O som do mar era tão suave e agradável que lhe lembrava a mistura de uma flauta e um piano, complementando-se. A noite ainda era escura, mas o amanhecer não estava distante, e ele esperava em silêncio, como sempre havia feito apesar da angústia. Ainda estava com as roupas do trabalho: um belo traje à rigor antigo, mas havia tirado o paletó e seus cabelos já estavam voltando ao cacheado natural. Por alguma razão, olhava para os próprios pés, ignorando o mar à sua esquerda, perdido em pensamentos. Seu aniversário e sua data preferida do ano estavam chegando, além do primeiro aniversário de casamento. Tinha medo que algo estivesse errado, as coisas vinham sendo difíceis no último ano, mas a sua infindável esperança e inexplicável crescente confiança faziam com que ele conseguisse ficar tranquilo sobre seu futuro. Havia feito seu trabalho, dado tudo o que podia, sofrido muito, mas agora a beleza de seu resultado era visível; apesar de ainda ter muito por fazer, sentia-se contente e sabia que era tempo de ter esperanças - e ele estava certo.
Quando olhou para a frente, finalmente a viu caminhando em sua direção, um longo vestido verde e elegante movendo-se fortemente por causa do vento. Ela vinha de pés descalços, a cabeça baixa, porém ele sabia que ela estava sorrindo, aquele sorriso tímido e infantilmente feliz que só ela possuía. Seus cabelos estavam soltos, longos, voando livremente e parecendo totalmente ruivos sob a luz que começava a se tornar mais forte. Em silêncio, ela parou de caminhar quando estava próxima dele, ainda sem olhá-lo. Ele ficou por um longo tempo a contemplá-la; nada além disso era necessário, afinal de contas. Ele havia a levado ao aeroporto, havia checado suas malas e ligado para saber se ela conseguiria sobreviver, e ali estava ela, sã e salva, apesar das cicatrizes recentes.
Lembrando-se de tudo que havia acontecido, todas as dificuldades que tiveram de enfrentar, ainda por cima separados, ele teve um desejo intenso de abraçá-la fortemente como se pudesse prendê-la a si, mas não era isso que ele queria, de verdade. Queria tê-la frouxamente por sua mão, com aqueles olhos escuros repousando tranquilamente sobre ele, o abraço por trás enquanto ele dedilhava uma melodia, a paz e o silêncio compartilhados numa tarde tranquila. Tudo isso vinha livremente, eles sabiam, então ele se limitou a estender-lhe a mão. Sorrindo mais abertamente, ela repousou sua mão sobre a dele, logo a pressionando levemente. O sol subia lentamente e o vento tornava-se quase ensurdecedor às vezes, mas estava subitamente calmo. No mesmo instante, ambos levantaram a cabeça e se olharam nos olhos.
Era como se os olhos de ambos fossem infinitos. Ela olhava cada átimo cinza da vastidão daqueles olhos tão adorados, percebia cada nuance naquele olhar puro e brilhante, e ele fazia o mesmo com ela, percebendo o quanto isso era mais do que eles mereciam, mais do que jamais ousaram realmente desejar. Então ela se aproximou, passando a mão lentamente pelo cavanhaque loiro, olhando o rosto dele emocionada e se sentindo extremamente tola por isso.
- Eu...
- Não diga nada - pediu ele, aproximando-se, nunca parando de olhá-la. - Passou. Acabou - sussurrou ele e, antes que pudesse perceber, ela o abraçou fortemente, aliviada que tantas dificuldades finalmente pudessem ter uma trégua, que finalmente eles fossem capazes de ter esperança outra vez e, acima disso tudo, pudessem ficar juntos, verdadeiramente juntos. Ele era o homem que a amara acima de seu próprio bem, que a conhecia o suficiente para compreender tudo o que ela precisava fazer, mesmo que não entendesse algumas vezes, exatamente como ela própria fazia com ele. Nunca houveram dúvidas, mas mais do que nunca ela sabia que ele era o que havia de mais precioso em sua vida; com tudo o mais ela podia cometer erros, consertar, desistir e fazer qualquer outra coisa, mas nunca com ele. Ali estava sua essência personificada, ali estava tudo que ela precisava para nunca perder sua inocência e seu verdadeiro ser, por mais difuso que esse pudesse ser.
Eles se afastaram, dando-se as mãos e se olhando nos olhos por mais um momento. O sol agora clareava um pouco a praia; era muito pouco, mas era o suficiente para que pudessem se ver perfeitamente bem. Depois de um momento em que ela, sem sentir, estava com os olhos marejados, e sem perceber os dois foram sorrindo aos poucos, acabando por rirem juntos sem nem saber por quê; provavelmente uma mistura de alívio, alegria, paz e cansaço. Ele a beijou por um longo tempo e então eles sentaram na areia, olhando para o mar abraçados. Mesmo que ele odiasse isso, ela conseguira outra vez fazê-lo cantar sua música favorita, e em algum tempo ela dormia recostada em seu ombro, segurando suave mas firmemente sua mão esquerda. Ele a olhou, respirou fundo e deixou que sua mão direita brincasse com aqueles cabelos lisos que ele tanto gostava de sentir entre seus dedos. Finalmente, em paz, pensou ele, e se permitiu ficar ali até que o momento se perdesse.
Nenhum comentário:
Postar um comentário