sábado, 27 de novembro de 2010

Understanding

Ela sequer percebeu quando ele entrou, fechando a porta atrás de si. Ele sorriu, observando-a. Ela explorava com o olhar encantadamente sua estante de livros, por vezes detendo-se e pegando um título, por vezes sorrindo ao ver algum autor ali. No braço esquerdo a pilha já se fazia grande, com cerca de sete livros. Ele nunca a havia visto com sorrisos tão sinceros, com aquele brilho no olhar. Ele cruzou os braços, observando-a sorrindo. Ele sempre soubera que ela tinha algo de profundamente igual a si próprio, mas jamais pensara que fosse dessa forma. Quando foi pegar um volume que se encontrava mais próximo de onde ele se encontrava, ao fim da estante, ela finalmente percebeu-o e se sobressaltou.
- Por Merlim, eu nem havia percebido que você está aqui! - eles dois sorriram, ela corou. - Perdão, mas eu estou completamente encantada com sua coleção de livros... Céus, você tem a obra completa de Hermann Hesse! Eu li apenas dois livros dele, mas foi o suficiente para eu me apaixonar completamente pela sua escrita.
- Você tem toda a razão de estar apaixonada - disse ele, sorrindo e sentando-se em sua cama. Convidou-a para sentar-se consigo com um gesto, e ela prontamente sentou ao seu lado. - Hermann Hesse é um dos melhores autores que eu já li.
- Com a quantidade de livros que você já leu, isso é realmente um elogio para ele - sorriu ela, fazendo-o sorrir também. Era claro que ela o admirava profundamente, mas poderia ela perceber o quanto eram profundamente iguais? Poderia ela sentir que ele conseguia ver através da escuridão dos olhos dela? Talvez houvesse sido uma sorte, afinal, não ter podido vê-la crescer. Assim ele não se sentia culpado pelos sentimentos que o dominavam agora. Mas o que o atormentava era o fato de não compreender o que se passava em sua mente. Ele podia percebê-la tão infeliz o quanto ele, tão sozinha em si mesma o quanto ele próprio, mas não conseguia decifrar os olhares intensos que ela dirigia a ele. Nesses momentos sim, os olhos escuros dela tornavam-se fonte de um enigma perturbador e indecifrável. Ele percebeu que ela folheava um de seus livros, cabisbaixa. Havia algo de tão puro e adorável naquele rosto claro e de delicados traços que seu encantamento era muito mais do que justificável, era praticamente inevitável.
- Eu compreendo você - disse ele, subitamente, sem nem mesmo saber o que fazia. As palavras simplesmente escaparam-lhe dos lábios. Já que começara, nada custava acabar. Ela o esperava, olhando atentamente. A intensidade de seu olhar era desconcertante. Ele precisava continuar, e tentar, simplesmente. - Eu sei o quanto é difícil conviver com a eterna cobrança de ser feliz, de ser animado. Também sei o quanto é difícil obrigar-se a viver um cotidiano completamente diferente do que realmente se quer, apenas pelas pessoas que se ama. Sei o quanto é ruim viver numa eterna e profunda mentira. Mas isso significa que somos fortes, de alguma forma, eu acho - sua voz tornara-se embargada e ele se calou. Nunca havia falado dessas coisas a absolutamente ninguém, nunca tivera a coragem necessária de se abrir tão profunda e sinceramente. Os olhos dela estavam cheios d'água: ele estava certo, então.
Olhavam-se então, graves. Algo secreto rompera-se entre eles, um limite que jamais ousariam romper em sã consciência. Pertenciam-se, então. Ele afastou os longos cabelos lisos que caíam sobre o rosto dela, com um carinho. Ela respirou fundo, deixando que uma lágrima escorresse pelo rosto jovem. Ela penetrava seus olhos cinzentos, observava sua barba, seus longos cabelos crespos, sua expressão cansada. Ele era uma forma diferente de sua própria existência. Amaram-se então, sorrindo sinceramente pela primeira vez, como crianças que nunca houvessem aprendido a ser feliz. E eles tampouco aprenderiam.

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