Acomodando-se da melhor maneira que podia, ele sentou-se à porta da barraca, olhando a noite. A neve caía silenciosamente, como se as coisas ainda pudessem ser tão boas o quanto eram da última vez em que nevara. Ele jamais se esqueceria daquela noite, ela estava tão calada mas tão doce, os olhos brilhantes, ela o beijava com intensidade e urgência, acariciava-lhe os cabelos ruivos, sussurrava-lhe tudo o que ele mais amava ouvir e por fim, aconchegava-se em seu corpo, como era habitual, mas que nem por isso perdia seu valor.
Naquela noite ele ficara acordado olhando a neve que caía pela janela, deitado mesmo, enquanto acariciava os longos cabelos lisos dela e ela ressonava tranquila e segura em seus braços. Sua pele, tão branca o quanto a dele, adquiria um brilho especial sob a luz do luar que entrava pela janela, sua expressão serena era tão adorável que ele tinha certeza que, de uma forma ou de outra, eles conseguiriam realizar tudo o que haviam planejado juntos, desde quando eram pequenos. Ele ficara observando a neve até adormecer tranquilamente, enlaçado à ela como se ela fosse sua própia vida - e de certa forma, realmente era.
Infelizmente, porém, nessa neve ela não estava ao seu lado. Ele estava em sua vigília, exposto à neve, tremendo de frio, apesar dos pesados casacos, e tudo que possuía eram duas fotos: uma onde eles estavam sorrindo, abraçados, e outra apenas dela, tirada de surpresa, onde ela sorria através dos olhos, apenas. Ela estava simplesmente do outro lado do país, supostamente protegida, mas ele sabia bem que ela corria tanto risco de vida o quanto ele própio, a única diferença é que ela poderia estar aquecida agora, dormindo tranquilamente perto da Escócia. Ele congelava ali, tentando lembrar de cada detalhe de suas expressões, de sua voz, do toque de sua pele, porque se esses fossem seus últimos momentos, ele queria passar lembrando-se dela. Em sua mente, não apenas as lembranças mais concretas afloravam, mas também as de seus sonhos débeis e infantis de tê-la ao seu lado, sonhos que ele alimentava ainda criança, quando eles brincavam de casinha e ele ficava completamente orgulhoso de poder fingir chegar em casa e chamá-la de "minha querida". Numa tarde particularmente boa, ele contara a ela o quanto gostava de poder, nem que fosse por algumas horas, saber que ela era sua mulher, por mais que fosse de brincadeira. Ela então prometera que um dia realizaria seu sonho.
Ele contava os dias para que aquela guerra injusta acabasse e eles finalmente pudessem se reencontrar, mas não havia a mínima esperança de isso acontecer. Ele estava longe e tinha de fazer a sua parte, a falta dela doía-lhe profundamente, mas ele não podia fugir de suas obrigações morais. Ele não se preocupava com os homens apaixonados por ela que, agora que ele estava tão longe, certamente aproveitariam-se da convivência que mantinham com ela e tentariam se aproximar, não se preocupava se iria se ferir ou até mesmo morrer lutando, só queria vê-la outra vez. Queria sentí-la perto de si, ouvir sua respiração tornando-se densa, perder-se em seus olhos escuros. Isso era a única coisa que importava agora.
Outra lembrança que lhe agradava muito era da última vez em que dançaram. Apesar de estar com olheiras e abatida, ela sorrira verdadeiramente para ele, e estava absurdamente linda em seu longo vestido verde. Ela parecia deslizar graciosamente em seus braços e ele perdia-se admirando sua doçura, seu profundo encantamento. De alguns anos para cá, os olhos dela haviam tornado-se mais expressivos, e naquela noite eles eram claros como o dia: diziam claramente que ela o amava. Ele, e apenas ele, conhecia aquele olhar dela. Eles haviam aprendido a comunicar-se pelo olhar, a aproveitar cada mínimo momento juntos. E às vezes ambos tinham a sensação de que, mesmo que passassem o resto da vida juntos, ainda não seria o bastante. Eram jovens e, para ajudar com a impressão de urgência em tudo, sempre foram reciprocamente apaixonados. Seria um crime não lhes permitir a profunda felicidade sonhada.
- Você já pode ir dormir, o seu turno acabou.
Ele sorriu agradecido para seu amigo e voltou para dentro da barraca, abraçando a si própio, tentando inutilmente aquecer-se. Se ela estivesse ali, iria preparar-lhe uma boa caneca de chocolate quente e iria abraçá-lo até que ele se sentisse confortável, aquecido e feliz. Ele tirou do bolso novamente a foto de ambos e sorriu, aguentaria quantas noites mais fossem necessárias para estar ao seu lado outra vez. Endireitou-se em seu saco de dormir e, pela última vez, num gesto que considerava ridículo mas que não conseguia evitar, acariciou o rosto dela levemente, antes de guardar a foto e fechar os olhos. Imaginou-a em seus braços e finalmente adormeceu, enquanto ela dormia perto da Escócia, fingindo estar nos braços do menino ruivo que sonhava com ela.
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