O Bullying pode ser definido, simplesmente, pela agressão sofrida nas escolas de certos grupos já pré-determinados. Geralmente os alunos mais quietos, mais dedicados e/ou mais tímidos, são intimidados e agredidos pelos mais fortes. Mas eles são apenas, na verdade, fisicamente mais fortes.
A violência é a última expressão da impotência: quando já não há argumentos e a frustração domina, aqueles que não sabem interpretar seus própios sentimentos acabam agredindo aqueles que lhes fazem se sentir mal, que lhes causam inveja e/ou culpa por serem aquilo que os agressores deveriam ser e/ou não podem ser. As vítimas de bullying acabam acreditando que que há algo errado com eles própios, que os agressores tem razão em todas as ofensas que lhes jogam, e até mesmo acreditam que os agressores são mais poderosos do que eles. O que poucos percebem é que a fraqueza está é no agressor, pois ele precisa agredir uma pessoa inocente para se sentir melhor consigo mesmo. Por vezes, o agressor não é tão inteligente, tão bonito ou tão bem cuidado pela família o quanto alguém da escola, e a visão dessa pessoa causa-lhe dor, pois ela possui o que ele quer e/ou precisa. Como os agressores não tem a maturidade e a educação necessária para compreender a própia dor, eles tentam aliviá-la da forma mais injusta e covarde: causando dor a quem lhes causa dor inocentemente. Obviamente, isso não justifica as agressões, aliás, nada justifica uma agressão. Mas ao menos isso demonstra o quão inferiores os agressores são, e o quanto as vítimas desconhecem seu própio grande valor, suas própias qualidades.
Assim como a maioria dos problemas que existem, o bullying só pode ser resolvido através da educação e também do carinho e do cuidado com as crianças, afinal, uma criança bem educada e bem cuidada (mas sem mimos excessivos, pois estes podem ter o efeito oposto) jamais violentará outra pessoa, pois aprendeu a respeitar os outros e também foi respeitada. Essas crianças, que aprenderam então a respeitar e que encontram apoio das famílias, certamente serão verdadeiramente fortes e mesmo que sejam fortes fisicamente, saberão respeitar os outros, pois a verdadeira força é a interior, e é apenas dela que precisamos.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Todas as Formas
(Texto escrito em 30/06/2010)
A primeira coisa em que geralmente notamos quando revemos uma pessoa que há tempos não víamos, é no quanto ela emagreceu ou engordou. Até mesmo os homens têm reparado nisso de uns tempos para cá. Martha Medeiros falou em uma crônica o quanto se revoltava com isso, pois já aconteceu com ela de ter tido uma filha e ter lançado um livro, e quando reencontrou uma pessoa, a única coisa que ouviu foi "Como você está magra!".
As pessoas (normais) tem uma vida além da tarefa de cuidar do corpo. Fazem coisas muito mais importantes que isso: se formam, têm filhos, conseguem um emprego melhor, mudam de vida. E mesmo assim, as pessoas insistem em antes de tudo ver se o corpo da pessoa está no padrão imposto pela mídia.
Modelos, atrizes e cantoras: todas magérrimas, é só o que se vê na mídia. Por vezes aparece alguma mulher mais natural (não necessariamente acima do peso, apenas não-magérrima), mas esta geralmente não é tão apreciada quanto as outras. Por que? Porque está fugindo, por menos que seja, do padrão esperado.
A ideia de que a beleza tem uma única forma é tão exaustivamente imposta que acabamos por assimilá-la sem nem percebermos que ela não nos pertence. Ela é imposta pelos meios de comunicação, ao mesmo tempo que estes mesmos nos incentivam à uma vida sedentária e à uma má-alimentação. O padrão de beleza que a mídia impõe é de corpos magérrimos e/ou bem definidos. Isso só pode ser obtido através de boa alimentação e exercícios físicos, e então as pessoas que tomam as ideias da mídia por suas se frustram.
É realmente importante cuidar do corpo. Certamente, se não cuidarmos do nosso corpo sofreremos más consequências. Mas não é necessário se tornar magérrimo ou "sarado" para estar saudável. Ter barriga, ter quadris largos, não faz mal algum (sem exageros, é claro). Por vezes uma pessoa normal (que pode ser considerada acima do peso pelos padrões) é muito mais saudável do que uma pessoa que está nos padrões esperados. Pois para ficar nos padrões, pessoas cometem loucuras: ficam sem comer, malham demais e acabam desenvolvendo vários distúrbios, como a anorexia e a bulimia. Assim ficam com o corpo nos padrões - mas também ficam à beira da morte, por vezes. E acaba que de nada valeu "se cuidar" por seja lá quanto tempo que tenha sido: o corpo está debilitado pelos padrões, e o dano por vezes é irreversível.
Nada impede que passemos a vida toda fora dos padrões de beleza. De fato, a maioria das pessoas passa a vida toda longe deles, e o pior de tudo, preocupadas por isso. Mas por que precisamos ser magros para sermos belos? E além do mais, por que precisamos ser belos para termos valor? A beleza é absolutamente relativa, tanto que mesmo entre duas pessoas que estão nos padrões, uma pode ser considerada mais bela do que a outra. A beleza pode estar em corpos rechonchudos, corpos magros, corpos normais. O corpo é apenas a parte palpável do ser humano, que é infinitamente maior que suas limitações corporais. A verdadeira beleza está nos olhos de quem realmente vê, e não apenas enxerga os outros. Gordos, magros, atléticos, não importa: a beleza está em quem não se preocupa com ela. E quem consegue se libertar desses padrões, a mídia já não consegue mais influenciar, pois quem não se importa com os padrões pode apreciar a beleza em todas as suas cores e formas. E isso sim, é imensamente belo.
A primeira coisa em que geralmente notamos quando revemos uma pessoa que há tempos não víamos, é no quanto ela emagreceu ou engordou. Até mesmo os homens têm reparado nisso de uns tempos para cá. Martha Medeiros falou em uma crônica o quanto se revoltava com isso, pois já aconteceu com ela de ter tido uma filha e ter lançado um livro, e quando reencontrou uma pessoa, a única coisa que ouviu foi "Como você está magra!".
As pessoas (normais) tem uma vida além da tarefa de cuidar do corpo. Fazem coisas muito mais importantes que isso: se formam, têm filhos, conseguem um emprego melhor, mudam de vida. E mesmo assim, as pessoas insistem em antes de tudo ver se o corpo da pessoa está no padrão imposto pela mídia.
Modelos, atrizes e cantoras: todas magérrimas, é só o que se vê na mídia. Por vezes aparece alguma mulher mais natural (não necessariamente acima do peso, apenas não-magérrima), mas esta geralmente não é tão apreciada quanto as outras. Por que? Porque está fugindo, por menos que seja, do padrão esperado.
A ideia de que a beleza tem uma única forma é tão exaustivamente imposta que acabamos por assimilá-la sem nem percebermos que ela não nos pertence. Ela é imposta pelos meios de comunicação, ao mesmo tempo que estes mesmos nos incentivam à uma vida sedentária e à uma má-alimentação. O padrão de beleza que a mídia impõe é de corpos magérrimos e/ou bem definidos. Isso só pode ser obtido através de boa alimentação e exercícios físicos, e então as pessoas que tomam as ideias da mídia por suas se frustram.
É realmente importante cuidar do corpo. Certamente, se não cuidarmos do nosso corpo sofreremos más consequências. Mas não é necessário se tornar magérrimo ou "sarado" para estar saudável. Ter barriga, ter quadris largos, não faz mal algum (sem exageros, é claro). Por vezes uma pessoa normal (que pode ser considerada acima do peso pelos padrões) é muito mais saudável do que uma pessoa que está nos padrões esperados. Pois para ficar nos padrões, pessoas cometem loucuras: ficam sem comer, malham demais e acabam desenvolvendo vários distúrbios, como a anorexia e a bulimia. Assim ficam com o corpo nos padrões - mas também ficam à beira da morte, por vezes. E acaba que de nada valeu "se cuidar" por seja lá quanto tempo que tenha sido: o corpo está debilitado pelos padrões, e o dano por vezes é irreversível.
Nada impede que passemos a vida toda fora dos padrões de beleza. De fato, a maioria das pessoas passa a vida toda longe deles, e o pior de tudo, preocupadas por isso. Mas por que precisamos ser magros para sermos belos? E além do mais, por que precisamos ser belos para termos valor? A beleza é absolutamente relativa, tanto que mesmo entre duas pessoas que estão nos padrões, uma pode ser considerada mais bela do que a outra. A beleza pode estar em corpos rechonchudos, corpos magros, corpos normais. O corpo é apenas a parte palpável do ser humano, que é infinitamente maior que suas limitações corporais. A verdadeira beleza está nos olhos de quem realmente vê, e não apenas enxerga os outros. Gordos, magros, atléticos, não importa: a beleza está em quem não se preocupa com ela. E quem consegue se libertar desses padrões, a mídia já não consegue mais influenciar, pois quem não se importa com os padrões pode apreciar a beleza em todas as suas cores e formas. E isso sim, é imensamente belo.
sábado, 25 de setembro de 2010
"Cult" Não Existe
Blogs são criados gratuitamente, então, qualquer pessoa com acesso à internet pode tranquilamente criar seu blog e postar quantas vezes quiser. Pena não haver um filtro de blogs na internet, porque é cada porcaria que se vê por aí que chega a ser inacreditável.
É claro que existem blogs maravilhosos, que existem pessoas que realmente escrevem bem por aí e postam na internet. Mas existe uma série de blogs que são todos iguais: diários disfarçados, com postagens ridiculamente pequenas e obviamente endereçadas ao pretende de uma menininha qualquer. Não me oponho à demonstração de sentimentos em blogs, eu própria ameaço expor minha alma às vezes. Mas bom senso e bom gosto é necessário, uma certa discrição também. E isso é coisa que a maioria das meninhas que andam escrevendo por aí não tem.
O pior de tudo é que esses blogs de menininhas mimadas não se limitam à apenas mostrar seu pequeno mundo fútil. Para piorar a situação, algumas ainda colocam citações (algumas até com autores trocados) de autores como Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu sem nunca terem lido um livro sequer deles, coloca o trecho de uma música dos Beatles e acham que entendem de rock, criam cenas absolutamente previsíveis com personagens burguesas e rasas, típicas meninas que tentam demonstrar uma falsa profundidade, uma falsa cultura.
Acho incrível que cada vez mais pessoas possam e se interessem por escrever, ainda mais jovens. Honestamente, considero isso encantador, o interesse por livros, por boas músicas, bons filmes - mas o real interesse. Pior do que nunca ter ouvido falar em certos autores e certos filmes, é ter visto e lido tudo apenas para ser "cult", para tentar demonstrar uma falsa profundidade, um falso interesse pelos livros, pela arte, pela escrita e pelo cinema. Assistir Almodóvar para contar para os amigos mas não perder a Sessão da Tarde é deplorável. Dizer que Clarice Lispector é perfeita sem nem saber da existência de Água Viva nem se fala. Ouvi falar que até mesmo há quem use óculos sem necessidade, só para parecer inteligente, parecer o que se define por "cult". E é por essas e outras que tenho vergonha da minha geração.
Blogs com falsa profundidade, com falsa cultura, são fáceis de encontrar e existem aos montes por aí (e me parecem todos iguais), assim como essas meninas que estão por trás deles. Seria muito mais digno se essas meninas colocassem como título de cada postagem "Querido Diário" e se limitassem a assistir os filmes água com açúcar que de fato lhes interessam. Que deixassem as maravilhosas bandas antigas, os bons escritores e os bons filmes para aqueles que realmente os apreciam. Porque o conceito de "cult" que essa geração possue é ridículo e frívolo - como quase todos os jovens que a compõem.
O pior de tudo é que esses blogs de menininhas mimadas não se limitam à apenas mostrar seu pequeno mundo fútil. Para piorar a situação, algumas ainda colocam citações (algumas até com autores trocados) de autores como Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu sem nunca terem lido um livro sequer deles, coloca o trecho de uma música dos Beatles e acham que entendem de rock, criam cenas absolutamente previsíveis com personagens burguesas e rasas, típicas meninas que tentam demonstrar uma falsa profundidade, uma falsa cultura.
Acho incrível que cada vez mais pessoas possam e se interessem por escrever, ainda mais jovens. Honestamente, considero isso encantador, o interesse por livros, por boas músicas, bons filmes - mas o real interesse. Pior do que nunca ter ouvido falar em certos autores e certos filmes, é ter visto e lido tudo apenas para ser "cult", para tentar demonstrar uma falsa profundidade, um falso interesse pelos livros, pela arte, pela escrita e pelo cinema. Assistir Almodóvar para contar para os amigos mas não perder a Sessão da Tarde é deplorável. Dizer que Clarice Lispector é perfeita sem nem saber da existência de Água Viva nem se fala. Ouvi falar que até mesmo há quem use óculos sem necessidade, só para parecer inteligente, parecer o que se define por "cult". E é por essas e outras que tenho vergonha da minha geração.
Blogs com falsa profundidade, com falsa cultura, são fáceis de encontrar e existem aos montes por aí (e me parecem todos iguais), assim como essas meninas que estão por trás deles. Seria muito mais digno se essas meninas colocassem como título de cada postagem "Querido Diário" e se limitassem a assistir os filmes água com açúcar que de fato lhes interessam. Que deixassem as maravilhosas bandas antigas, os bons escritores e os bons filmes para aqueles que realmente os apreciam. Porque o conceito de "cult" que essa geração possue é ridículo e frívolo - como quase todos os jovens que a compõem.
Prece
Depois de ligar o som, ela entrou na banheira de água quente e espumante, acomodando-se confortavelmente. Fechou os olhos. A sensação da água quente na pele fria era um dos poucos prazeres que ela ainda possuía, além de ver os olhos dele - o que de fato, já não era tão inspirador de esperanças, mas isso era bom por um lado. Sim, era bom.
Suas olheiras nunca haviam sido tão gigantes, ou melhor, ela nunca havia tido olheiras até então. Mas agora elas saltavam, quase gritavam roxas em sua pele alva. Gritavam um mudo pedido de socorro, socorro este que não podia ser dado por quase ninguém no mundo: eram noites de insônia por amor e dor. Ela tentava manter-se firme, mas as fissuras apareciam, não só pelas olheiras que só aumentavam, mas pela falta de apetite, pela constante insônia, pelo abatimento constante. Os amigos íntimos e os familiares se preocupavam, a mãe a fazia ir a psicólogos, religiosos, fazia-a comer, tentar viver um pouco mais, mas de nada adiantava. Ela podia ver nos olhos úmidos da mãe (outrora tão duros e frios) o grito silencioso que acusava o quão nova ela era, o quanto sua entrega era demasiada. Mas a mãe sabia que a filha era assim, se entregava por inteiro pelos sonhos, podia cair doente mesmo de amor - porque não era e jamais seria romântica, mas se fosse para amar, amaria de verdade. E agora estava amando.
Ela acendeu um cigarro, deu uma tragada profunda, o que sempre servia de breve alívio para sua angústia. Os pais cuidando cada suspiro seu, os amigos preocupados, de que tudo isso adiantava? Sua dor era profunda mas de fácil resolução - continuava tão disposta a se entregar como sempre estivera. Mesmo depois de tudo ter doído tanto nela, ela secretamente sabia que ainda seria capaz de cumprir cada promessa feita naquela noite de conversa tão boa, tão incrivelmente parecida com um sonho. As lágrimas de felicidade que rolaram pelo seu rosto naquela noite confirmaram, de súbito, o quão irremediavelmente ela estava envolvida, o quão entregue estava mesmo sem ter se dado por conta. Quando se dera por conta, já era tarde, já sonhava com ele a vida que um dia poderiam ter juntos. Será que ainda poderiam?
Sua vida havia ganhado uma nova perspectiva quando revelara seus sentimentos a ele e fora correspondida muito além de seu mais ambicioso sonho. Jamais ousara sequer sonhar com tanto amor, com sonhos tão belos, afinal, ela não tinha esses costumes. Mas ele era sua exceção, por ele se entregava, aguardava, sofria sorrindo. Era quase como se toda lágrima derramada fosse apagada pelo brilho dos lindos olhos verdes dele. Sim, estranhamente, quando o via não lembrava de lágrimas, de dúvidas, de sonhos: ele estava ali e a sua presença a dominava, a enchia de alegria, então, nada mais tinha grande importância. Queria tê-lo, sim, nunca havia desejado tão pura e intensamente alguém na vida. Engraçado que por tanto tempo ela própia não se desse por conta de um sentimento tão grande, mas talvez isso fosse a maior prova que era verdadeiro - foi se instalando devagarinho, se espalhando silenciosamente feito “uma plantinha que vai crescendo e tomando conta de tudo”.
Havia passado por muitas coisas desde a noite em que trocaram promessas, em que sonharam juntos. Mas nada conseguia fazê-la desistir, justo ela que tinha a maior facilidade de abandonar tudo. Ela não se prendia mas subitamente viu-se completamente ligada à esse homem, tão culto e tão belo, tão imensamente encantador que ela chegava a ficar sem palavras, sem adjetivos. Nunca vira alguém olhá-la daquela forma, ensiná-la com tamanha doçura, chamar seu nome tão melodiosamente, enfim, ninguém conseguia fazer tanto bem a ela pelo simples fato de existir. Uma vez escrevera para ele e dissera isso, teria ele sorrido com isso? Às vezes se pegava imaginando como teria sido quando ele havia achado aquelas páginas que ela escrevera manualmente, aquelas páginas que milagrosamente não haviam caído de dentro do livro onde ela as colocara. Teria ele sorrido, se emocionado, ou seriam apenas páginas de palavras que não o comoveram em absoluto?
Dando um profundo suspiro, ela fechou os olhos, lutou contra a ardência nos olhos. Disseram à ela que ele lia tudo que ela escrevia, mas ela não podia ou mesmo não queria acreditar nisso. Ele era sua maior inspiração, seu personagem principal, não poderia ele se ver nos contos? Ele não se via no homem de olhos verdes que dominava as histórias, que era pai de sua filha, que a amava em silêncio numa cafeteria, que a puxava contra si acariciando sua bochecha com a barba por fazer? Não via ali a si própio descrito nos sonhos dela? Ela ouvia músicas que ambos gostavam e mergulhava na água que começava a esfriar, ficava submersa até não suportar mais, apenas para voltar para a superfície com o desespero por ar e ser saciada. Nunca o tocara, nunca dissera a ele que ainda mantinha suas promessas, seus sentimentos. Como seria tocar aquela pele tão sensível? Sentir os lábios se tocando, os olhos verdes brilhando mais próximos do que nunca... No fundo ela sentia que isso jamais aconteceria, por mais que soubesse que era possível. Não, ela não podia continuar sonhando para depois doer ainda mais. Não, não suportaria mais sonhos perdidos ao vento.
Por um momento ela tentou ser mais uma vez compreensiva, tentou ver as dificuldades que ele via. Mas simplesmente não encontrava empecilho que não pudesse ser enfrentado em sua ardente vontade de compartilhar sua vida com ele. O que lhe parecia, na verdade, é que eram todas dificuldades externas, afinal, para eles o fato de ele ser mais velho, o fato de já ser um homem formado e ela apenas uma moça tão jovem não impediram que se envolvessem, que sonhassem juntos. Então por que se importar? No fundo ambos sabiam que a diferença de idade era apenas um simbolismo, que importância tinha e jamais poderia ter ele já ser professor enquanto ela era tão jovem? Na penumbra silenciosa e eterna de um quarto isso sequer existiria. Mas ela não podia tirar os medos dele, não podia fazer nada quanto à isso. E doía - profundamente, doía.
Tanta coisa havia se perdido no silêncio, na dúvida, nos mal-entendidos, mas ela nunca, nem sequer por um momento desistira. Era insegura demais para demonstrar o quanto ainda o queria, o quanto ainda nutria profundos sentimentos por ele, e sabia que ele também era inseguro e não conseguiria agir sem a segurança da certeza de reciprocidade. Como não conseguia mudar, não conseguia demonstrar tudo abertamente, ela fazia sua silenciosa prece: escrevia tudo. Sim, escrevia incansavelmente e mesmo inconscientemente rezava para que ele lesse tudo, para que através das metáforas e de cada entrelinha ele percebesse que ela ainda estava ali, sempre estaria. Por trás de cada palavra, cada história, ela abria seu coração, se entregava para ele e sua prece era que ele lesse, que percebesse que nada era ilusão: eram de fato os olhos verdes dele que povoavam toda história e todo sonho dela. Limpando as lágrimas, ela saiu da banheira que já tinha a água fria e enrolou-se num roupão, abraçando a si própia enquanto torcia para que ele compreendesse o que ela não podia dizer. E sorria com a lembrança dos brilhantes olhos verdes que para sempre haveriam de habitar seus sonhos.
sábado, 18 de setembro de 2010
Sonho de uma noite de inverno
Ao que tudo indicava, aquela seria apenas mais uma noite solitária. Ele preparou uma xícara de café, acendeu seu cigarro e se resolveu por reler O Senhor dos Anéis, já que não sentia sono algum. Sentou-se em sua confortável poltrona de leitura e, antes de abrir o pesado livro que continha os três volumes juntos, olhou pela janela e se encantou: era a primeira neve do ano. Sorriu involuntariamente e, largando o livro, foi debruçar-se sobre o parapeito para olhar a noite sem estrelas e a neve que caía. Desde pequeno, sempre adorara a neve e agora, mesmo que estivesse sofrendo, ela lhe trazia um conforto inexplicável, mesmo que trouxesse lembranças magníficas e dolorosas. Sem conseguir evitar a dor, lembrou-se de brincar com ela na neve, no encantamento que havia nos olhos castanhos que pela primeira vez viam a neve. Ela tinha um sorriso inocente, uma pureza inigualável, que era confirmada pela forma que seus olhos tinham de brilhar. Lembrava-se do quão encantada ela ficara em poder ter uma família ali, poder ter abrigo, e quanto medo ela tinha em ser amada por ele, em permitir-se a entrega profunda a ele. Sentia tanto medo que fugira, que desistira dos belíssimos sonhos que haviam tido juntos, da vida maravilhosa que poderiam ter. Tudo pelo medo da dor, pelo medo do desespero da perda depois.
Sem que pudesse evitar, lágrimas corriam pelo seu rosto. Não importava: ele era um homem sensível e isso não o fazia menos homem, muito pelo contrário, tornava sua vida muito mais difícil. Mas o fato é que ela sabia compreender sua sensibilidade e parecia sofrer das mesmas dores, da mesma doçura inexplicável de alma, da mesma inocência e pureza de sentimentos. Eles haviam sonhado juntos e ela tinha medo. Agora ela havia ido embora e estava desabando, mas mesmo assim não voltava. Ela não podia perceber que, o ponto onde poderiam escolher entre ficar juntos ou se afastarem sem sofrer já havia passado? Que a tênue ruptura já havia acontecido em algum momento? No fundo, ela deveria saber, mas não admitia. Não até não poder suportar a dor, era a esperança dele. Por mais cruel que pudesse ser, ele esperava que a dor mostrasse a ela que depois de tudo o que haviam sonhado, o único possível caminho para serem felizes era tentando realizar todos os sonhos juntos, era vivendo aquele amor que ambos sentiam e só se fazia impossível pelo temor.
Esses pensamentos todos eram-lhe insuportáveis, então ele voltou a se sentar, apagando o cigarro, largando a xícara já quase vazia de café e massageando as fontes por um longo momento, fechando os olhos, respirando profundamente. Tudo isso já causara dor demais, mas ele simplesmente não conseguia deixar tudo de lado. Ele havia construído uma vida sozinho, mas sua perspectiva mudara quando ela chegou, quieta e perdida, mas com um brilho diferente no olhar. Ela despertava algo até então desconhecido nele, ele queria protegê-la, amá-la profundamente, tê-la sempre ao seu lado, evitar todo e qualquer desapontamento naquele rosto tão jovem, porém já com tanta dor por trás dos escuros olhos. Ela não fazia esforço algum para disfarçar a enorme admiração que sentia por ele, ela era doce e se entregava a ele pelo olhar, pelos gestos carinhosos, pelas palavras gentis. Repentinamente, ele se deu por conta outra vez do quanto a simples presença dela fazia falta, e do quanto isso o aniquilava. Por que tinha de amá-la tão profundamente? Ambos nunca quiseram algo assim, mas as proporções aos poucos se tornaram assustadoramente gigantescas. E agora, tudo doía.
Ele acendeu outro cigarro e começou a ler: os livros eram seu único consolo. Lendo, por vezes ele conseguia se esquecer de si próprio e então se tornava mais fácil viver por um momento. Mas logo qualquer palavra, qualquer personagem lembrava-o dela. E então toda paz construída era destruída.
Pelo menos, naquela noite ele fizera uma boa escolha. O livro conseguiu distraí-lo completamente, e já fazia mais de hora que ele estava lendo, quando a campainha tocou. Irritado por ser interrompido, ele se levantou e rabugento foi atender a porta, afinal, que pessoa teria tal falta de educação de procurá-lo na madrugada? Abriu a porta de cara fechada, mas o choque foi tanto que ele quase caiu para trás: com olheiras, mais magra, extremamente pálida e com neve por toda a roupa e cabelos, ali estava ela, os olhos brilhando de lágrimas, mordendo o lábio inferior num gesto infantil de dor, mas que era tão próprio dela que ele o amava. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, enquanto ele a olhava, estupefato, mas não foi capaz de dizer nada. Ele podia ouvir a respiração dela arfante, que logo se misturou com o som da sua própria. Seus olhos cinzentos de lobo então transbordaram e, sem pensar, ele a puxou contra si como se se abraçasse à sua própria vida. Permitiram-se então chorar sem medo nem vergonha: amavam-se. Ambos não tinham coragem de se beijar, de se mover, mal podiam respirar, tinham medo de que aquele fosse apenas mais um sonho de que enfim pudessem ficar juntos. Mas não era. No fundo, eles sabiam que haviam chegado ao limite da resistência, quase ao limite da loucura. Precisavam um do outro simplesmente porque se amavam. Então, com um riso que se misturava ao choro, eles se afastaram para se olhar nos olhos, para sorrirem verdadeiramente como jamais antes souberam fazer. Ele acariciou levemente o rosto dela, e ambos sabiam perfeitamente bem, qualquer um saberia o que estava prestes a acontecer. Ambos souberam então, profundamente, que o momento pelo qual esperaram e temeram por anos havia finalmente chegado. E os lábios finalmente se encontraram – e tudo mais deixou de existir.
Sem que pudesse evitar, lágrimas corriam pelo seu rosto. Não importava: ele era um homem sensível e isso não o fazia menos homem, muito pelo contrário, tornava sua vida muito mais difícil. Mas o fato é que ela sabia compreender sua sensibilidade e parecia sofrer das mesmas dores, da mesma doçura inexplicável de alma, da mesma inocência e pureza de sentimentos. Eles haviam sonhado juntos e ela tinha medo. Agora ela havia ido embora e estava desabando, mas mesmo assim não voltava. Ela não podia perceber que, o ponto onde poderiam escolher entre ficar juntos ou se afastarem sem sofrer já havia passado? Que a tênue ruptura já havia acontecido em algum momento? No fundo, ela deveria saber, mas não admitia. Não até não poder suportar a dor, era a esperança dele. Por mais cruel que pudesse ser, ele esperava que a dor mostrasse a ela que depois de tudo o que haviam sonhado, o único possível caminho para serem felizes era tentando realizar todos os sonhos juntos, era vivendo aquele amor que ambos sentiam e só se fazia impossível pelo temor.
Esses pensamentos todos eram-lhe insuportáveis, então ele voltou a se sentar, apagando o cigarro, largando a xícara já quase vazia de café e massageando as fontes por um longo momento, fechando os olhos, respirando profundamente. Tudo isso já causara dor demais, mas ele simplesmente não conseguia deixar tudo de lado. Ele havia construído uma vida sozinho, mas sua perspectiva mudara quando ela chegou, quieta e perdida, mas com um brilho diferente no olhar. Ela despertava algo até então desconhecido nele, ele queria protegê-la, amá-la profundamente, tê-la sempre ao seu lado, evitar todo e qualquer desapontamento naquele rosto tão jovem, porém já com tanta dor por trás dos escuros olhos. Ela não fazia esforço algum para disfarçar a enorme admiração que sentia por ele, ela era doce e se entregava a ele pelo olhar, pelos gestos carinhosos, pelas palavras gentis. Repentinamente, ele se deu por conta outra vez do quanto a simples presença dela fazia falta, e do quanto isso o aniquilava. Por que tinha de amá-la tão profundamente? Ambos nunca quiseram algo assim, mas as proporções aos poucos se tornaram assustadoramente gigantescas. E agora, tudo doía.
Ele acendeu outro cigarro e começou a ler: os livros eram seu único consolo. Lendo, por vezes ele conseguia se esquecer de si próprio e então se tornava mais fácil viver por um momento. Mas logo qualquer palavra, qualquer personagem lembrava-o dela. E então toda paz construída era destruída.
Pelo menos, naquela noite ele fizera uma boa escolha. O livro conseguiu distraí-lo completamente, e já fazia mais de hora que ele estava lendo, quando a campainha tocou. Irritado por ser interrompido, ele se levantou e rabugento foi atender a porta, afinal, que pessoa teria tal falta de educação de procurá-lo na madrugada? Abriu a porta de cara fechada, mas o choque foi tanto que ele quase caiu para trás: com olheiras, mais magra, extremamente pálida e com neve por toda a roupa e cabelos, ali estava ela, os olhos brilhando de lágrimas, mordendo o lábio inferior num gesto infantil de dor, mas que era tão próprio dela que ele o amava. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, enquanto ele a olhava, estupefato, mas não foi capaz de dizer nada. Ele podia ouvir a respiração dela arfante, que logo se misturou com o som da sua própria. Seus olhos cinzentos de lobo então transbordaram e, sem pensar, ele a puxou contra si como se se abraçasse à sua própria vida. Permitiram-se então chorar sem medo nem vergonha: amavam-se. Ambos não tinham coragem de se beijar, de se mover, mal podiam respirar, tinham medo de que aquele fosse apenas mais um sonho de que enfim pudessem ficar juntos. Mas não era. No fundo, eles sabiam que haviam chegado ao limite da resistência, quase ao limite da loucura. Precisavam um do outro simplesmente porque se amavam. Então, com um riso que se misturava ao choro, eles se afastaram para se olhar nos olhos, para sorrirem verdadeiramente como jamais antes souberam fazer. Ele acariciou levemente o rosto dela, e ambos sabiam perfeitamente bem, qualquer um saberia o que estava prestes a acontecer. Ambos souberam então, profundamente, que o momento pelo qual esperaram e temeram por anos havia finalmente chegado. E os lábios finalmente se encontraram – e tudo mais deixou de existir.
sábado, 11 de setembro de 2010
Mariana
- O... papai... está... muito velho para isso! - arfava ele, levando a pequena nas costas, fazendo-a rir. Eles já estavam quase no corredor quando a pequena olhou para a mãe que permanecera no sofá com seu livro, dizendo:
- Mas mamãe, hoje não é dia de você me contar histórias antes de dormir?
- Você tem razão, meu bem - disse a mãe, levantando-se deixando o livro de lado.
- Traz seu livro mamãe!
- Mas filha... - ela hesitou, olhando para o livro. Era uma seleção de contos de Clarice Lispector, era adaptável à filha. Pegou o livro então enquanto ele corria com a menina nas costas, falando que a havia sequestrado por aquela noite, fazendo a menina rir. A mãe balançou a cabeça dando um sorriso tímido, que era sua forma de rir por dentro. Era tão feliz que às vezes tentava se esquecer de tudo que tinha só para se surpreender com uma realidade tão perfeita. E sorria com os olhos, sempre.
Entrou no quarto já lembrando do quão parecido com um sonho tudo aquilo era. A menina já estava na cama e ele ainda a fazia rir, como sempre. Observou os dois, tão cúmplices e tão profundamente parecidos. Temera que o supostamente inevitável acontecesse: que a filha fosse mais apegada a um dos dois, mas ela parecia ser uma exceção. Amava-os sem distinção, e isso os encantava ainda mais.
Ao ver que ela estava na porta, ele beijou carinhosamente a filha no topo da cabeça e, ao passar pela mulher, afagou-lhe os cabelos, dizendo:
- Vou permitir que as mulheres que dão beleza e sentido à minha existência fiquem a sós - ele sorriu e beijou a mulher no rosto antes de finalmente se retirar. - Estarei lendo na sala, como sempre.
As duas trocaram um sorriso cúmplice e a mãe foi sentar na poltrona ao lado da cama da filha.
- O que vai ser hoje, moça?
- Bem, eu tinha pensado em algum conto do seu livro mas... - ela franzia o cenho exatamente da mesma forma que seu pai fazia. Já não bastasse ter herdado seus brilhantes olhos verdes, tinha também suas feições, suas maneiras. - eu estive pensando mamãe, por que diabos eu me chamo Mariana? Com tantos nomes bonitos nesse mundo, com você e papai sempre lendo livros com personagens de nomes incríveis... Por que Mariana? Qualquer pessoa por aí coloca um nome desses. Vocês dois poderiam ter me chamado de tantos outros nomes tãão mais bonitos!
Mariana bufou e sua mãe riu. Ela era uma mistura tão perfeita dos dois que ela nunca teve dúvidas de que esse era o nome perfeito.
- Bem, você não vai gostar de ouvir, meu amor - disse a mãe, já rindo. - É longa história, mas pode ser resumida se você ouvir uma só música.
- Qual?
- Ana e o Mar, você deve se lembrar dessa.
- Claro mamãe, você sempre ouve essa música - disse ela, sorrindo. - Mas pelo menos é uma das que eu mais gosto. Já achei que você ia me contar uma história terrível.
- Não é terrível, não, querida, mas talvez você ache - ela observou a filha, que mantinha os olhos atentos sobre a mãe. Ela quase podia ver o mesmo brilho de outros olhos verdes ali. Sabia que se chegasse à sala agora, ele levantaria os olhos verdes do livro, iguais aos da filha. Esses detalhes, esses encontros evidentes da mistura que Mariana era dos dois, encantavam a ambos, como se fossem pequenas novas confirmações de que estavam eternamente ligados. Mas com ou sem Mariana, sempre foram ligados, no fundo sabiam disso - mas era uma alegria grande demais para que eles se permitissem acreditar.
- Bem, você se lembra da história da música, certo? - Mariana, com total atenção e interesse assentiu com a cabeça, num gesto que segundo ele, ela fazia exatamente igual à sua mãe. - Pois bem, você é Mar i ana - falou ela, pausadamente. - É toda essa mistura incrível do mar que se apaixonou por uma menina, por mais errado e impossível que seja. Você tem olhos verdes de mar e cabelos ruivos e livres de menina que ama o mar. Você é a consumação viva de um sonho, a prova viva de que o amor verdadeiro não conhece qualquer tipo de limite ou empecilho!
- Mamãe, eu nunca vi você falando tão empolgadamente assim sobre algo que não fosse filosofia, seus olhos estão brilhando e eu não quero te desapontar, mas... Isso é tão brega mamãe! Porque é óbvio que papai é o mar e você é "Ana". Eu tenho os "olhos verdes de mar" iguais aos do papai e os teus cabelos ruivos, e todo mundo vive dizendo que eu sou exatamente a mistura de vocês dois, não puxo mais pra nenhum lado. Clarice seria tão melhor mamãe, tãão melhor - disse ela, dando um muxoxo baixo e fazendo sua mãe rir. Não sabia de onde Mariana tirava tanta astúcia tendo apenas 7 anos, mas ela era perfeita. Sim, um anjo perfeito.
- Tudo bem meu amor, você tem razão - disse ela, ainda rindo. - Eu e seu pai deveríamos ter escolhido um nome melhor, como Clarice, que era mesmo uma das opções, ou Alice quem sabe?
- Hum, Alice é bom, mas ainda prefiro Clarice - disse Mariana, com seus olhos brilhando sonhadoramente. - De qualquer forma, você não se importaria de ler Alice no País das Maravilhas outra vez para mim, mamãe?
- É claro que não, meu bem - disse ela sorrindo e indo buscar o livro na estante da filha. Quando ela voltou, Mariana a olhou com apreensão e timidez em seus brilhantes olhos verdes.
- Desculpe mamãe, por ter dito que era brega essa história toda do meu nome - então, mesmo à luz do abajur, pode-se perceber que ela corou. - É só que amo vocês dois demais e tenho vergonha de dizer. Na verdade, é o maior elogio que me digam que eu sou a mistura exata de vocês dois, porque eu admiro muito vocês. Chamar-me de Mariana já é um grande elogio, mamãe.
A mãe não respondeu, dando apenas um enorme sorriso e um carinhoso beijo no topo da cabeça da filha. Leu então o livro e logo Mariana adormeceu. Ela permaneceu ali a admirar a filha adormecida: tinha seus lábios e seus cabelos, mas os olhos e o nariz dele. Tinha uma incrível mistura das manias e dos gestos de ambos, herdara também de ambos o amor pelos livros, o encantamento pela vida. Era livre e alegre como nenhum dos dois jamais fora, e isso os fazia ainda mais felizes.
- Ela é totalmente perfeita, não é mesmo? - disse ele, se juntando a ela para observarem juntos aquele ser, aquela pessoinha que era formada por uma parte de cada um deles, que os encantava dia após dia, que era um reflexo do que ambos eram.
- Sim, e ela tem razão - disse a mãe, pensativa. - É realmente brega esse negócio todo do nome dela. Por que não Clarice? Nós dois sempre gostamos e vivemos relendo os livros dela.
Ele riu, abraçando-a carinhosamente contra si enquanto iam para seu quarto. Ela sorriu no escuro, beijando demoradamente o rosto dele.
- Vocês duas não tem do que reclamar, principalmente você - começou ele, fingidamente furioso. - Você que se escolheu se casar com um poeta velho e incorrigivelmente sensível. Eu avisei que você tinha o mundo pela frente mas você insistiu, então não reclame de minhas breguices e eu não me importo, eu vou continuar escrevendo poesias para você, mesmo que você se oponha ferozmente à isso!
Ambos riram baixinho para não acordar o sonho deles que dormia no fim do corredor, e foram para mais uma noite juntos. Para eles, não havia qualquer conceito de brega ou não: eles viviam intensamente todo e qualquer sentimento que tinham, sem se importar com tudo mais. Daí é que tiraram coragem para seguir se amando, apesar de tudo. Daí nascera Mariana - e era lindo.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O Ato
"Uma vez, aliás , agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? Que devo fazer?”. Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada."
Clarice Lispector – Uma Esperança (Conto)
Fingindo arrumar seus papéis, ela esperava que ele se sentasse na cadeira defronte. Não esperavam nada e mesmo assim estavam ansiosos, sempre tinham esse receio e esse desejo de estarem juntos. Ele já chega sorrindo, já chega pousando seus belos olhos brilhantes sobre ela, e os sorrisos de ambos são inevitáveis. Olham-se nos olhos com tanto amor que é quase um desperdício apenas olhar. Mas permanecem em silêncio, sorrindo, se olhando. Como talvez sempre devessem ter permanecido.
Estranha e felizmente, as horas iam passando mas a luminosidade não mudava. O sol incidia sobre ambos e davam um brilho, um tom diferente aos olhos verdes dele. Os olhos brilhavam mais sob essa luz, e ela se alegrava. Era uma manhã de paz, a brisa acalmava ambos e a claridade era agradável. Nada mais existia, exceto pelos olhos que se amavam em silêncio. Tudo mais era superflúo - inclusive o passado.
Por um momento, ela parou de ler para tomar um gole de seu café e olhar outra vez nos olhos verdes. Mentiras, verdades, silêncios, dificuldades, sonhos - que diferença isso tudo fazia agora? Mesmo as pessoas que estavam nas mesas ao redor pareciam estar envolvidas na mesma paz alegre, na mesma tranquilidade satisfeita deles. Sabia que aqueles grandes olhos que a olhavam com tanto brilho haviam sido sinceros, mas não sabia o que fazer. O menor ato poderia ter implicações catastróficas - e ela tinha medo.
Lembrou-se então de outros tempos. De outras manhãs onde ele era a própia claridade perfeita, onde ela se permitia amá-lo sem medo, pois amava sem saber. Seria amor a palavra? Não sabia, mas sabia que havia afeto e carinho. E nessas outras manhãs ela lembrava bem que por vezes, era ele que se perdia nela e era inexplicável. Então ela, mesmo sem perceber, tinha uma esperança leve, tinha uma alegria a mais, tinha mais sorrisos para seu dia. Era uma esperança tão delicada e tão pequena que ela nem ousava formulá-la em palavras, não tentava racionalizá-la, pensar o que poderia significar, não ousava sonhar de fato com o que poderia acontecer, pois não queria perdê-la. E talvez, de fato, jamais viesse a perder.
Mas um dia as coisas mudaram - ou teria sido gradualmente? Sim, provavelmente foi aos poucos que tudo fluiu, a cada olhar, cada palavra trocada, aos pouquinhos ele existia mais nela e vice-versa, e junto com tudo isso a esperança. Algo de inexplicavelmente bom e totalmente inominável de tão novo crescia rápida e silenciosamente dentro dela, e era maravilhoso, era quase um desabrochar, que provavelmente era daquela esperança tão pequena e delicada por fim se desenvolvendo gigantesca e livre. Mas então um pequeno ato mudou tudo, uma madrugada de conversa franca mudou tudo, aumentou o que já crescia e trouxe mais brilho para os olhares. Mas acabou por quase destruir tudo.
Agora a paz parecia haver voltado para ambos. Era difícil, mas de alguma forma a vida seguia em frente e eles sempre estavam ali, sentados um defronte do outro, às vezes sorrindo em silêncio, às vezes apenas se olhando, e nesse ato mesmo que sem querer, entregando-se um ao outro. Era maravilhosamente bom outra vez, apesar de todo e qualquer apesar.
O problema era que aquela manhã era perfeita demais - o dourado da luz solar, a brisa refrescante, as belas palavras, os risos que ameaçavam encher a cafeteria: outra vez eles eram um do outro sem que se dessem por conta. Tudo parecia dizer para que ela consumasse o ato, mesmo que ela própia considerasse que tudo já havia sido feito e dito. Olhou então para os brilhantes olhos verdes que já a olhavam. Respirou fundo, tomou coragem e permaneceu em silêncio. Era um dia perfeito demais para poder ser estragado por qualquer palavra errada, por qualquer esperança grandiosa em demasia. Ambos sorriram e coraram, e ela teve certeza que jamais se arrependeria de ter dito sim a ele um dia. Porque sim, ela estava à mercê de qualquer ato, qualquer palavra, qualquer brilho de olhar. Mas nada aconteceria, nada jamais acontecia. Então o ato se tornava o amor trocado em silêncio, os olhos brilhando inexplicáveis. E os sorrisos tímidos que por si só já eram um ato de amor.
domingo, 5 de setembro de 2010
Preservar.
Ele olhou para o lado na cama e ficou a observá-la lendo. Teve de sorrir, aquela expressão extremamente séria era encantadora. Era uma bela imagem: os óculos davam-lhe um ar de criança inteligente, o cigarro jazia quase esquecido na mão direita, os olhos completamente cravados no livro.
- Sabe, eu nunca pensei que um dia eu teria você na minha cama lendo Água Viva. Quando imaginávamos juntos cenas de nós dois, eu nunca pensei que pudesse de fato ter você um dia.
Ela sorriu, dando uma longa tragada no cigarro e fechando o livro. Um sorriso sem mostrar os dentes, entre tímido e maroto. Um sorriso perfeito.
- Eu não quero acreditar que estamos aqui, honestamente. É tão...gostoso, sei lá - ela riu, tímida, e ele a envolveu em seus braços, beijando-a no rosto, carinhosa e profundamente. A barba era uma carícia a mais contra a pele delicada e clara. Ambos suspiraram profundamente, em sincronia, como faziam às vezes sem sequer perceber.
- Queria encontrar uma maneira de não te perder nunca, de te fixar ao meu tempo. Porque às vezes parece que o tempo é uma eternidade só quando não estamos juntos, e isso é tão depressivamente clichê que eu me envergonho de te dizer isso.
- Eu não sou o mesmo quando você não está por perto - sussurrou ele, com sua voz tão única e melodiosa. Beijou os cabelos dela e ela fechou os olhos para sentir profundamente os lábios dele, porque qualquer beijo poderia ser o último. Quase doía amá-lo assim tão profundamente, precisar assim. E como se houvesse uma sintonia nas sensações, ele prosseguiu a falar.
- Nunca pensei que pudesse te amar assim, nunca quis. Mas você veio, toda perdida e sincera, tão inteligente e tão linda, e eu não deveria, mas me entrego completamente à ti. Quero que não exista mais tempo para nós.
- "Você tem exatamente/Três mil horas pra parar de me beijar" - falou ela, rindo feliz. Olharam-se então, e os olhos verdes foram invadidos pela felicidade e pelo amor nos olhos castanhos. Permitiram-se os sorrisos mais sinceros, olhando-se em cada mílimetro, cada pequeno detalhe, se devorando com os olhos - e repentinamente se deram por conta que já não precisavam se limitar à isso, não naquela noite. Permitiram-se então, eles que não sabiam se entregar à felicidade, os prazeres da carne, mas era muito mais do que isso, era a consumação de um sonho mútuo. Os lábios se tocavam e percorriam livre e intensamente os corpos, e eles sentiam cada mínimo movimento, cada inspiração mais profunda. Nada mais fazia sentido, um era profundamente no outro e as palavras deixavam de existir. E então se amavam - ou eles se acordavam outra vez. E já não sabiam como preservar esses sonhos, nunca souberam como consumá-los. Então permaneciam se amando em silêncio, permaneciam se olhando intensamente, se devorando com os olhos - e essa era a única preservação da qual eram capazes.
- Sabe, eu nunca pensei que um dia eu teria você na minha cama lendo Água Viva. Quando imaginávamos juntos cenas de nós dois, eu nunca pensei que pudesse de fato ter você um dia.
Ela sorriu, dando uma longa tragada no cigarro e fechando o livro. Um sorriso sem mostrar os dentes, entre tímido e maroto. Um sorriso perfeito.
- Eu não quero acreditar que estamos aqui, honestamente. É tão...gostoso, sei lá - ela riu, tímida, e ele a envolveu em seus braços, beijando-a no rosto, carinhosa e profundamente. A barba era uma carícia a mais contra a pele delicada e clara. Ambos suspiraram profundamente, em sincronia, como faziam às vezes sem sequer perceber.
- Queria encontrar uma maneira de não te perder nunca, de te fixar ao meu tempo. Porque às vezes parece que o tempo é uma eternidade só quando não estamos juntos, e isso é tão depressivamente clichê que eu me envergonho de te dizer isso.
- Eu não sou o mesmo quando você não está por perto - sussurrou ele, com sua voz tão única e melodiosa. Beijou os cabelos dela e ela fechou os olhos para sentir profundamente os lábios dele, porque qualquer beijo poderia ser o último. Quase doía amá-lo assim tão profundamente, precisar assim. E como se houvesse uma sintonia nas sensações, ele prosseguiu a falar.
- Nunca pensei que pudesse te amar assim, nunca quis. Mas você veio, toda perdida e sincera, tão inteligente e tão linda, e eu não deveria, mas me entrego completamente à ti. Quero que não exista mais tempo para nós.
- "Você tem exatamente/Três mil horas pra parar de me beijar" - falou ela, rindo feliz. Olharam-se então, e os olhos verdes foram invadidos pela felicidade e pelo amor nos olhos castanhos. Permitiram-se os sorrisos mais sinceros, olhando-se em cada mílimetro, cada pequeno detalhe, se devorando com os olhos - e repentinamente se deram por conta que já não precisavam se limitar à isso, não naquela noite. Permitiram-se então, eles que não sabiam se entregar à felicidade, os prazeres da carne, mas era muito mais do que isso, era a consumação de um sonho mútuo. Os lábios se tocavam e percorriam livre e intensamente os corpos, e eles sentiam cada mínimo movimento, cada inspiração mais profunda. Nada mais fazia sentido, um era profundamente no outro e as palavras deixavam de existir. E então se amavam - ou eles se acordavam outra vez. E já não sabiam como preservar esses sonhos, nunca souberam como consumá-los. Então permaneciam se amando em silêncio, permaneciam se olhando intensamente, se devorando com os olhos - e essa era a única preservação da qual eram capazes.
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