolamento espacial não existe mais. Mas o problema é que não basta termos pessoas por perto, precisamos de fato ter relações verdadeiras com as pessoas para que a solidão não nos domine. A correria do cotidiano nas cidades e a facilidade da comunicação acabou por, ao invés de aproximar, afastar as pessoas, pois todas vivem correndo para não perder o horário e acabam passando nada mais do que o tempo estritamente necessário com outras pessoas. Todos estão, aparentemente, ocupados demais para ter amigos, família e tudo mais que possa manter a solidão bem longe. O estresse acaba por dominar as pessoas e deteriorar as relações, fazendo com que estas existam de modo insatisfatório e logo, levando as pessoas à tão temida solidão. É claro que a solidão é extremamente importante para o desenvolvimento humano, desde que o ser solitário seja maduro o suficiente para encarar a solidão com sabedoria e calma, e por vezes até mesmo desejá-la, o que geralmente não é o que acontece. Numa ânsia por se mostrar feliz aos olhos dos outros, o homem moderno tira fotos sorridente e finge ter relacionamentos maravilhosos, mesmo quando sequer vê as pessoas de suas relações com frequência. As brigas com as pessoas próximas surgem, e o homem, imaturo para a solidão, procura amenizá-la e até mesmo curá-la através de entretenimentos nada saudáveis: álcool, jogos, drogas. Os jovens, por vezes abandonados por pais ocupados dessa forma, acabam seguindo o exemplo, e então não há como culpá-los, afinal, quem pode exigir que alguém jovem tenha força suficiente para suportar ser ignorado por aqueles que
supostamente deveriam amá-lo, e não tentar fugir ou esconder-se disso de alguma forma? É complicado tentar impedir que alguém tente aliviar a sua dor, por mais errada que seja a maneira que esse alguém procure fazê-lo, e todos nós também fazemos isso, de alguma forma. Apenas alguns tem dores mais profundas e maior sensibilidade.
Provavelmente, algum dia o mundo acreditou que através da educação todos os problemas poderiam ser resolvidos, mas isso não deu certo. Hoje, que a educação é muitíssimo mais acessível, os mesmos problemas persistem e até alguns novos surgem, e os vícios parecem assolar ainda mais os jovens do que antigamente. O caso é que a informação, por si só, não faz nada. O que realmente pode fazer algo pelos jovens são as pessoas em si: um jovem que tenha não apenas acesso à educação, mas também carinho e compreensão, ajuda psicológica e bons amigos, dificilmente deixará-se levar por qualquer vício, ou melhor, sequer terá inclinação para isso, afinal, quase não existem grandes dores nem tampouco grandes problemas em suas vidas. Quando as pessoas perceberem que a única solução que temos é ajudarmos umas às outras, talvez tenhamos um mundo mais tranquilo, menos viciado em solidão, menos narcótico e bem mais belo. Até lá, o que nos resta é tentarmos nos manter sóbrios mesmo quando a solidão pede um cigarro, um vício qualquer. Pois qualquer dose pode ser a primeira de muitas – e todos sabemos bem disso e de seu perigo incalculável.

* O título é o primeiro verso da música Cigarro, de Zeca Baleiro, que também aborda a desilusão do homem perante à vida.

domingo, 28 de novembro de 2010

Only Magic Works

Atenção: contém spoilers.

Por volta da transição de 2001 para 2002, o filme de Harry Potter e a Pedra Filosofal era lançado no Brasil, mais especificamente no dia 23 de novembro de 2001. Eu, particularmente, só fui me interessar pela história alguns meses depois, não sei ao certo quando, mas provavelmente no começo de 2002. Como todas as crianças de minha faixa etária (de outros países, não do Brasil), eu estava curiosa sobre o mundo bruxo, e pedi para minha mãe que alugasse o filme para mim. Ela concordou, e desde então, acredito eu, arrepende-se profundamente disso - porque nunca mais larguei o fantástico mundo bruxo.
Lembro-me perfeitamente bem que assisti Harry Potter na escola também, mas ninguém se importou muito. Li o livro, mesmo que eu fosse realmente nova, parecia-me grande mas era tão interessante que, mesmo que eu demorasse um pouco, decidi arriscar. O preço que paguei foi acabar por me apaixonar completamente por toda a história, tanto que releio os livros até hoje, anos depois de tudo ter começado - e agradeço à Merlim por isso.
Infelizmente, é mais do que uma possibilidade, é uma certeza confirmada de que 98% das pessoas não consegue sequer compreender a eterna magia de Harry Potter e tudo que o envolve. Algumas pessoas já ouviram falar, outras assistiram algum filme que outro, raríssimas assistiram todos os filmes, e mais raras ainda são realmente fãs, daquelas que lêem e relêem os livros, assistem muitas vezes os filmes e entraram completamente para o mundo mágico que J.K. Rowling criou para todos astutos o suficiente para viver mentalmente nele. E quem ainda não vive nele, jamais poderá compreender o quão fascinante é viver magicamente!
Nada se compara a saber com toda a certeza do mundo à qual Casa se pertence, saber qual seria o seu patrono, apegar-se à uma família bruxa, lembrar-se com carinho de cada episódio da vida de Harry, compreender seus sentimentos e sua bravura imensurável, por vezes sentir-se exatamente da mesma forma que ele própio em relação à alguma personagem, outras vezes sentir-se de forma completamente diferente mas mesmo assim respeitar seus sentimentos... Ler Harry Potter é viver a saga juntamente com ele, é ganhar uma família, um mundo, um lar. Apegar-se aos personagens, envolver-se profundamente com toda a trama, torcer para sua Casa e para seu time favorito de Quadribol, sonhar com criaturas mágicas, tudo isso é incomparável, imensurável... tanto que me faltam adjetivos para qualificar! A ansiedade de esperar pelo próximo livro e/ou pelo próximo filme, as teorias malucas que surgiam antes do sétimo ser lançado, escrever fanfics, enfim, tudo que envolve Hogwarts e esse mundo maravilhosamente magnífico que nos foi presenteado por Joanne Rowling, é algo que marca profundamente a vida de todos aqueles que realmente souberam apreciar a grandiosa obra da autora.
Assim como Evanna Lynch, acredito que muitos outros fãs pelo mundo tenham sido, literalmente, salvos pelo mundo bruxo. Qualquer um é capaz de perceber o quão filosófica toda a história é, e quanto os personagens tem um talento completamente encantador de tornarem-se, de fato, parte do nosso cotidiano, nossos familiares. Tenho certeza que Dumbledore, Sirius, Remus, Hagrid, o própio Harry e muitos outros personagens foram e são a força e os exemplos, os heróis de muitas pessoas. Harry Potter vai muito além do entretenimento de qualidade, é uma nova forma de vida, praticamente. Duvido muito que exista alguém que realmente seja fã de Harry Potter e não tenha tido sua vida mudada em vários níveis, de forma irreparavelmente boa. Harry Potter é capaz de trazer uma nova visão de mundo e até mesmo uma nova forma de encarar a vida, eu ousaria dizer. Harry Potter pode ser e é a salvação em muitos casos. E é uma forma muito prazerosa de salvar-se, convenhamos.
Em 15 de julho de 2011, será lançado o último filme da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte II. Mesmo tendo lido o livro e sabendo quase que exatamente tudo o que acontecerá (afinal, do quarto filme para cá, a Warner inventou de colocar cenas inexistentes nos livros), é inevitável a ansiedade, a agitação e a empolgação com o lançamento. Vemos os atores falando, vemos a primeira parte nos cinemas, relemos o livro, mas nada se compara a ver, finalmente, o filme lançado. Será doloroso ver a perda de muitos personagens extremamente adorados no filme, mas é inevitável. Só é mais doloroso porque a visão do fato no filme parecer ser uma consumação ainda maior, um veredicto final, assim como o sétimo livro foi para aqueles que (como eu) tinham a esperança que, de alguma forma, Sirius e Dumbledore voltassem.
Seja como for, aconselho a todos, sem exceção, sejam crianças ou idosos, homens ou mulheres, comunistas ou burgueses, enfim, a qualquer pessoa que saiba ler (e quem não sabe ler poderia considerar aprender, nem que fosse apenas por Harry Potter...), que leia Harry Potter, leia profundamente, leia do começo ao fim, leia milhares de vezes. Quem não leu ainda, pode ter a mais absoluta certeza que, talvez o primeiro livro seja difícil (não compreendo como, mas sempre pode haver quem ache) mas, certamente depois de ler o primeiro, a leitura dos outros será a melhor coisa, será algo espontaneamente necessário, será um desejo irrefreável. Encantem-se por Hogwarts, tornem-se sonserinos (ou escolham qualquer outra Casa, mas particularmente aconselho a juntarem-se à melhor de todas as Casas), tornem-se fanáticos por Quadribol, conheçam matérias escolares muito interessantes e vivam num mundo completamente novo, num mundo perfeitamente mágico - e lembrem-se de que a magia não acaba nunca.

Storm

Acomodando-se da melhor maneira que podia, ele sentou-se à porta da barraca, olhando a noite. A neve caía silenciosamente, como se as coisas ainda pudessem ser tão boas o quanto eram da última vez em que nevara. Ele jamais se esqueceria daquela noite, ela estava tão calada mas tão doce, os olhos brilhantes, ela o beijava com intensidade e urgência, acariciava-lhe os cabelos ruivos, sussurrava-lhe tudo o que ele mais amava ouvir e por fim, aconchegava-se em seu corpo, como era habitual, mas que nem por isso perdia seu valor.
Naquela noite ele ficara acordado olhando a neve que caía pela janela, deitado mesmo, enquanto acariciava os longos cabelos lisos dela e ela ressonava tranquila e segura em seus braços. Sua pele, tão branca o quanto a dele, adquiria um brilho especial sob a luz do luar que entrava pela janela, sua expressão serena era tão adorável que ele tinha certeza que, de uma forma ou de outra, eles conseguiriam realizar tudo o que haviam planejado juntos, desde quando eram pequenos. Ele ficara observando a neve até adormecer tranquilamente, enlaçado à ela como se ela fosse sua própia vida - e de certa forma, realmente era.
Infelizmente, porém, nessa neve ela não estava ao seu lado. Ele estava em sua vigília, exposto à neve, tremendo de frio, apesar dos pesados casacos, e tudo que possuía eram duas fotos: uma onde eles estavam sorrindo, abraçados, e outra apenas dela, tirada de surpresa, onde ela sorria através dos olhos, apenas. Ela estava simplesmente do outro lado do país, supostamente protegida, mas ele sabia bem que ela corria tanto risco de vida o quanto ele própio, a única diferença é que ela poderia estar aquecida agora, dormindo tranquilamente perto da Escócia. Ele congelava ali, tentando lembrar de cada detalhe de suas expressões, de sua voz, do toque de sua pele, porque se esses fossem seus últimos momentos, ele queria passar lembrando-se dela. Em sua mente, não apenas as lembranças mais concretas afloravam, mas também as de seus sonhos débeis e infantis de tê-la ao seu lado, sonhos que ele alimentava ainda criança, quando eles brincavam de casinha e ele ficava completamente orgulhoso de poder fingir chegar em casa e chamá-la de "minha querida". Numa tarde particularmente boa, ele contara a ela o quanto gostava de poder, nem que fosse por algumas horas, saber que ela era sua mulher, por mais que fosse de brincadeira. Ela então prometera que um dia realizaria seu sonho.
 Ele contava os dias para que aquela guerra injusta acabasse e eles finalmente pudessem se reencontrar, mas não havia a mínima esperança de isso acontecer. Ele estava longe e tinha de fazer a sua parte, a falta dela doía-lhe profundamente, mas ele não podia fugir de suas obrigações morais. Ele não se preocupava com os homens apaixonados por ela que, agora que ele estava tão longe, certamente aproveitariam-se da convivência que mantinham com ela e tentariam se aproximar, não se preocupava se iria se ferir ou até mesmo morrer lutando, só queria vê-la outra vez. Queria sentí-la perto de si, ouvir sua respiração tornando-se densa, perder-se em seus olhos escuros. Isso era a única coisa que importava agora.
Outra lembrança que lhe agradava muito era da última vez em que dançaram. Apesar de estar com olheiras e abatida, ela sorrira verdadeiramente para ele, e estava absurdamente linda em seu longo vestido verde. Ela parecia deslizar graciosamente em seus braços e ele perdia-se admirando sua doçura, seu profundo encantamento. De alguns anos para cá, os olhos dela haviam tornado-se mais expressivos, e naquela noite eles eram claros como o dia: diziam claramente que ela o amava. Ele, e apenas ele, conhecia aquele olhar dela. Eles haviam aprendido a comunicar-se pelo olhar, a aproveitar cada mínimo momento juntos. E às vezes ambos tinham a sensação de que, mesmo que passassem o resto da vida juntos, ainda não seria o bastante. Eram jovens e, para ajudar com a impressão de urgência em tudo, sempre foram reciprocamente apaixonados. Seria um crime não lhes permitir a profunda felicidade sonhada.
- Você já pode ir dormir, o seu turno acabou.
Ele sorriu agradecido para seu amigo e voltou para dentro da barraca, abraçando a si própio, tentando inutilmente aquecer-se. Se ela estivesse ali, iria preparar-lhe uma boa caneca de chocolate quente e iria abraçá-lo até que ele se sentisse confortável, aquecido e feliz. Ele tirou do bolso novamente a foto de ambos e sorriu, aguentaria quantas noites mais fossem necessárias para estar ao seu lado outra vez. Endireitou-se em seu saco de dormir e, pela última vez, num gesto que considerava ridículo mas que não conseguia evitar, acariciou o rosto dela levemente, antes de guardar a foto e fechar os olhos. Imaginou-a em seus braços e finalmente adormeceu, enquanto ela dormia perto da Escócia, fingindo estar nos braços do menino ruivo que sonhava com ela.

sábado, 27 de novembro de 2010

A Sunshine

Depois de quase finalmente suicidar-se, ele saiu pelas ruas sem destino. Era um sábado à tarde, as pessoas passeavam tranquilamente pelo centro, algumas até mesmo animadas. Ele não compreendia há muito tempo como alguém podia ser feliz, afinal, ele própio nunca fora feliz e só havia piorado nos últimos cinco anos. Ele se sentou numa cafeteria, fumou um cigarro e tomou uma xícara de café, enquanto apenas observava o movimento. Fazia sol, um sol quente de junho. Tentou ficar por mais alguns instantes ali, mas estava inquieto. Queria caminhar pela bela cidade onde vivia, já que decidira por adiar sua própia morte mais uma vez. Levantou-se e saiu pelas ruas apinhadas de pessoas. 
      Depois de ter caminhado por muito tempo, chegou perto de um playground. Haviam muitas crianças brincando animadamente e, como era seu hábito, ele procurou, já sabendo ser um gesto inútil, por sua menina. É claro que não a encontrou, como sempre. Nesse playground havia uma casinha de bonecas, onde várias meninas saíam, mas ele podia ver que uma ainda estava sentada a uma mesinha. Ela tinha longos cabelos lisos e lhe parecia muito com... Mas não, certamente não poderia ser. Contrariando todo o seu pessimismo, a menininha saiu da casinha e ele mal podia respirar: era ela! Há meses não a via em lugar algum da cidade, mas ali estava ela, sua franja voando com o vento, o rostinho sério e lindo, o vestido vermelho e rodado cheio de florzinhas amarelas brilhando sob a luz do sol, contrastando com a pele branquíssima dela. Ela se sentou na varanda da casinha, apoiando sobre uma mão o delicado rosto. Os olhos castanhos perdiam-se num ponto à sua frente, numa expressão melancólica e pensativa, atípica à uma menina de apenas quatro anos como ela, mas nela isso era comum. Ele conteve as lágrimas, ela havia crescido tanto em tão pouco tempo! O problema é que sua tristeza também parecia haver crescido. Apesar de ser completamente errado, ele se aproximou dela e sentou-se ao seu lado. Ela não estranhou que um adulto se sentasse ao seu lado.
- Está tudo bem? - perguntou ele, sem poder se segurar. Não podia vê-la assim sem ao menos tentar ajudá-la.
- Uhum, tudo bem, obrigada - disse ela, olhando-o pela primeira vez. Sorriu de leve então, um sorriso tão puro e tão parecido com o seu própio que ele novamente se emocionou. - É gentileza sua perguntar. É só que não gosto muito de brincar.
- Por que não? As outras crianças não te convidaram ou algo assim?
- Não, nada disso - sorriu ela, afastando a ideia com um gesto de mão, que o fez sorrir. Ela tinha quatro anos mas falava com mais eloquência do que muitas meninas de vinte anos. - As crianças até me incomodam de tanto que me convidam para brincar. O problema é que elas são agitadas demais, eu não sou assim. Gosto de brincar de coisas mais calmas, gosto de montar quebra-cabeças, gosto de ler também. Eles quase nunca querem fazer isso e não entendem que eu não goste de correria. Mas eu já estou habituada.
- Mas isso é admirável! Você deve ser muito inteligente para gostar de ler e montar quebra-cabeças...
Ela corou e deu um sorriso tímido, satisfeito, quase escondendo o rosto com as mãos.
- Imagine... Eu só sou apaixonada por livros, só isso - o seu sorriso fechou um pouco. - Pena que não posso ler os livros que eu quero.
- Por que não? Sua mãe não os compra para você? - ele perguntou com tanta preocupação que acabou dando graças a Deus por ela ser uma criança e não perceber isso. Certamente ficaria desconfiada do fato de ele se importar tanto com ela, mas, ao invés disso, ela apenas continuou conversando com ele.
- Mamãe compra livros, mas não os que eu quero. Ela diz que Harry Potter é grande demais para mim, só vou poder ler quando eu crescer - ela disse, parecendo desolada. - Eu já cansei de assistir todos os filmes, os livros sempre são melhores. Sabe, quando ela me leva à Biblioteca, eu sempre leio uma página de Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas o avanço, infelizmente, é muito lento. Só vamos lá uma vez por semana e mamãe fica desconfiada quando eu saio da parte dos livros infantis.
Ele a observava falar, encantado. Ela contava sua história como se fosse uma mulher atravessando um grande drama em sua vida. Tinha uma dicção perfeita, falava educadamente... Ela se desenvolvera muito, e era a criança mais linda que existia, ele tinha a mais absoluta certeza. Reconhecia-se na linha que se formava entre suas sobrancelhas quando ela ficava apreensiva, nos olhinhos castanhos e brilhantes, na cor dos cabelos, no desenho dos lábios e até mesmo nos gestos. A menina era quase que uma projeção dele própio. Ele se manteve sério a despeito de sua felicidade em estar ali com ela, em vê-la daquela forma, e tentou consolá-la:
- Mas você certamente logo poderá ler todos os livros de Harry Potter, não se preocupe. Você tem alguma curiosidade em especial? Eu posso te contar o que quiser, eu já li todos muitas vezes.
Os olhos dela iluminaram-se e ela sorriu, completamente encantada.
- Sério? O senhor já leu todos os livros? E eles são tão incríveis o quanto parecem ser?
- Só respondo se você me chamar de você, senhorita.
Ela riu e logo falou:
- O que você achou deles? Conte, por favor!
- Na verdade, posso te contar um segredo? - ela assentiu rapidamente com a cabeça, entusiasmada. Ele, com um tremendo esforço, manteve-se sério e falou baixo, assumindo um ar muito grave: - Os livros são muito mais fascinantes do que parecem!
- Meu Deus do céu! Por Merlin! - ela só faltava pular de excitação. - Eu preciso crescer e lê-los inteiros, milhares de vezes!
- Você é realmente apaixonada por Harry Potter, não é mesmo? - perguntou ele, finalmente permitindo-se rir. Ela era a menininha mais encantadora que ele poderia ter!
- Sim, absolutamente - confirmou ela, finalmente parecendo alegre. Ele mexeu em sua própia franja e ela, meio tímida, começou. - Hum... Eu posso fazer uma pergunta?
- Já fez uma, mas pode fazer quantas outras quiser - respondeu ele, sorrindo bondosamente. Ela se sentiu encorajada e sorriu também.
- Sua mamãe também o obriga a usar essa franja? Porque eu acho minha franja muito bonita mesmo, mas incomoda, você não acha? A minha pelo menos sempre fica bagunçada, e eu não gosto muito de pentear os cabelos.
Ela tentou ajeitar sem sucesso a franja de seus cabelos lisos, idênticos aos dele. Ele sorriu outra vez, ela sabia ser encantadora como ele jamais conseguira sonhá-la.
- Não, minha mamãe não me obriga a usá-la, mas eu gosto. Concordo com você, incomoda mesmo - ele fez uma careta e ela riu. - Mas por que sua mamãe não deixa que você não use mais franja?
- Porque ela diz que quando eu uso franja fico muito mais bonita, e eu nunca entendi o que ela quis dizer com isso, mas ela diz que eu "pareço mais comigo mesma" - disse ela, franzindo o cenho e fazendo com que uma linha se formasse entre suas sobrancelhas, exatamente como acontecia com ele. Ele se tornou repentinamente sério. Diferentemente dela, ele entendia muito bem o que significava o que sua mãe dizia. Ela ficava, inegavelmente, a cara dele, usando franja. Poderia ela ainda amá-lo, ter se arrependido de todos os terríveis erros que cometera para com ele?
- Estranho, não é? - perguntou ela, e ele concordou, por razões diferentes das dela. Mas repentinamente ele se lembrou de algo que podia animá-la. Mexeu na sua mochila, enquanto ela o observava, e depois de revirar um pouco, achou o que queria. Segurando-o dentro da mochila, olhou para ela e perguntou:
- O seu sonho é ler Harry Potter e a Pedra Filosofal, certo?
- Corretíssimo! - respondeu ela, alegre.
- Então, se você me prometer que, se algum dia me reencontrar conversará comigo, eu tenho um presente para você.
- Eu prometo, com ou sem presente - disse ela carinhosamente. - Você é muito legal e gentil, e ainda por cima leu todos os livros! - ela nem tentava disfarçar a admiração. - Eu até mesmo procuraria você para conversar.
Ele sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, mesmo que isso não devesse acontecer. Em alguns momentos de conversa, conseguira encantá-la, coisa que ele temia jamais acontecer se a reencontrasse. Antes que chorasse, ele tirou seu volume muito bem conservado de Harry Potter e a Pedra Filosofal de dentro da mochila e estendeu a ela, que ficou olhando-o, estupefata e completamente encantada. A imagem de seu pequeno e delicado rosto iluminado pela felicidade, com seus cabelos voando e um sorriso tímido e profundamente feliz jamais sairia da sua mente como a imagem mais bela que ele já havia visto. Delicadamente, ela pegou, com todo o carinho e cuidado o livro que ele lhe estendia. Alisou carinhosamente a capa com as pontas dos dedos brancos, observando cada milímetro, como se quisesse constatá-lo finalmente real. Depois de passar alguns segundos assim ela levantou os olhos cheios de lágrimas e sorriu para ele, em seguida inesperadamente voando e abraçando-o apertadamente. Ele chegou a ficar sem ação, mas logo abraçou-a feliz, profundamente feliz. Ela tinha cheiro de perfume de bebê e bloqueador solar, cheiro de filha amada e bem cuidada. Ele sorriu, sem evitar mais as lágrimas.
- Muito, mas muito obrigada mesmo!
- De nada filha, de nada - ele sorria, e sobressaltou-se ao chamá-la de filha, mas ela não percebera nada. Ela o largou, limpando as própias lágrimas e ele fez o mesmo, disfarçadamente. Olhou-o sorrindo, feliz.
- Você tem a mesma cor mágica de cabelos que eu tenho - ela falou, muito feliz. - Seu cabelo também é castanho mas tem partes loiras e ruivas e etc.
- Sim, nossos cabelos são exatamente iguais - assim como todo o resto, pensou ele, sorrindo alegremente. Nunca se sentira tão feliz por estar vivo. Repentinamente, o momento eterno onde eles se olhavam sorrindo mais pelos olhos do que pelo rosto, plenamente felizes, foi cortado pelo som da mãe dela que a chamava, insistentemente. O sorriso dela desmanchou-se, mas ela ainda foi capaz de lhe dar mais um sorriso. Ela se precipitou e beijou-o carinhosamente na testa.
- Serei eternamente grata - disse, muito alegre. Ele sorriu e fez um carinho no rostinho arredondado e um pouco magro.
- Também serei eternamente grato.
- Pelo quê? - perguntou ela, confusa.
- Você não compreenderia - disse ele, sorrindo. - Procure-me quando acabar de ler esse livro, se gostar. Eu tenho todos os outros.
- Sério? - ele confirmou com a cabeça. - Nossa! Mas, como eu vou te encontrar? Ah, espere! Por que você não escreve uma dedicatória para mim? Assim eu saberei como te encontrar e o meu livro vai ser, oficialmente, um presente seu.
- Ok - ele sorriu e procurou uma caneta em sua mochila. Escreveu sobre o quanto ela era admirável, elogiando-a de todas as formas possíveis. Quando acabou, ela educadamente pegou o livro de volta e esperou chegar em casa para ler a dedicatória. Ele, depois de beijá-la carinhosamente no topo da cabeça, foi embora. Ela acharia estranho ele ter começado a dedicatória com "Querida Filha", mas ele não se importava, afinal, supostamente ele não sabia o seu nome. Ele não conseguia parar de sorrir e sentia-se mais vivo do que nunca: a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido, aconteceu. Depois de observar ela se afastar ao longe, indo em seu carro para casa, ele próprio foi embora, sentindo-se um homem feliz, verdadeiramente. Pela primeira... e provavelmente única vez.

Understanding

Ela sequer percebeu quando ele entrou, fechando a porta atrás de si. Ele sorriu, observando-a. Ela explorava com o olhar encantadamente sua estante de livros, por vezes detendo-se e pegando um título, por vezes sorrindo ao ver algum autor ali. No braço esquerdo a pilha já se fazia grande, com cerca de sete livros. Ele nunca a havia visto com sorrisos tão sinceros, com aquele brilho no olhar. Ele cruzou os braços, observando-a sorrindo. Ele sempre soubera que ela tinha algo de profundamente igual a si próprio, mas jamais pensara que fosse dessa forma. Quando foi pegar um volume que se encontrava mais próximo de onde ele se encontrava, ao fim da estante, ela finalmente percebeu-o e se sobressaltou.
- Por Merlim, eu nem havia percebido que você está aqui! - eles dois sorriram, ela corou. - Perdão, mas eu estou completamente encantada com sua coleção de livros... Céus, você tem a obra completa de Hermann Hesse! Eu li apenas dois livros dele, mas foi o suficiente para eu me apaixonar completamente pela sua escrita.
- Você tem toda a razão de estar apaixonada - disse ele, sorrindo e sentando-se em sua cama. Convidou-a para sentar-se consigo com um gesto, e ela prontamente sentou ao seu lado. - Hermann Hesse é um dos melhores autores que eu já li.
- Com a quantidade de livros que você já leu, isso é realmente um elogio para ele - sorriu ela, fazendo-o sorrir também. Era claro que ela o admirava profundamente, mas poderia ela perceber o quanto eram profundamente iguais? Poderia ela sentir que ele conseguia ver através da escuridão dos olhos dela? Talvez houvesse sido uma sorte, afinal, não ter podido vê-la crescer. Assim ele não se sentia culpado pelos sentimentos que o dominavam agora. Mas o que o atormentava era o fato de não compreender o que se passava em sua mente. Ele podia percebê-la tão infeliz o quanto ele, tão sozinha em si mesma o quanto ele próprio, mas não conseguia decifrar os olhares intensos que ela dirigia a ele. Nesses momentos sim, os olhos escuros dela tornavam-se fonte de um enigma perturbador e indecifrável. Ele percebeu que ela folheava um de seus livros, cabisbaixa. Havia algo de tão puro e adorável naquele rosto claro e de delicados traços que seu encantamento era muito mais do que justificável, era praticamente inevitável.
- Eu compreendo você - disse ele, subitamente, sem nem mesmo saber o que fazia. As palavras simplesmente escaparam-lhe dos lábios. Já que começara, nada custava acabar. Ela o esperava, olhando atentamente. A intensidade de seu olhar era desconcertante. Ele precisava continuar, e tentar, simplesmente. - Eu sei o quanto é difícil conviver com a eterna cobrança de ser feliz, de ser animado. Também sei o quanto é difícil obrigar-se a viver um cotidiano completamente diferente do que realmente se quer, apenas pelas pessoas que se ama. Sei o quanto é ruim viver numa eterna e profunda mentira. Mas isso significa que somos fortes, de alguma forma, eu acho - sua voz tornara-se embargada e ele se calou. Nunca havia falado dessas coisas a absolutamente ninguém, nunca tivera a coragem necessária de se abrir tão profunda e sinceramente. Os olhos dela estavam cheios d'água: ele estava certo, então.
Olhavam-se então, graves. Algo secreto rompera-se entre eles, um limite que jamais ousariam romper em sã consciência. Pertenciam-se, então. Ele afastou os longos cabelos lisos que caíam sobre o rosto dela, com um carinho. Ela respirou fundo, deixando que uma lágrima escorresse pelo rosto jovem. Ela penetrava seus olhos cinzentos, observava sua barba, seus longos cabelos crespos, sua expressão cansada. Ele era uma forma diferente de sua própria existência. Amaram-se então, sorrindo sinceramente pela primeira vez, como crianças que nunca houvessem aprendido a ser feliz. E eles tampouco aprenderiam.