quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

The Dove

Saindo do prédio para fumar um cigarro, ela o avistou num banco de madeira sob um pinheiro. Ele levantou a cabeça e sorriu para ela, enquanto ela ia se sentar junto a ele. Ele lhe ofereceu gentilmente o isqueiro e, por um momento, ambos ficaram fumando em silêncio, apenas observando as pessoas passando por ali. Apesar de toda a sua luta interior, ele ainda sentia vontade de segurar a mão dela. Na verdade, surpreendeu-se com a vontade intensa de um gesto tão simples assim. Talvez, como ele temia, amava-a mais do que podia suspeitar.
- Há um ano atrás, eu não conseguia nos imaginar nessa tranquilidade toda.
- Pois é - concordou ela, pensativa, mas sem querer conversar sobre isso. - Como estão os meninos?
- Estão bem, mas sentem a sua falta.
- Se estiver tudo bem por você, eu pretendo visitá-los hoje.
- Perfeitamente - ele deu uma tragada profunda, evitando olhá-la. Por que tornar as coisas mais difíceis? Ela estava agindo corretamente, eles realmente não deveriam conversar sobre o passado e agir como cunhados que se dão bem. - Onde vocês vão passar o ano novo? - ele se referia a ela e o marido, seu irmão.
- Na casa da mãe de vocês, onde mais? - perguntou ela, finalmente sorrindo. - Todos os irmãos irão para lá, não é mesmo?
- Sim, só pensei que vocês pudessem ir para a Lapponia outra vez.
- Só fomos ano passado por causa da lua-de-mel - respondeu ela, mordendo o lábio inferior, desconfortável. Por que todo e qualquer assunto tinha de se encaminhar para algo que lembrasse o que eles haviam sido um dia? Há muito tempo isso não acontecia, mas hoje o passado parecia simplesmente vir à tona. Decidiu não tentar resistir mais. Havia tido um dos anos mais difíceis de sua vida, e agora percebia que grande parte disso provavelmente se devia ao fato de ter se afastado dele, que apesar de tudo, sempre seria seu melhor amigo. Sentia vontade de olhá-lo, com saudade dos longos cabelos loiros, os incríveis olhos azuis, a barba longa, aquele sorriso bonachão e o rosto redondo, geralmente alegre. Como o adorava, por inteiro! Porém gostaria de não ter esses pensamentos tão facilmente dominando-a. Era ridiculamente dramático ter se envolvido com o irmão de seu marido, não precisava carregar esse tipo de coisa pelo resto de sua vida. Mas sabia que era inevitável que tudo isso ficasse marcado, não só pelo quanto os dois ainda sentiam um pelo outro, mas também pelos filhos dele, que eram tão apegados a ela o quanto duas crianças podem ser. As lembranças dos poucos meses em que moraram juntos, os quatro, eram incríveis, mesmo quando incluíam apenas um domingo entediante olhando filmes infantis na sala. 
- Eu senti a sua falta esse ano - disse ela, subitamente. - Deus, e como! Acho que eu nunca tinha percebido o quanto realmente somos melhores amigos até agora.
Ele ficou em silêncio, olhando-a estupefato. Ela jamais conseguia dizer qualquer coisa, sempre guardando até seus mais simples sentimentos para si mesma, e então aquela confissão súibita... inacreditável! E isso era bom, muito bom. Há um bom tempo ele precisava conversar sobre isso com ela, precisava parar de fingir que tudo não possuía mais importância.
- Acho que nós amadurecemos um pouco, ficando longe - disse ele, dando de ombros com um sorriso cansado. - Nós não aguentaríamos por muito mais tempo do jeito que as coisas estavam. Você fez o que era certo, afinal de contas.
- É, eu acho - ela sentia seus olhos arderem, e sabia que não se manteria calma se continuassem falando sobre aquilo por muito tempo. O problema de calar tudo é que quando as coisas vêm à tona elas transbordam, e havia sido difícil demais mantê-las minimamente abaixo da superfície, mesmo que fosse apenas por um ano. Não queria que ele concordasse que ela havia feito o que era certo, sentia-se infantil, mas ainda queria vê-lo irracionalmente querendo que tudo desse certo. Se conseguisse ser um pouco mais racional, ela talvez pudesse perceber que ele havia apenas mudado de estratégia, porém ela era intensa demais para tal façanha. 
- Nós podíamos continuar sendo melhores amigos, talvez - sugeriu ele, querendo mais do que nunca segurar a sua mão firmemente, oferecer-lhe conforto, mas resistindo. - Nós conseguimos conversar tranquilamente algumas vezes, lembra? E também conseguimos festejar juntos. Talvez...
- Eu acho ótimo - disse ela sorrindo, e finalmente olhando para ele, finalmente se desculpando por todos os seus sentimentos. Porque olhando para ele lhe parecia impossível que houvesse conseguido se distanciar mesmo que fosse por uma semana. Não lhe agradava encarar as coisas tão diretamente, entretanto isso também lhe fazia bem. Ficaram se olhando por um momento, calando inúmeras coisas e sentindo ainda mais saudade do que quando estavam distantes. Ela desviou o olhar primeiro, e perguntou:
- Você ainda tem que fazer alguma coisa no escritório?
- Não.
- Então por que não vamos para casa agora, no meu carro?
- Ok, e eu dirijo.
Ela lhe passou as chaves e os dois foram se encaminhando ao estacionamento. A forma com que ela dissera "vamos para casa" fora tão familiar e íntima que por um momento ele se confundiu, sentindo-se dela ainda. Ela caminhava de cabeça baixa, o que tornava difícil sondar-lhe a expressão. Entraram no carro em silêncio, e ela se limitou a observar a neve durante o caminho. Quando chegaram, ela foi reto ao quarto de Mikael, o mais novo dos meninos. Ele ficou no corredor, e só pôde ouvir a exclamação de alegria do filho, provavelmente já nos braços dela. Sorriu, enquanto ouvia Mikael falar rápida e empolgadamente com ela, e logo ouviu os passos dos dois se dirigindo ao quarto do filho mais velho. Ele entrou para o seu próprio quarto, que um dia dividira com ela, e se deitou na cama sem se despir. Fechou os olhos, tentando não pensar em nada. Sabia que os filhos estavam com ela na sala de jogos, montando o quebra cabeças de cinco mil peças que ela havia dado para Mikael no Natal. Ele adorava quebra cabeças e havia virado uma tradição ela lhe dar em todos os natais um novo, que ela montava com ele pela primeira vez. O mais velho preferia ganhar qualquer coisa relacionada à música, então ganhara camisetas de suas três bandas favoritas e iria a um show na próxima semana com ela. Não conseguia se ressentir que seus filhos gostassem mais dela do que da sua mulher, mãe deles; ele próprio cometia a mesma falta. Perturbado por esses pensamentos, resolveu ir fazer um lanche na cozinha, quando encontrou os três no corredor.
- Papai, nós vamos ao McDonald's agora e amanhã vamos terminar de montar o quebra cabeça!
- Entre três pessoas, cinco mil peças não são tanto - sorriu ela, acariciando os longos cabelos loiros de Mikael, perfeitamente iguais ao do pai. - Posso levá-los?
- É claro.
- Papai, por que você não vem junto? Depois podemos ir ao cinema também - disse o filho mais velho, alegre. 
Constrangido, ele tentou encontrar uma resposta satisfatória. 
- Eu não acho que eu dev...
- Eu acho que é uma ótima ideia, Perkko - disse ela, olhando-o intensamente. Eles ficaram por um momento se olhando, como se ele lhe desse um tempo para se arrepender do que dissera, mas ela se manteve firme, olhando-o pacientemente. Antes que ele pudesse recusar, o que de fato já não ia fazer, ela acrescentou:
- Aliás, minha carteira de motorista está vencida, e os meninos estão muito longe de poder dirigir. Precisamos de você.
Mikael lhe sorria, sempre alegre com esse tipo de passeio. Ele concordou, finalmente sorrindo, e ficou feliz ao vê-la sorrir abertamente e corar com sua concordância. Enquanto desciam as escadas, Mikael dizia que queria "o mesmo que a mamãe", que significava que iria pegar um super McShake de morango, como ela sempre pegava. Permitiu-se observar sorrindo ela e Mikael conversando alegres, sem perceber Perkko ao seu lado.
- Papai, ela nunca vai nos deixar, não é mesmo? - perguntou, entre triste e sonhador. Esperou ouvir uma repreensão do pai por falar em tal assunto, mas ao invés disso ele sorriu.
- É claro que não, Perkko. Ela é sua tia, estará sempre conosco, espero eu - disse ele, sabendo que o filho havia entendido mais do que ele falara, como sempre. E apesar de saber que aquela tranquilidade não poderia durar mais do que algumas horas, ele permitiu que aquela paz tão desejada (e tão necessária) se instalasse não só nele, mas em todos os quatro. Fosse por quatro horas ou por quatro décadas, eles precisavam disso. Ela olhou para trás e, tímida, sorriu para ele, e antes que percebesse ele lhe retribuía em silêncio, porém com esperança. Infinitamente, com esperança.

Mikrokosmos XXXII

A caixinha de música tocava incessantemente os delicados acordes que tanto lhes faziam bem. O gracioso macaquinho batia levemente os pratos e olhava sorrindo para quem o segurasse. Ela estava sentada perto da janela, há muito tempo perdida em seus pensamentos, apenas ouvindo a bela canção que saía da caixinha. Às vezes seu olhar se perdia na neve lá fora, que tornava aquela noite um cenário ainda mais encantado do que aquele lugar já era para ela. Por muitas vezes se perguntara, não tanto por si própria mas por seus familiares, se seria certo permanecer numa terra tão distante, por mais bela que fosse. Na verdade, ninguém compreendia o quanto aquele lugar fazia bem a ela, tampouco podiam imaginar a necessidade mútua que havia entre ela e seu marido. Como uma criança, agora ela sorria feliz, ainda encantada pela mesma antiga canção da caixinha. Sim, ela podia sentir que aquilo tudo era o que ela queria, acima de ser certo ou errado, necessário ou não. E esse pensamento lhe trazia uma paz que dificilmente poderia ser alcançada de outra forma, pelo menos por ela.
Ele se sentou ao lado dela no chão, acomodando-se sobre o tapete fofo e se reunindo para desfrutarem da música da qual seus ouvidos jamais se cansavam. Ela repousou sua cabeça no ombro dele, entregando-lhe a caixinha que ele segurou com cuidado e admiração. Exatamente como na sua infância, ele ficou por muito tempo deixando-se flutuar por aqueles acordes mágicos, feliz que os sonhos daquele tempo até parecessem pequenos comparados aos que ele havia realizado agora.
Num impulso, ele abaixou a cabeça para olhá-la e percebeu suas lágrimas. Mesmo sem perguntar, ele sabia que isso era algo bom, conhecia-a suficientemente bem para isso. Soltou cuidadosamente a caixinha no chão e se virou para ela, levantando-lhe delicadamente o rosto. 
- Você pode me prometer uma coisa? Por mais sem sentido ou... não sei, impossível que possa soar?
Ele assentiu, sério, com cuidado. Eram raros os momentos em que ela pedia alguma coisa, ainda mais verbalmente. Era quase doloroso poder ver tão claramente através dela, mas também era fantástico. Nem em seus mais ousados sonhos conseguira acreditar que poderia se ligar dessa forma à alguém, e ali estavam aqueles olhos escuros dizendo mais do que ele julgava poder ouvir.
- Eu não quero que essas noites acabem - falou ela baixinho, como se estivessem embaixo das cobertas em pleno dezembro branco. - Nem essa música, muito menos a sua inocência. Pode tentar nos manter juntos? Pode fazer com que a neve continue me encantando?
Ele não pôde responder. Abraçou-a fortemente contra si por um longo tempo, sem saber sinceramente o que dizer. As coisas se invertiam agora, e era ela que dava voz ao que nem ele sabia nomear dentro de si. A caixinha continuava tocando a música suave da noite, protegendo-os. Todas as máscaras e defesas já haviam ido embora há muito tempo, então tudo aquilo era desnecessário, já não havia mais escolha. Estavam juntos, verdadeiramente, em um mundo que ninguém mais talvez fosse capaz de compreender, porém era verdadeiro. Em cada floco.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mikrokosmos XXXI

O som do mar era tão suave e agradável que lhe lembrava a mistura de uma flauta e um piano, complementando-se. A noite ainda era escura, mas o amanhecer não estava distante, e ele esperava em silêncio, como sempre havia feito apesar da angústia. Ainda estava com as roupas do trabalho: um belo traje à rigor antigo, mas havia tirado o paletó e seus cabelos já estavam voltando ao cacheado natural. Por alguma razão, olhava para os próprios pés, ignorando o mar à sua esquerda, perdido em pensamentos. Seu aniversário e sua data preferida do ano estavam chegando, além do primeiro aniversário de casamento. Tinha medo que algo estivesse errado, as coisas vinham sendo difíceis no último ano, mas a sua infindável esperança e inexplicável crescente confiança faziam com que ele conseguisse ficar tranquilo sobre seu futuro. Havia feito seu trabalho, dado tudo o que podia, sofrido muito, mas agora a beleza de seu resultado era visível; apesar de ainda ter muito por fazer, sentia-se contente e sabia que era tempo de ter esperanças - e ele estava certo.
Quando olhou para a frente, finalmente a viu caminhando em sua direção, um longo vestido verde e elegante movendo-se fortemente por causa do vento. Ela vinha de pés descalços, a cabeça baixa, porém ele sabia que ela estava sorrindo, aquele sorriso tímido e infantilmente feliz que só ela possuía. Seus cabelos estavam soltos, longos, voando livremente e parecendo totalmente ruivos sob a luz que começava a se tornar mais forte. Em silêncio, ela parou de caminhar quando estava próxima dele, ainda sem olhá-lo. Ele ficou por um longo tempo a contemplá-la; nada além disso era necessário, afinal de contas. Ele havia a levado ao aeroporto, havia checado suas malas e ligado para saber se ela conseguiria sobreviver, e ali estava ela, sã e salva, apesar das cicatrizes recentes. 
Lembrando-se de tudo que havia acontecido, todas as dificuldades que tiveram de enfrentar, ainda por cima separados, ele teve um desejo intenso de abraçá-la fortemente como se pudesse prendê-la a si, mas não era isso que ele queria, de verdade. Queria tê-la frouxamente por sua mão, com aqueles olhos escuros repousando tranquilamente sobre ele, o abraço por trás enquanto ele dedilhava uma melodia, a paz e o silêncio compartilhados numa tarde tranquila. Tudo isso vinha livremente, eles sabiam, então ele se limitou a estender-lhe a mão. Sorrindo mais abertamente, ela repousou sua mão sobre a dele, logo a pressionando levemente. O sol subia lentamente e o vento tornava-se quase ensurdecedor às vezes, mas estava subitamente calmo. No mesmo instante, ambos levantaram a cabeça e se olharam nos olhos.
Era como se os olhos de ambos fossem infinitos. Ela olhava cada átimo cinza da vastidão daqueles olhos tão adorados, percebia cada nuance naquele olhar puro e brilhante, e ele fazia o mesmo com ela, percebendo o quanto isso era mais do que eles mereciam, mais do que jamais ousaram realmente desejar. Então ela se aproximou, passando a mão lentamente pelo cavanhaque loiro, olhando o rosto dele emocionada e se sentindo extremamente tola por isso.
- Eu...
- Não diga nada - pediu ele, aproximando-se, nunca parando de olhá-la. - Passou. Acabou - sussurrou ele e, antes que pudesse perceber, ela o abraçou fortemente, aliviada que tantas dificuldades finalmente pudessem ter uma trégua, que finalmente eles fossem capazes de ter esperança outra vez e, acima disso tudo, pudessem ficar juntos, verdadeiramente juntos. Ele era o homem que a amara acima de seu próprio bem, que a conhecia o suficiente para compreender tudo o que ela precisava fazer, mesmo que não entendesse algumas vezes, exatamente como ela própria fazia com ele. Nunca houveram dúvidas, mas mais do que nunca ela sabia que ele era o que havia de mais precioso em sua vida; com tudo o mais ela podia cometer erros, consertar, desistir e fazer qualquer outra coisa, mas nunca com ele. Ali estava sua essência personificada, ali estava tudo que ela precisava para nunca perder sua inocência e seu verdadeiro ser, por mais difuso que esse pudesse ser.
Eles se afastaram, dando-se as mãos e se olhando nos olhos por mais um momento. O sol agora clareava um pouco a praia; era muito pouco, mas era o suficiente para que pudessem se ver perfeitamente bem. Depois de um momento em que ela, sem sentir, estava com os olhos marejados, e sem perceber os dois foram sorrindo aos poucos, acabando por rirem juntos sem nem saber por quê; provavelmente uma mistura de alívio, alegria, paz e cansaço. Ele a beijou por um longo tempo e então eles sentaram na areia, olhando para o mar abraçados. Mesmo que ele odiasse isso, ela conseguira outra vez fazê-lo cantar sua música favorita, e em algum tempo ela dormia recostada em seu ombro, segurando suave mas firmemente sua mão esquerda. Ele a olhou, respirou fundo e deixou que sua mão direita brincasse com aqueles cabelos lisos que ele tanto gostava de sentir entre seus dedos. Finalmente, em paz, pensou ele, e se permitiu ficar ali até que o momento se perdesse. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Resto

- Vai falar agora?
Ela se virou, olhando-o por um longo tempo. Seria mesmo possível tudo que havia passado por sua cabeça nos últimos meses? O marido a olhava pacientemente, os olhos azuis tranquilamente esperando o que talvez jamais pudesse ouvir. Vendo-o tão tranquilo, tão mudado, parecia-lhe realmente possível que pudessem voltar a viver juntos, porém de uma forma imensuravelmente melhor do que antes. Haviam passado quase dois anos separados, apenas se vendo raramente e tendo algumas recaídas que não duravam mais do que uma ou duas noites e deixavam dúvidas por meses em ambos, mas nenhum se manifestava, principalmente por medo, mas também por orgulho: medo de arriscarem uma última chance de estarem juntos e orgulho de saber que o outro talvez viesse correndo e admitisse que, depois de quase dezesseis anos de casados só sabiam viver tranquilos juntos, por mais tempestuosa que a superfície fosse. Ela mexeu no machucado que a aliança deixara em sua mão, aliança que mesmo quando separada ela nunca gostar de tirar, a aliança verde e especialmente comprada para ela, já que ela insistia em não usar a comum (na verdade, ela sempre se esquecia de colocá-la, mas ele não acreditava nisso).
- Eu quero que o meu dedo cure logo. Quero usar a minha aliança de novo, sinto-me um pouco nua sem ela.
- Não faz mal ficar nua na minha frente - disse ele, e havia algo de comovente no tom carinhoso com que disse essas palavras, quase como se eles estivessem ainda na penumbra de uma madrugada calma. Ele se sentou ao lado dela sem tocá-la, mexendo distraidamente em seu joelho. Entendia perfeitamente a saudade que ela sentia da aliança, ele próprio usava a mesma há quase 16 anos, ou melhor, 15 anos, 11 meses e 18 dias. Era ridículo, mas ele era estranhamente consciente de detalhes insignificantes como datas de noivado, casamento e similares. Sentia-se envergonhado disso e nunca admitia, porém sabia que no fundo só se lembrava de tudo pela importância que ela tinha em sua vida. Quando a conhecera, nunca pensara que aquela menininha que o adorava tanto e dizia brincando que ele era um príncipe seria sua mulher, de verdade, e o faria muito mais feliz do que jamais fora. Sua vida era terrivelmente agitada e nada parecia ser verdadeiro e/ou confiável, mas então ela cresceu e as coisas simplesmente mudaram. Ainda parecia completamente absurdo que 31 anos de diferença não os separassem nem um pouco, contudo eles se amavam muito acima disso. Sem querer, haviam ultrapassado os limites das pessoas comuns sobre os sentimentos, deixando-se levar pelos mais inesperados e sinceros impulsos. Por tudo isso, ele, que era um homem passional e difícil, conseguia se controlar e a esperava calmamente ali, sentado ao seu lado, contra todos os seus desejos de gritar com ela e lhe mostrar que era sua maldita obrigação ficar ao seu lado. Ela lhe pertencia, e ele se julgava no direito de ordernar que ela não o abandonasse, todavia ele preferia educadamente ignorar tudo à que tinha direito, porque sabia que ela significava bem mais do que isso em sua vida. Fora bastante duro, mas ele conseguira aprender até que ponto ele podia deixar seu orgulho e seus impulsos dominarem tudo que fazia para com ela. E isso era a melhor coisa que havia aprendido nos anos longe dela.
Lentamente, ele aproximou as mãos dos cabelos dela, longos e lisos, fininhos como os dele próprio. Encostou levemente os dedos na superfície macia, enquanto ela ainda encarava o chão com as mãos desajeitadamente sobre as pernas, mexendo inconscientemente no dedo da aliança. Ele não podia ver o rosto dela porque os cabelos arruivados eram exatamente como uma cortina sobre o rosto claro e de traços finos. Aos poucos, ele começou a acariciar mais de perto seus cabelos, tocando-os verdadeiramente, deixando que a sua mão aos poucos também tocassem a orelha, o pescoço dela. Ela primeiro se inclinou para se encostar na mão grande e forte dele, fechando os olhos, sentindo aquele cheiro tão familiar... Por quanto tempo aturou a distância! Não percebeu que uma lágrima caía, e o abraçou longamente, sentindo a pulsação de seu pescoço sob seu rosto, os cabelos compridos ainda macios e cheirosos como antigamente, aquele cheiro de cigarro com perfume...
- Não me deixe ser tão idiota assim, nunca mais - falou ela baixinho. - Nada disso é culpa sua. 
Ele a apertou contra si, mais emocionado do que jamais supusera poder ficar por algo aparentemente tão simples. A verdade é que, apesar de encher os seus dias com trabalho e festas e todo tipo de diversão, ele fazia tudo isso apenas porque era insuportável ficar em casa com todos os pensamentos torturando-o o tempo todo, além de que ele esperava conquistá-la por mostrar-se independente dela. Aquelas palavras ditas baixinho, tão baixo que era até difícil ouvir, elas sim eram o que ele havia secretamente desejado ouvir durante todo esse tempo, mesmo que não admitisse nem para si próprio tal sonho absurdo para um homem maduro como ele. Mas ele queria sim, queria que ela voltasse e que eles construíssem uma vida inteiramente nova se isso fosse a fazer feliz, queria ter uma vida o mais equilibrada possível, queria tudo que envolvesse estarem mais uma vez inseparavelmente casados. Fizera as pazes com amigos que não falava há anos, começara a realizar projetos que há muito deixara para trás por pura desilusão, tudo para ter apenas uma chance, mesmo que conscientemente ele apenas achasse que estava "endireitando a sua vida". Esse era o último passo para endireitá-la de vez, ele sabia disso. Precisava fazer muitas coisas ainda, mas se a conseguisse de volta, sessenta por cento já estaria feito, e muito bem feito. Então, por que não arriscar? Porém, ele nunca teve a chance de fazer isso.
- Casa comigo, às nove da noite do dia seis de janeiro de dois mil e doze?
- Não, só às dez.
- Por que? - ela já o olhou meio rindo, meio chorando, sem se desvencilhar completamente dele. Olhava-o como se jamais fosse vê-lo outra vez e tivesse que decorar cada traço, cada luz de seu rosto. Podia ver seus olhos marejados e o peito levemente arfante, os cabelos ruivos parecendo flamejantes sob a luz que entrava no quarto.
- Porque eu só caso, exatamente, de dezesseis em dezesseis anos.
Ela o beijou, ainda sorrindo, mas já sem tempo para brincadeiras. Era besteira achar que uma mudança total de vida poderia torná-la uma pessoa melhor e, afinal, qual era o tão bem estimado valor de ser uma pessoa melhor? Haviam coisas muito mais importantes na vida, pelo menos para ela, e ele era uma delas, ela simplesmente não podia mentir para si mesma - e, quem sabe, talvez isso também fizesse parte de se tornar uma pessoa melhor, admitir o quanto se ama alguém e cuidar disso acima de tudo, principalmente do próprio desejo de poder e orgulho. Porque ela sempre soubera que não havia nada melhor do que ele e, se isso fosse tolice para os outros, para ela seria tolice valorizar qualquer outra coisa. Ela o amava, sim, e ficaria ao seu lado, porque ela sabia que poderia ajeitar o resto de sua vida se tivesse um pouco de paciência e ele ao seu lado, o resto era o que menos importava, ao fim de tudo. Sim, ela sabia muito bem, e ele também.