sábado, 25 de setembro de 2010

Prece

Depois de ligar o som, ela entrou na banheira de água quente e espumante, acomodando-se confortavelmente. Fechou os olhos. A sensação da água quente na pele fria era um dos poucos prazeres que ela ainda possuía, além de ver os olhos dele - o que de fato, já não era tão inspirador de esperanças, mas isso era bom por um lado. Sim, era bom.
Suas olheiras nunca haviam sido tão gigantes, ou melhor, ela nunca havia tido olheiras até então. Mas agora elas saltavam, quase gritavam roxas em sua pele alva. Gritavam um mudo pedido de socorro, socorro este que não podia ser dado por quase ninguém no mundo: eram noites de insônia por amor e dor. Ela tentava manter-se firme, mas as fissuras apareciam, não só pelas olheiras que só aumentavam, mas pela falta de apetite, pela constante insônia, pelo abatimento constante. Os amigos íntimos e os familiares se preocupavam, a mãe a fazia ir a psicólogos, religiosos, fazia-a comer, tentar viver um pouco mais, mas de nada adiantava. Ela podia ver nos olhos úmidos da mãe (outrora tão duros e frios) o grito silencioso que acusava o quão nova ela era, o quanto sua entrega era demasiada. Mas a mãe sabia que a filha era assim, se entregava por inteiro pelos sonhos, podia cair doente mesmo de amor - porque não era e jamais seria romântica, mas se fosse para amar, amaria de verdade. E agora estava amando.
Ela acendeu um cigarro, deu uma tragada profunda, o que sempre servia de breve alívio para sua angústia. Os pais cuidando cada suspiro seu, os amigos preocupados, de que tudo isso adiantava? Sua dor era profunda mas de fácil resolução - continuava tão disposta a se entregar como sempre estivera. Mesmo depois de tudo ter doído tanto nela, ela secretamente sabia que ainda seria capaz de cumprir cada promessa feita naquela noite de conversa tão boa, tão incrivelmente parecida com um sonho. As lágrimas de felicidade que rolaram pelo seu rosto naquela noite confirmaram, de súbito, o quão irremediavelmente ela estava envolvida, o quão entregue estava mesmo sem ter se dado por conta. Quando se dera por conta, já era tarde, já sonhava com ele a vida que um dia poderiam ter juntos. Será que ainda poderiam?
Sua vida havia ganhado uma nova perspectiva quando revelara seus sentimentos a ele e fora correspondida muito além de seu mais ambicioso sonho. Jamais ousara sequer sonhar com tanto amor, com sonhos tão belos, afinal, ela não tinha esses costumes. Mas ele era sua exceção, por ele se entregava, aguardava, sofria sorrindo. Era quase como se toda lágrima derramada fosse apagada pelo brilho dos lindos olhos verdes dele. Sim, estranhamente, quando o via não lembrava de lágrimas, de dúvidas, de sonhos: ele estava ali e a sua presença a dominava, a enchia de alegria, então, nada mais tinha grande importância. Queria tê-lo, sim, nunca havia desejado tão pura e intensamente alguém na vida. Engraçado que por tanto tempo ela própia não se desse por conta de um sentimento tão grande, mas talvez isso fosse a maior prova que era verdadeiro - foi se instalando devagarinho, se espalhando silenciosamente feito “uma plantinha que vai crescendo e tomando conta de tudo”.
Havia passado por muitas coisas desde a noite em que trocaram promessas, em que sonharam juntos. Mas nada conseguia fazê-la desistir, justo ela que tinha a maior facilidade de abandonar tudo. Ela não se prendia mas subitamente viu-se completamente ligada à esse homem, tão culto e tão belo, tão imensamente encantador que ela chegava a ficar sem palavras, sem adjetivos. Nunca vira alguém olhá-la daquela forma, ensiná-la com tamanha doçura, chamar seu nome tão melodiosamente, enfim, ninguém conseguia fazer tanto bem a ela pelo simples fato de existir. Uma vez escrevera para ele e dissera isso, teria ele sorrido com isso? Às vezes se pegava imaginando como teria sido quando ele havia achado aquelas páginas que ela escrevera manualmente, aquelas páginas que milagrosamente não haviam caído de dentro do livro onde ela as colocara. Teria ele sorrido, se emocionado, ou seriam apenas páginas de palavras que não o comoveram em absoluto?
Dando um profundo suspiro, ela fechou os olhos, lutou contra a ardência nos olhos. Disseram à ela que ele lia tudo que ela escrevia, mas ela não podia ou mesmo não queria acreditar nisso. Ele era sua maior inspiração, seu personagem principal, não poderia ele se ver nos contos? Ele não se via no homem de olhos verdes que dominava as histórias, que era pai de sua filha, que a amava em silêncio numa cafeteria, que a puxava contra si acariciando sua bochecha com a barba por fazer? Não via ali a si própio descrito nos sonhos dela? Ela ouvia músicas que ambos gostavam e mergulhava na água que começava a esfriar, ficava submersa até não suportar mais, apenas para voltar para a superfície com o desespero por ar e ser saciada. Nunca o tocara, nunca dissera a ele que ainda mantinha suas promessas, seus sentimentos. Como seria tocar aquela pele tão sensível? Sentir os lábios se tocando, os olhos verdes brilhando mais próximos do que nunca... No fundo ela sentia que isso jamais aconteceria, por mais que soubesse que era possível. Não, ela não podia continuar sonhando para depois doer ainda mais. Não, não suportaria mais sonhos perdidos ao vento.
Por um momento ela tentou ser mais uma vez compreensiva, tentou ver as dificuldades que ele via. Mas simplesmente não encontrava empecilho que não pudesse ser enfrentado em sua ardente vontade de compartilhar sua vida com ele. O que lhe parecia, na verdade, é que eram todas dificuldades externas, afinal, para eles o fato de ele ser mais velho, o fato de já ser um homem formado e ela apenas uma moça tão jovem não impediram que se envolvessem, que sonhassem juntos. Então por que se importar? No fundo ambos sabiam que a diferença de idade era apenas um simbolismo, que importância tinha e jamais poderia ter ele já ser professor enquanto ela era tão jovem? Na penumbra silenciosa e eterna de um quarto isso sequer existiria. Mas ela não podia tirar os medos dele, não podia fazer nada quanto à isso. E doía - profundamente, doía.
Tanta coisa havia se perdido no silêncio, na dúvida, nos mal-entendidos, mas ela nunca, nem sequer por um momento desistira. Era insegura demais para demonstrar o quanto ainda o queria, o quanto ainda nutria profundos sentimentos por ele, e sabia que ele também era inseguro e não conseguiria agir sem a segurança da certeza de reciprocidade. Como não conseguia mudar, não conseguia demonstrar tudo abertamente, ela fazia sua silenciosa prece: escrevia tudo. Sim, escrevia incansavelmente e mesmo inconscientemente rezava para que ele lesse tudo, para que através das metáforas e de cada entrelinha ele percebesse que ela ainda estava ali, sempre estaria. Por trás de cada palavra, cada história, ela abria seu coração, se entregava para ele e sua prece era que ele lesse, que percebesse que nada era ilusão: eram de fato os olhos verdes dele que povoavam toda história e todo sonho dela. Limpando as lágrimas, ela saiu da banheira que já tinha a água fria e enrolou-se num roupão, abraçando a si própia enquanto torcia para que ele compreendesse o que ela não podia dizer. E sorria com a lembrança dos brilhantes olhos verdes que para sempre haveriam de habitar seus sonhos.

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