quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Caio.

É um alívio da dor. Um alívio inesperado, uma distração que aparece do nada e é inesperadamente boa. Ora, uma coisa boa, vejam só! Entre tanta dor e tanta desilusão, surge repentinamente um prazer, um alívio para a existência. Por alguns segundos, não se pensa, não se age. Simplesmente se sente. É bom, é reconfortante. 
Se algo de bom foi descoberto numa existência já sem razão de ser, é óbvio que se vai buscar mais e mais do bom. Primeiro, moderadamente, apenas o necessário, o suficiente para um alívio mediano. Mas por que não tentar ir além? Por que não tentar o alívio supremo, ou talvez até mesmo a cura? Mais uma dose? É claro que eu quero, todo mundo quer. Mas no fundo todo mundo sabe o limite, e mesmo assim abusa. E é daí que surge a culpa.
Agora é só mais uma vez, uma última vez. Depois dessa, nunca mais. Nunca mais, não, apenas o necessário, daqui para frente. Por cinco segundos isso funciona. Mas aí o relógio continua correndo, as luzes não diminuem, as pessoas conversam, os pensamentos giram. A ansiedade é terrível, batuco na mesa, bebo um gole de qualquer coisa. Não adianta, não é isso. Sei do que preciso mas sei o quanto é errado. Só mais um pouquinho, não faz mal nenhum.
Os pouquinhos tornam-se montes e montes. Irreparavelmente, a redenção é sempre adiada para a próxima vez e agora, no fundo, dá bem para saber que isso nunca vai mudar, porque isso exige força, e ninguém que seja forte tem esse tipo de necessidade. Só tem se já deixou de ser forte, seja pela desilusão ou merda que for. As desilusões e os erros podem destruir mesmo uma força suprema. E ninguém, ninguém nesse mundo é capaz de suportar a dor sobriamente, a não ser que a dor não seja verdadeiramente profunda.
Caio vertiginosamente, dia após dia. Sei que nada mudará tão cedo, torturo-me mentalmente a cada instante. Os dias passam, eu sei, mas nada muda com eles. Não se eu não for capaz de mudar por minha própia conta. 
Caio profundamente e me desespero. Leio Caio e me desespero. O mundo é sempre o mesmo, mas meu mundo sempre pode mudar. Dói. Quem sabe um dia, a culpa vai embora junto com o vício? E depois, o que é que vem?

Nenhum comentário: