terça-feira, 23 de novembro de 2010

(Des)Amor

As persianas fechadas impediam que o sol das duas da tarde iluminasse o quarto em desordem. Ele ressonava tranquilo, alegre, parecendo uma criança satisfeita. Fumei dois ou cinco cigarros, não prestei atenção, minha mente trabalhava furiosamente, mas só uma ideia era clara (e gritante): eu precisava sair dali, precisava abandoná-lo e, no fundo, sempre soubera disso. O problema é que agora isso era inevitável. Para o meu própio bem - ou mal definitivo.
Levantei-me do chão, onde estivera sentado fumando durante a última meia hora, observando-o dormir e repensando tudo. Comecei, calma e silenciosamente, a juntar minhas roupas, meus livros, meus cigarros. Surpreendi-me então com a quantidade absurda de coisas minhas que ali havia: parecia que todos os meus livros, discos e roupas estavam naquele apartamento. Lembro-me que isso começou quando esqueci um livro do Caio, Inventário do (Ir)Remediável ali e acabara não levando de volta, porque ultimamente passava mais tempo ali do que no meu própio apartamento. Só não imaginava que, depois do meu livro favorito do Caio, todos os meus livros iriam acabar, aos poucos, indo parar ali, com minhas anotações, minhas marcas de cigarro e café e o meu toque. E o pior é que eu sabia muito bem que quando eu não estava ele cheirava, alisava, apertava os meus livros, como se pudesse extrair deles a minha essência. Mas ele estava errado.
Conhecemo-nos há alguns anos atrás, eu silencioso no meu canto, ele enchendo toda a sala com sua falsa euforia. Éramos inteligentes de diferentes formas: eu, o "intelectual" silencioso, fumante e escritor; ele, o eufórico, fumante e libertino, que lia livros como Rudolf Flügel, que os lia como quem toma água e só absorve o mínimo necessário. Ele, naquele tempo, já me admirava profudamente e tentava aproximar-se, excepcionalmente inseguro, mas de mim só recebia a educação seca e mesclada com desprezo, traços irreparáveis de minha educação inglesa. De fato, desaprovava-o e me repugnavam seus modos excessivamente brasileiros e passionais, sua indiscrição, sua voluptuosidade. Era um jovem histérico e fingidamente eufórico, mas profundamente vazio e infeliz.
Naquele tempo, eu estava bem. Depois da minha primeira crise suicida realmente preocupante, eu havia decidido viver e estava conseguindo, mesmo que às custas de muitas mentiras que eu contava para mim mesmo e nem percebia. Tinha amigos e um amor no qual acreditava, tinha sonhos ingênuos ainda. Mas, aos poucos, tudo começou a apodrecer e morrer. Meus amigos se afastaram, a verdade destruía meus sonhos ingênuos e a depressão voltava. Eu queria me destruir, já que ninguém era honesto e leal. E foi então que ele conseguiu se infiltrar em minha vida.
Dia após dia, apesar do meu mau humor habitual, do meu tom irônico e das minhas tentativas (sempre frustradas) de isolamento, ele esteve ao meu redor, ora tentando conversar sobre um livro que eu estava lendo, ora sobre a banda da qual eu usava camisetas e ouvia canções o tempo todo, e às vezes simplesmente sobre qualquer coisa que pudesse me fazer falar. E ele foi se aproximando aos poucos, me fazendo falar cada vez mais, até que eu próprio

começasse a procurá-lo para conversar. Daí para o sexo não demorou nem uma tarde.
Ele era extremamente carinhoso e até mesmo meio maternal. Eu, apesar de ter sido um filho mimado desde sempre, sempre fora homem solitário e um pouco rude, sem cuidar de ninguém e tampouco esperar que cuidassem de mim. Mas ele me enchia de mimos e elogios, fazendo-me sentir a criança adorada que eu um dia de fato fora, e isso me fazia esquecer, nem que fosse apenas por instantes, que eu já não suportava existir. Isso era bom, mas o problema é que eu me tornei, literalmente, a vida dele. Tudo gira em torno de mim, ele só fala, pensa e age por mim. Seu cotidiano consiste em cozinhar para mim, comprar presentes para mim, ler meus própios livros ou os que fazem lembrar de mim, dar para mim, ou seja, eu sou seu cotidiano, sua pseudo-vida. Feito um parasita imundo, ele tentar sugar a minha existência feito sangue, feito o sangue nojento dele que ele derrama para chamar a atenção.
- O que você está fazendo?
Virei-me, sobressaltado, quase deixando o cigarro cair. Estava acabando de acomodar meus livros de Tolkien na mochila quando ele surgiu na sala, os cabelos crespos desgrenhados, os olhos semicerrados de sono, as pernas morenas e finas expostas. Tateava sonambulamente por um cigarro, e nunca me parecera tão detestável.
- Estou indo embora – praticamente cuspi as palavras, com desprezo e nojo. - O dinheiro do aluguel está sobre a mesa, deixei minha parte por mais três meses, até você conseguir arrumar outra pessoa para dividir o apartamento. Você ainda está com o meu isqueiro do Led?
- Do que você está falando?
- Do meu isqueiro de prata, símbolo do Jimmy Page gravado na frente...Vamos, você sabe qual é!
- Não estou perguntando sobre isso e, de qualquer forma, ele está no bolso de sua camisa, posso vê-lo daqui – ele apontou, levantando-se e vindo na minha direção. - Refiro-me a você dizer que está indo embora. Que loucura é essa?
- Não é loucura alguma, estou apenas fazendo o que eu já deveria ter feito há muito tempo – falei, secamente, enquanto fechava minha mochila e conferia visualmente se não havia me esquecido de nada. Não havia. Ótimo.
- Por que você iria embora?
- Primeiramente, porque o meu curso está acabando e eu realmente preciso tirar as melhores notas para assegurar meu lugar na Inglaterra...
- Como se você não tivesse o seu lugar garantido há muito tempo! Você sempre tirou as melhores notas e isso não serve de desculpa...
- Posso concluir? - perguntei, mais autoritário e grave do que pretendera. Ele calou-se e sentou no sofá, disposto a ouvir. - Obrigado. Além de eu querer garantir meu lugar na Inglaterra, quero também tirá-lo definitivamente da minha vida. Explicados os motivos, retiro-me. Adeus.
Eu estava pegando minhas mochilas quando ele levantou-se de súbito e me segurou pelo braço, forçando-me a olhá-lo, virando-se para ele. Olhava-me já com lágrimas escorrendo, o que me fazia ter ainda mais certeza de que o que eu estava fazendo era o certo a se fazer.
- Por que diabos você tem de ser tão insensível? Eu me entrego completamente a você...

- Ora, não venha me cobrar tudo o que você fez por vontade própria! É extremamente pobre e nojento supostamente se sacrificar pelos outros apenas para reunir material para uma futura chantagem emocional. Você é tão pobre de argumentos que tem de usar isso? Ou melhor, você é tão vazio que tem de argumentar e implorar para alguém não te deixar?
Mais lágrimas escorriam pelo rosto moreno e de grandes olhos. Olhos pedintes, quase olhos de mendigo. Eu sabia que logo ele teria um ataque de raiva e então choraria e imploraria por mim quantas vezes julgasse necessário. Mal acabava de formular este pensamento e ele já limpava as lágrimas com raiva, vindo gritar perto de mim.
- Pois muito bem, então! O Sr.Autosuficiente que se vire pelo mundo! Mas eu devo avisá-lo que ninguém mais irá amá-lo como eu amo, ouvir suas longas filosofias da madrugada, aguentar suas crises existenciais, seus livros pré-históricos, sua frieza e sua presunção! Não iluda-se pensando que os ingleses virão perguntar a cada cinco minutos como você está...
- É justamente isso que não suporto! Por que diabos é tão importante o tal “estar bem” - exasperado, desenhei as aspas no ar -, quando esse mesmo “estar bem” 98% das vezes não passa de uma mentira, uma convenção social?!
- Mas...
- Não me venha com suas ideias hipócritas de felicidade facilmente atingível! Não aguento que você finja o tempo todo que é euforicamente feliz e profundamente intelectualizado, quando na verdade não passa de um menino fútil e mimado, preocupado demais com o tamanho de seu pênis, com sua performance sexual e com a demonstração excessiva de pseudosatisfação para realmente procurar por si mesmo e tornar-se uma pessoa íntegra, ao invés deste débil homem vazio e inútil que você é agora!
- Mas eu leio os mesmos livros...
- Há um abismo entre ler e compreender, e um abismo ainda maior entre compreender e executar! Você decora livros simplesmente para poder parecer intelectual, você não passa de um sanguessuga teatral completamente destituído de vida própria e real existência!
Dito isto, juntei minhas coisas e saí como um furacão, batendo a porta. Meu pulso estava acelerado e minha respiração ofegante, eu nunca havia falado com tanto ódio e sinceridade antes, era educado demais para isso, mas meu ódio era visceral, entremeado de profundo asco, e mesmo assim eu desci correndo as escadas do prédio e corri por quadras e quadras com minhas mochilas chacoalhando estrondosamente, até que eu me julguei suficientemente longe daquela vida que eu levava com ele até então, a vida que eu precisava desesperadamente abandonar. E abandonei. Acendi um cigarro, recuperei o meu fôlego, arrumei minhas mochilas o mais confortavelmente possível e fui caminhando calmamente para o meu antigo e bom apartamento. Eu era um homem livre para viver a minha própria vida sem parasita algum. E vivo até hoje, em Chelmsford onde todos me deixam em paz.


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