sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Calar

Reencontraram-se inesperadamente. Em meio a um movimento de cabeça provocado pelo riso, uma viu a outra, numa mesa não muito distante do balcão onde se encontrava. Mesmo através da densa névoa de fumaça de cigarros e da semiescuridão que pairava no bar, reconheceram-se imediatamente. E sem hesitar, sorriram largamente, e ela foi até a mesa enquanto a outra já se levantava sorrindo para recebê-la de braços abertos.
- Quanto tempo - disse, abraçando-a e puxando o corpo outra vez magro contra si. Parou então e olhou a outra vorazmente, como se tivesse de decorar cada mílimetro dela e essa fosse sua única chance. - Você está ainda mais linda do que da última vez em que nos encontramos!
- Ah, pare com isso - respondeu, corando, como sempre fazia. A outra sorriu, alegre. Continuava tendo o mesmo jeito doce então, o mesmo brilho encantador nos olhos castanhos. - Você está linda também, como sempre esteve, à propósito.
Trocando um sorriso, as duas se encararam, em silêncio. Conheceram-se ainda pequenas, sofreram as primeiras desilusões e verdadeiras dores juntas. Vestiam-se então com saias longas e pretas, corpetes, maquiagem pesada, esmaltes escuros. Ouviam heavy metal sinfônico e encontravam alívio para suas prematuras dores existenciais na música e na convivência mútua. Viviam dias cinzentos, onde as únicas coisas boas eram a música e estarem juntas. Raramente trocavam elogios, porém admiravam-se mútua e imensamente. Uma tinha cabelos castanhos com mechas de um vermelho berrante, que se juntando aos grandes lábios pintados de vermelho e o corpo esguio e alto a tornava linda. Mas o que fazia com que a outra mais a considerasse tão linda era aquele eterno ar de inocência triste que ela tinha em seus olhos castanho-esverdeados, apesar de toda sua sensualidade despretensiosa. A outra tinha longos cabelos castanhos que pareciam um véu, tão lisos e compridos que eram. Os olhos eram escuros e brilhantes, a boca bem desenhada, a pele clara e sensível. Ambas eram estudiosas e a dos lábios vermelhos tinha 13 anos, enquanto a outra tinha 12, na época em que se conheceram. Passavam todo tempo livre que tinham compartilhando músicas e a maioria dos seus mais profundos medos e dores. Mas calavam muitas coisas.
Não que fosse por maldade, não. Não esconderiam tantas coisas uma da outra se pudessem, mas o fato é que não eram maduras o suficiente para entender, para formular em palavras o que se passava. Não compreendiam o que significava aquele carinho manso, mas ao mesmo tempo aquela admiração física tão grande uma pela outra. Sentiam mútua necessidade de impressionar, de cuidar e de estar por perto, mas de alguma forma mais profunda do que faziam. A de cabelos longos não demonstrava tanto, tinha uma imagem muito autoconfiante (apesar de ser tão ou mais insegura do que a outra) para disfarçar sua insegurança, seus sentimentos estranhos e sufocados inconscientemente. A outra não sabia disfarçar. Demonstrava e falava de sua enorme admiração e encantamento pela outra quase febrilmente. Quando de alguma forma recebia uma resposta positiva, tinha de ouví-la inúmeras vezes para acreditar em tamanha alegria. E então era feliz, verdadeiramente feliz - como nada mais no mundo podia deixá-la.
Haviam passado muitos anos longe uma da outra, as vidas, como é normal, haviam tomado rumos diferentes. Mas no fundo dos olhos verdes e dos olhos castanhos ainda era nítido que tudo que fora calado ainda resistia ao tempo e aos fatos - mas agora as palavras se faziam desnecessárias. Encontravam abrigo uma na outra e só haviam aprendido isso com a distância, com as dores que sofreram distantes. Dando um sorriso sincero, deram-se as mãos e saíram do bar em absoluto silêncio para procurar um lugar para passar a noite. Havia, finalmente, chegado a hora de tudo que fora calado não ser falado, mas sim tomar forma em gesto - em verdade. Não sabiam o que viria depois e tampouco tinham pretensões, só não poderiam mais calar o que agora se tornara tão claro para as duas. E sorriam, sorriam eternamente na madrugada quente e chuvosa de março.

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