Ele olhou para o lado na cama e ficou a observá-la lendo. Teve de sorrir, aquela expressão extremamente séria era encantadora. Era uma bela imagem: os óculos davam-lhe um ar de criança inteligente, o cigarro jazia quase esquecido na mão direita, os olhos completamente cravados no livro.
- Sabe, eu nunca pensei que um dia eu teria você na minha cama lendo Água Viva. Quando imaginávamos juntos cenas de nós dois, eu nunca pensei que pudesse de fato ter você um dia.
Ela sorriu, dando uma longa tragada no cigarro e fechando o livro. Um sorriso sem mostrar os dentes, entre tímido e maroto. Um sorriso perfeito.
- Eu não quero acreditar que estamos aqui, honestamente. É tão...gostoso, sei lá - ela riu, tímida, e ele a envolveu em seus braços, beijando-a no rosto, carinhosa e profundamente. A barba era uma carícia a mais contra a pele delicada e clara. Ambos suspiraram profundamente, em sincronia, como faziam às vezes sem sequer perceber.
- Queria encontrar uma maneira de não te perder nunca, de te fixar ao meu tempo. Porque às vezes parece que o tempo é uma eternidade só quando não estamos juntos, e isso é tão depressivamente clichê que eu me envergonho de te dizer isso.
- Eu não sou o mesmo quando você não está por perto - sussurrou ele, com sua voz tão única e melodiosa. Beijou os cabelos dela e ela fechou os olhos para sentir profundamente os lábios dele, porque qualquer beijo poderia ser o último. Quase doía amá-lo assim tão profundamente, precisar assim. E como se houvesse uma sintonia nas sensações, ele prosseguiu a falar.
- Nunca pensei que pudesse te amar assim, nunca quis. Mas você veio, toda perdida e sincera, tão inteligente e tão linda, e eu não deveria, mas me entrego completamente à ti. Quero que não exista mais tempo para nós.
- "Você tem exatamente/Três mil horas pra parar de me beijar" - falou ela, rindo feliz. Olharam-se então, e os olhos verdes foram invadidos pela felicidade e pelo amor nos olhos castanhos. Permitiram-se os sorrisos mais sinceros, olhando-se em cada mílimetro, cada pequeno detalhe, se devorando com os olhos - e repentinamente se deram por conta que já não precisavam se limitar à isso, não naquela noite. Permitiram-se então, eles que não sabiam se entregar à felicidade, os prazeres da carne, mas era muito mais do que isso, era a consumação de um sonho mútuo. Os lábios se tocavam e percorriam livre e intensamente os corpos, e eles sentiam cada mínimo movimento, cada inspiração mais profunda. Nada mais fazia sentido, um era profundamente no outro e as palavras deixavam de existir. E então se amavam - ou eles se acordavam outra vez. E já não sabiam como preservar esses sonhos, nunca souberam como consumá-los. Então permaneciam se amando em silêncio, permaneciam se olhando intensamente, se devorando com os olhos - e essa era a única preservação da qual eram capazes.
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