sábado, 27 de outubro de 2012

Mikrokosmos XLIX


Batidas repetidas e fortes na janela a tiraram de seu devaneio. Num sobressalto, ela correu até a janela e a abriu, para ver o rosto que mais queria ver: aquele menininho dos olhos azuis que ela tanto gostava. A neve cobria todo lugar e o vento era ruidoso. Ficaram olhando-se apenas, por um momento, e então ele perguntou:
- Quer ajuda para pular?
- Mas você sabe que eu não posso...
- Não existe "não posso" enquanto você estiver tão triste - ele estendeu a mão. - Também estou triste, venha por mim.
A menininha subiu na janela e, tentando ser o mais silenciosa possível, subiu na janela e segurou a mão que ele lhe estendia para pular para fora. Os dois correram por um longo tempo, até estarem sem fôlego e longe de onde poderiam ser descobertos. As árvores estavam nuas, mas ainda eram melhores do que estar em casa. Depois de se recomporem um pouco, ele comentou:
- Nem acredito que farei 10 anos semana que vem.
- Eu acredito, você é velho - disse ela, sorrindo, enquanto ele dava um meio sorriso. - O que foi dessa vez?
- O mesmo de sempre, e você?
- Também, e um pouco de cansaço também. Você acha que vão sentir falta de nós?
- Espero que não - ele se sentou num toco de árvore por perto, e ficou em silêncio por um longo momento, olhando um ponto fixo. Ela tentava achar e colocar as luvas que ela sabia ter em algum bolso de seu casaco. 
- Nós deveríamos fugir de verdade, ao invés de fugir por algumas horas para a floresta. 
- Como se nós tivéssemos coragem o suficiente - resmungou ela, sentando-se ao lado dele, já vestindo as luvas. - Não faz diferença, eu acho.
- Não? - ele pareceu entre triste e surpreso. - Achei que você, acima de todos, pudesse entender...
- Entender o que?
- Que nós não pertencemos a esse mundo. Deve haver algum lugar onde sirvam bolos ingleses quentes e se possa dormir a noite toda, sem medo.
Ela permaneceu em silêncio, encarando os tênis azuis dele. 
- Nós iremos, algum dia, mas ainda não.
- Não?
Ela confirmou com a cabeça. Ele a encarou por um longo momento, os olhos tristes e, para surpresa de ambos, ela não se conteve e, pela primeira vez em sua vida, abraçou-o repentina e rapidamente e o soltou - mas ele segurou a sua mão até que ela estivesse segura em seu quarto outra vez.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mikrokosmos XLVIII


Em silêncio, ele se aproximou dela e passou a também observar o bebê no berço. A barriguinha redonda subia e descia num sono tranquilo, e os cabelos loiros quase cobriam as sobrancelhas da mesma cor. 
- Você deveria descansar um pouco, mesmo se não conseguir dormir.
- Eu estou bem, obrigada - ela não se moveu, ainda observando o bebê. - Isso é a coisa mais absurda que já fizemos.
- O que? - perguntou ele, sobressaltado.
- Ela - sorrindo, ela indicou o bebê com a cabeça. - Acho que é a maior aventura que poderíamos escolher.
Ele respirou fundo. Agora, pelo menos, ela não parecia tão assustada mas... poderia ser? 
- Você tem noção de que isso mal começou?
- Sim, eu tenho. No entanto, também tenho a certeza de que é exatamente isso o que eu quero.
Ele procurou e segurou de leve a sua mão. Ela não segurou, mas também não se afastou, ainda com o olhar repousando sobre a menininha adormecida. As olheiras e o cabelo bagunçado já lhe pareciam naturais, mas havia um brilho de alegria, de persistência em seus olhos que ele desconhecia até então. Beijou-lhe os cabelos e, aos poucos, foi conduzindo-na para a cama, fazendo-a dormir feito criança em seus braços, enquanto o alívio da coragem preenchia-no, fazendo-o ter esperanças e adormecer também.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mikrokosmos XLVII


Depois de olhar para o céu por um longo tempo, sua cabeça simplesmente baixou e, aos poucos, ela foi se desfazendo, de joelhos, vagamente consciente do som do mar e do vento. Tudo desmoronava numa profusão de cores, vozes, luzes e sombras, murmúrios, risos, ausência. Deixando que toda exaustão se esvaísse aos poucos ela permaneceu ali, pela primeira vez em muito tempo se permitindo sentir. Não estranhou ao sentir a mão grande repousar em seu ombro, nem ao sentir o calor familiar daquele corpo. Após se acalmar, ela olhou para cima, finalmente vendo a face dele, que olhava o mar profundamente. Sem coragem e muito menos voz para dizer qualquer coisa, ela se pôs de pé e se deixou repousar nos braços dele, observando as altas ondas que se formavam e se chocavam contra a pedra onde estavam.
- Bom estar aqui de novo, não?
Ela assentiu, sem olhá-lo. Respirou fundo, recostando-se nele, fechando os olhos e tentando se acalmar com aqueles cheiros tão dela. Acariciando o cabelo dela, ele a olhava repousar, engolindo tudo que girava em sua mente. Como sempre, tinha de se manter firme para ser o repouso dela, o guia e guardião. Beijou-a com calma, sustentando-na sobre a pedra. Olharam-se então, redescobrindo os traços harmoniosos e a profunda ternura que eles despertavam. Tentando evitar as lágrimas pela certeza que sentia, ele a beijou outra vez, finalmente encontrando as palavras:
- Eu sei que é difícil agora, mas nós estaremos sim aqui, no final. Você sabe disso.
- Não, eu não sei - falou ela, em pouco mais do que um sussurro. - E não quero, nesse exato momento, importar-me com isso ou com o que quer que seja. Isso é tudo o que eu preciso.
Aos poucos, ambos foram se acalmando, permanecendo em silêncio onde pertenciam. Era melhor não pensar mesmo em nada; reencontraram aquele lugar, aquele silêncio cheio de som, e mesmo que jamais o encontrassem outra vez, aquela era uma paz - a única que eles precisavam.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mikrokosmos XLVI

    Depois de muito tempo sem vê-la, soube que a encontraria quando, antes de entrar no quarto, ouviu o som de violoncelos, a canção que ela mais gostava de todas as trilhas sonoras que eles possuíam. Abriu a porta com cuidado para não distraí-la caso ela estivesse trabalhando em alguma coisa, no entanto ela estava repousando. Apesar de estar deitada sobre o carpete, de olhos fechados, a primeira coisa que ele percebeu foi o leve movimento dos seios a cada inspiração, e isso foi a única coisa que evitou que ele corresse em desespero até ela. O vestido negro parecia se mesclar com o chão, longo, espalhado ao seu redor, mas seus cabelos, tão espalhados quanto o vestido, pareciam vivos, destoando de todo o resto. Estava de bruços, mas ele podia entrever seus seios, que pareciam maiores... E sua pele, mais branca e lisa, os lábios pintados de vermelho, tudo imaculado, suas mãos repousando perto de seu rosto como era seu costume enquanto dormia, e sua expressão concentrada. Aproximou-se, hesitando em tocá-la, tentando compreender se toda aquela súbita perfeição era realmente dela ou se ela havia simplesmente cessado de existir; só ele seria capaz de perceber as diferenças que haviam nela, e sua maior dúvida era se ela havia cessado ou apenas agora começado a existir de fato.
    Nunca antes ele havia percebido o quão triste era aquela canção, como se os violoncelos se desintegrassem aos poucos, seus pedaços voando suavemente mas em direções distintas, para jamais se reunirem outra vez. Paralisado, ele observava sua respiração rasa, temendo e desejando igualmente que ela abrisse os olhos, porque então ele saberia a verdade sobre sua existência, saberia se sua mulher ainda estava em algum lugar daquele corpo que ele conhecia tão bem. A música se repetia incessantemente e, como que hipnotizado, ele continuava a olhar tudo nela; a aliança permanecia na mão esquerda, porém até suas mãos pareciam mais brancas, intocáveis. E antes de abrir os olhos, foram as mãos que ela levou aos cabelos, virando-se e finalmente abrindo os olhos.
    - Olá - disse, simplesmente.
    Por um momento, ainda houve confusão nele. No entanto, quando o sorriso dela não se refletiu em seus olhos, que pareciam procurá-lo mesmo estando ali, ele soube que continuariam distantes por um longo tempo, mas que ela ainda existia em sua forma mais simples, a forma que ele conhecia. Porque em seus olhos ela procurava por ele, sem hesitação ou pausa, da mesma forma que há anos atrás o encontrara - e sempre encontraria.

terça-feira, 24 de julho de 2012

The Place

    The summer sun was shining as it should be, at the middle of day of that hot July of 1993. But the breeze always made the climate adorable in Jackson, and her flower dress was also very fresh. Sitting by the porch of what used to be her home, she silently watched the leaves dancing on the trees, probably singing some beautiful melody that for a very long time she couldn't listen to. However, there she was again. A woman now, a beautiful woman in a light dress, amazed by the shine of those hours of quiet peace in her neighbourhood.
    Adam, who always lived next door, suddenly appeared and seemed very surprised by seeing her again. Her heart jumped; he used to sing to her and watch over her whenever her mom was unkind to her. She stood up  and waited for him, barely breathing. That man was her heaven, her green and golden happiness.
    - You're home! - whispered him, just a second before embracing her, still with the good smell and the large shirts. She didn't say a word, but looked at every single detail of his face, ending in his dark eyes, just like hers, which were still telling her that she'd be loved no matter how far she had gone, or what mistakes she might had made. He looked at those dark eyes of her, touched her hair and suddenly knew that all she needed was there, when she had traveled through the world searching for it. He saw her only a few times after she left Jackson, and whenever they met she proudly said that "she had found a new and amazing place for her", but he could see her sadness. Praying against her pride and childish fears, he asked only once:
    - Stay. This is your place.
    She looked all around: the gently dancing trees, the fresh breeze, the clarity of that silent afternoon, and didn't lie to herself. With a shy smile, she agreed and hugged him again, letting the tears of weariness fall down and leave her.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sombra

    A manhã estava tão nublada que nem sequer uma réstia de sol ousava aparecer, mesmo que momentaneamente. Do terraço do prédio era possível ver  muito bem Nova York, todos os prédios, os carros, a "cidade que nunca dorme" em pleno funcionamento. Era estranho não estar no meio de toda essa atividade, já era dez da manhã, mas hoje ela não podia participar de nada. Absolutamente nada.
    Sentada na cadeira de rodas ela observava apática a movimentação lá embaixo. Ainda vestia seu pijama do Pateta, seu rosto manchado de lágrimas, o rosto estranhamente afinado pelos quilos que havia perdido na última semana. Num momento, tudo estava perfeitamente bem, e no instante seguinte - um carro! E nada mais será o mesmo. Ambulância, dor, vozes, sapato perdido, cabelo desarrumado, sangue. E o compromisso inadiável cancelado.
    As perguntas eram muitas agora. Depois do tempo de licença, ela ainda teria o seu emprego? Seu corpo ainda seria tão belo o quanto antes? As toneladas de trabalho atrasado ficariam todas para ela realizar? E seus amigos, eles continuariam a amá-la como sempre ou de agora em diante teriam sempre esse olhar de pena? Ela sabia que toda a sua vida mudaria agora, mas ela estava tão cansada, tão triste para pensar nessas coisas todas... Era melhor ficar apenas olhando a cidade se mover, como se nada houvesse acontecido, como se essa fosse só mais uma manhã nublada em Nova York e ela, ao invés de estar se recuperando, estivesse tirando uma folga do trabalho, e pudesse mais tarde tomar um banho, se arrumar e sair, fosse para o que fosse.
    Porém, por mais cedo que fosse, ela já via Nova York como uma cidade morta, imagem escurecida da vida que ela já não podia ter. Seu telefone tocou, perguntaram se ela estava bem, é claro que sim. Não havia dúvidas, ela havia morrido naquele acidente, tudo estava bem.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mikrokosmos XLV

Para tentar descansar após um dia particularmente exaustivo, ele saiu para caminhar pelas ruas de Helsinki. Nada no trabalho parecia avançar, ele só encontrara pessoas que não queria encontrar e, apesar de estar com uma necessidade particularmente grande de ficar sozinho naquele dia, parecia que todos repentinamente tinham coisas para dizer a ele, e poucos foram os minutos calmos. Porém finalmente a noite chegara e ele podia caminhar sozinho pelas ruas, observando desconhecidos com simpatia, fumando seu cigarro calmamente, tentando esquecer a irritação do dia. Esses estavam sendo dias difíceis, pois após anos, tinha fazer tudo sem o amparo e a constante alegria trazidos por ela, assim como tinha de se acostumar à nova rotina que aos poucos se delineava mais claramente, mas que não era nem de longe boa como a antiga. Era difícil, porém necessário, e ele aguentava corajosamente cada dia difícil, cada momento de desespero pelas mudanças bruscas em sua vida.
Depois de caminhar por quase uma hora, resolveu pegar um metrô para ir para casa. Já estava mais calmo; os problemas no trabalho já lhe pareciam mais simples e ele, aparentemente, não encontraria mais ninguém que subitamente teria assunto para horas com ele. No entanto, mais uma vez, ele se enganara. Ao longe, avistou longos cabelos lisos, e apesar de tentar dizer para si mesmo que era apenas fruto da imaginação repentinamente liberta após um dia muito cansativo, ela levantou a cabeça e mexeu nos cabelos, afastando qualquer dúvida que pudesse restar nele. Aproximou-se sem pressa, tentando ignorar as malas que via perto dela, tentando não pensar em absolutamente nada, apesar das mil vozes gritando em sua mente tudo que lhe havia passado pelo pensamento nos últimos meses. Não sabia o que dizer, portanto apenas ficou de pé perto dela, olhando-a. Ela levantou a cabeça e, antes que ele tivesse tempo de perguntar, disse:
- Estou reunindo todas as minhas forças para não ficar.
Ele respirou fundo e se sentou ao seu lado, sem tocá-la. Ambos ficaram em silêncio por um tempo, o olhar perdido num ponto fixo. Era tranquilizador o simples fato de estarem assim tão perto, mesmo que aparentemente não estivessem nem prestando atenção um no outro, mas não precisavam de mais do que isso.
- Apesar do que eu lhe dizia, as coisas não tem sido fáceis para mim também. Tudo é mais difícil e menos profundo agora. Não consigo me habituar ao cotidiano que eu possuía antes de vivermos juntos - admitiu ele, sem conseguir olhá-la. Surpreendentemente, percebeu que sua voz estava embargada e não podia dizer mais absolutamente nada. Ela o observou e sorriu de leve, cansada, gesto que ele não viu, muito concentrado em se manter firme, olhando para frente. Depois de ponderar as palavras por muito tempo, ela finalmente se manifestou:
- Não aguento mais. Não vejo sentido em continuarmos tentando tudo isso, mas também sei que precisamos de dinheiro e de novas oportunidades de carreira. Se ao menos pudéssemos tentar juntos...
- Você sabe que seria impossível, querida.
- Seria, mesmo? - perguntou ela, com uma tristeza profunda e sincera, como há muito ambos não sentiam. Ele a abraçou forte e ela simplesmente deixou que as lágrimas escorressem pelo seu rosto, exatamente como ele fez. Depois de passarem muito tempo assim, eles se recompuseram e finalmente trocaram um pequeno sorriso.
- Bem, acho que tem uma linha para o aeroporto em alguns minutos. Desculpe-me por aparecer assim, eu juro que estava tentando não ir procurá-lo...
- Eu estou feliz que tenha vindo. Você foi a única coisa boa que me aconteceu hoje.
Eles sorriram e, outra vez, sentiram que não precisavam de nada além da presença um do outro. Ela se levantou e, num gesto súbito, ele segurou o seu braço:
- Passe a noite. Não vai fazer mal.
Eles se fitaram por um longo momento, onde todas as dúvidas possíveis pareciam invadi-la. Mas, como sempre, o olhar tranquilo e seguro nos olhos cinzentos fez com que ela ficasse. E não fez mal algum.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mikrokosmos XLIII

             O vestido vermelho que ela escolhera era, de fato, muito belo. Apesar de ser simples, era longo e possuía um belo corte, apropriado ao corpo dela. Naqueles tempos difíceis aquela festa parecia ser, ao menos, uma boa coisa para ela. Poderia se divertir e, nem que fosse por uma noite, esquecer de si própria e dos problemas que tinha consigo mesma.
                Depois de pronta, desceu as escadas que a levariam ao salão lotado. Os trajes elegantes, a música agradável, os rostos desconhecidos, tudo lhe parecia bom naquela noite, inexplicavelmente. Havia um novo pianista tocando e, talvez por isso mesmo, a música parecesse tão boa. Afastando-se de alguns conhecidos com quem trocava palavras inúteis, foi se aproximando do piano para poder ouvir melhor a música e ter um pouco de paz. Depois de permanecer por um tempo apenas ouvindo a música, de olhos fechados, ao fim de uma canção ela abriu os olhos, e olhou para o pianista. E nenhum rosto jamais foi capaz de lhe causar tamanha impressão.
                Os olhos eram de uma cor indefinida, entre azul e cinza, que ela nunca havia visto. Olhos belos, de alguma forma profundos. Os cabelos longos e negros eram crespos, soltos, distoando do porte elegante do pianista. Um cavanhaque quase lhe escondia os lábios pequenos, bonitos, e os dentes levemente amarelados pelo cigarro. Havia algo, talvez o contraste da pele muito clara com os cabelos negros, ou talvez o contraste de sua elegância com a intensidade com que tocava o piano, ela não sabia, porém havia algo fascinante nele, algo que não permitiria que ela quisesse ir embora.
                Os olhos cinzentos se levantaram e encontraram os dela. Depois de olhá-la por um longo tempo, ele voltou a tocar, e pelo resto da noite ela permaneceu ali por perto, apenas admirando-o, entregando-se ao belo som que ele produzia prazerosamente. Por horas, nada mais parecia existir, até que a última nota foi tocada e, exausto, ele respirou fundo e se levantou, fazendo uma reverência aos convidados que o aplaudiam. Ela estava tão chocada com o término da música que não conseguiu se mover.
                Mesmo tão profundamente encantada, por fim acabou ouvindo uma voz que repetidamente chamava o seu nome. Ainda sem querer desviar o olhar, ela foi seguindo a sua audição, que a levou a subir as escadas e entrar numa sala, ao fim do corredor. Uma vitrola tocava uma música bela, misteriosa, que a intrigou por um momento. Ficou ouvindo por um momento, de cenho franzido, até perceber que havia mais alguém na sala com ela. Levantou os olhos e viu um homem sentado perto da janela, uma parte dos cabelos longos elegantemente presa, olhando-a silenciosamente.
                - Olá – disse, simplesmente.
                - Olá – ela respondeu, intrigada, incapaz de sorrir. Era mais um homem muito belo, certamente bem diferente do pianista, mas tão encantador o quanto. Seus olhos eram esverdeados, mas havia algo de cinza neles também – como também havia um cavanhaque, um porte elegante, algo que a fascinava também. Ele se levantou, aproximando-se aos poucos, enquanto ela o olhava pensativa, perguntando-se de onde ele surgira.
                - Concede-me uma dança? – perguntou ele, estendendo-lhe gentilmente uma mão.
                Em silêncio, ela repousou sua mão sobre a dele, permitindo que ele a puxasse contra si, e então eles começaram a dançar. A música era lenta, mas nada havia nela de monótono. Estranhamente, ela se sentia segura ali, envolvida por ele, com aqueles olhos tentando desnudá-la, olhando e sendo olhada, lábios avermelhados como os dela, um cavanhaque claro... O que, afinal de contas, estava acontecendo? A sala estava quase na penumbra e, apesar de ter vindo naquela casa muitas vezes, nunca soubera da existência dessa sala, muito menos da existência desse homem. Algo nele pedia que ela baixasse suas guardas, que ouvisse a música de olhos fechados, sentindo em seu íntimo os acordes, sentindo o prazer daquelas mãos deslizando por entre seus cabelos finos e longos, esquecendo de qualquer noção de realidade, tempo, probabilidade e imaginação.
                Fechando os olhos depois de algum tempo, ela sentiu o rosto dele mais próximo, respirando com ela, nem se dando por conta de quando o vento entrou pela janela tão fortemente que fechou a porta. Só sabia daquelas mãos que a sustentavam, da música que lhe fazia se perder, o cheiro bom e a pele macia dele, como se...
                Como se ela não pudesse pensar mais. E, de fato, não podia. Antes que soubesse estavam se beijando, perdidos entre a atmosfera surreal daquela penumbra e a realidade da pele, do toque, dos gestos. O cabelo se desfazia aos poucos, um alça do vestido vermelho deslizando suavemente pelo ombro, tudo tão certo, tão impossível que se tornava ainda mais prazeroso. Ainda mais porque, de olhos fechados, ela se entregava ao prazer e jamais saberia dos olhos cinzentos que, por um tempo, esperaram-na ansiosamente na porta, observando cada movimento com esperança de que fosse o último e ela o visse. Porém, antes disso, a música acabou e ele se fora.
(Escrito em 01/05/2012 – 07:38 p.m.)

sábado, 12 de maio de 2012

Mikrokosmos XLIV

    Conduzindo-a gentilmente, ele abriu a porta da biblioteca, mas não ligou a luz. Muito séria, ela observava tudo ao seu redor, olhando verdadeiramente para aquele lugar pela primeira vez em quase dois anos. Não se moveu de perto dele, tampouco disse alguma coisa. Ficou apenas observando silenciosamente as estantes intermináveis na penumbra.
    - Você pode explorar o quanto quiser, ou melhor, você deve. Eu construí esse lugar para você, é desnecessário temer qualquer coisa.
    Ela respirou fundo, ainda sem se mover. Os olhos, porém, moviam-se famintos pelas estantes, como se não vissem livros há muito tempo. Hesitante, ela deu um passo e fez um gesto vago com a mão, como se não soubesse se teria força para pegar um livro ou não soubesse se deveria.
    - Você nunca será capaz de confiar em mim, não é mesmo?
    Fechando os olhos, ela assentiu, de costas para ele, que estendeu uma mão para tocar-lhe no ombro, mas parou um instante antes de tocá-la. Era como se ele fosse tocar um animal ferido, e este fosse incapaz de perceber que ele queria curá-lo. Pensativo, ele ficou por um longo tempo observando-a, enquanto ela permanecia muito calada, talvez até mesmo de olhos fechados. Naquela penumbra, os cabelos dela pareciam escuros, uma cortina sobre as costas que ele não podia tocar. Afastou-se então, para tentar tornar as coisas mais fáceis, e se sentou à mesa.
    - Não importa o que acontecer, este lugar é seu. Você deveria saber e acreditar nisso.
    Ela se virou e o encarou. Apesar de sua profunda empatia, ele não conseguia enxergar nada além de medo e dor naquele olhar que ele parecia conhecer tão bem. Aos poucos, ele se aproximou novamente, parando à uma distância segura, esperando. Depois de desviar o olhar algumas vezes e voltar a olhá-lo, ela se decidiu por um título que ele não pôde ver e saiu da biblioteca. Calado, sem saber o que pensar, ele permaneceu em pé, olhando para o nada, incapaz de sentir qualquer coisa, até ser despertado de seu torpor por ela.
    - Você não vem para a cama?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Mikrokosmos XLII

                Segurando uma xícara de chá entre as mãos, ele se aquecia sentado na varanda, embalando-se levemente e observando o sol se por. O crepúsculo era sempre mais belo com a neve cobrindo todo o lugar. Uma melodia de Hans Zimmer tocava esquecidamente no fundo de sua mente, como se no cansaço que sentia ele fosse incapaz de ouvir claramente qualquer coisa, porém ele ouviu os passos quando ela se aproximou, também com uma xícara de chá, e se sentou na cadeira de balanço ao seu lado. Depois de algum tempo, ele a olhou, finalmente. Ela também parecia cansada, mas diferentemente dele, parecia feliz. Havia repousado a mão esquerda na perna dele, num gesto distraído de carinho.
                - Essa aliança fica realmente bonita em sua mão - disse ele, desejando que aquele gesto simples não acabasse logo. Ela sorriu, sem retirar a mão de sua perna.
                - Alianças de casamento em geral são bonitas. Você também fica muito bem com a sua.
                - Será que existe um limite de tempo para duas pessoas serem felizes juntas?
                - Não sei, mas espero que o nosso tempo não esteja acabando.
                Porém ambos sabiam que, na verdade, já havia acabado. Não por falta de amor, mas por necessidade. Sabiam também que poderiam estar juntos novamente em breve, mas que era igualmente possível que esse fosse o fim. Acertada ou erroneamente, eles não sabiam, porém haviam concordado que seria parte essencial do crescimento dos dois saírem do conforto da vida que possuíam juntos e encararem outras realidades. Ela em Montreal, ele em Kitee mesmo, fazendo as crianças interiores aprenderem que a vida real nem sempre trazia uma árvore com presentes no final do ano, mesmo que eles houvessem sido boas crianças.
                - Eu acho que estou começando a gostar de Montreal, de verdade - disse ela baixinho, no entanto ele não perdeu nenhuma palavra. - É mais difícil do que eu pensava, mas está tudo bem.
                Ele ficou em silêncio por um longo tempo, apenas observando o céu alaranjado por trás dos pinheiros, depois do lago. Acariciou a mão dela, continuando num gesto esquecido enquanto pensava em tudo e em nada, tentando digerir o que ouvira. Era difícil, mesmo que ele soubesse que esse dia se aproximava há meses. Respirou fundo, resignado ao ponto em que finalmente haviam chegado.
                - Eu te amo - foi a única coisa que conseguiu pensar em dizer.
                - Eu também te amo. Muito.
                Ele se levantou e lhe ofereceu a mão gentilmente. Ela a aceitou e se levantou também. Depois de se olharem por um tempo e se reconhecerem um no outro, conseguiram sorrir e se abraçaram, ainda admirando a vista daquela varanda tão segura, tão deles. E escureceu.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Mikrokosmos XLI


         - Quando eu tinha catorze anos, inúmeras coisas aconteceram e me mudaram profundamente, sem, no entanto destruir o que eu mais queria preservar. A sua vida repete a minha, então eu não ficaria surpreso se isso lhe acontecesse.
        - Eu preciso que muitas coisas mudem, mas sei que tenho de ir embora para que isso aconteça, e eu nunca quis ir - ela observou-lhe o rosto prolongadamente, num gesto já de saudade. - Eu sei que você me levará ao aeroporto, e fará o melhor possível para me esperar, mas isso não torna as coisas mais fáceis. Ainda vou sentir a sua falta todos os dias e me perguntar porque diabos estamos longe um do outro.
        Por um longo tempo ele permaneceu em silêncio, apenas observando ao longe as árvores da floresta onde brincava quando criança. Quão errado era deixá-la partir, e quão certo? Havia tanto que deveria ser arriscado que ele nem queria pensar.
        - Sim, eu te levarei ao aeroporto e tentarei te esperar, se você puder retornar algum dia. Porém, preciso dizer-lhe algo e preciso igualmente que me ouça seriamente, sem jamais considerar isso uma reação exagerada de minha parte.
        Como ele temia e desejava, ela assentiu prontamente, muito séria, olhando-o atenciosamente. Depois de um momento de ultima hesitação, com um enorme esforço, ele conseguiu dizer:
        - Temo que as probabilidades de voce não retornar sejam grandes. Pense no quanto o seu cotidiano irá mudar, quantas novas preocupações e novas alegrias irão vir... Uma vez que você estiver de volta na Inglaterra, querendo ou não, sua vida irá mudar aos poucos, até que essa tarde não seja mais do que uma memória distante, de uma vida que você superou. É desnecessário se sentir culpada por desejar isso; ambos sempre soubemos que crescer como ser humano é o que há de mais importante nessa vida.
        Pensativa, ela assentiu, evitando o seu olhar. Apesar de saber que isso era, supostamente, necessário, ainda não desejava partir, ou melhor: desejava partir, fazer o que tinha de ser feito e voltar para casa. A ideia de que a vida que levavam agora poderia se tornar apenas um passado inatingível era desejável apenas pela conveniência; no fundo não havia nada que ela desejasse menos do que deixar isso tudo para trás.
        - Eu não acredito em nada disso. Sei que muitas coisas vão acontecer e que eu estarei longe por um tempo, mas cedo ou tarde tudo voltará ao normal, porque eu não preciso de nada além disso.
        - Isso não é verdade. Se não precisasse, você ficaria aqui. Você está certa em ir, e concordo que você possa voltar, mas acho difícil. Lembra do quão feliz você ficou durante sua entrevista? E sua enorme empolgação quando foi aceita? - ela assentiu, sentindo os olhos arderem. Como sempre, ele via através dela, porém era incapaz de compreender que por isso mesmo ela precisava dele, dessa vida ao seu lado. - Tudo está certo para que você vá e, apesar de haverem inúmeras dificuldades, você sabe que a única opção é enfrentá-las com coragem e pureza de intenções.
        Sem mais o que dizer, ambos silenciaram, observando as copas das árvores movendo-se harmoniosamente com o vento. O verão estava chegando e nada mais seria tão belo, muito menos tão delicado, entretanto esse era o ciclo natural das estações. Um dia, o inverno traria a neve outra vez, e os dois poderiam brincar a tarde toda e decorar pinheiros e dançar sob eles no Natal, mas até lá havia muito trabalho a fazer. Então era hora de entrar e se dedicar por um momento - e talvez, em devaneio, ainda ser livre.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

End of Time

           Laying on a hotel bed, they remained silent, holding hands, both thinking about everything so confusingly that nothing could be understood even in their minds. Actually, this was their strategy to breathe when too many things were happening or about to happen. Ten years of friendship made their silence be enough communication; their history was completely different because of each other's presence. He seemed to be the only man who could love her without desire; she seemed to be the only woman able to see beyond his appearance. With no masks they spoke, laughed and cried together through the years, being siblings, the norwegian girl and the italian man.
        - You are screwed, you know that, right?
        She laughed as answer. The moment of worry was gone for a while. The best of being together like this was that there was something about him, something very subtle that seemed to say "Forget everything, be just a girl with her brother, let me just a boy with his sis". It usually worked, so, at least for one hour all the hell or heavens which were worring them, just disappeared, and then they could go back to a safe place in their lives, where there was nothing but friendship and a little of fun, and even seemed that they could be young and brave once more. As life was making them grow older and older, only more regrets and useless experiences were added to their "wisdom". At least, they had built great professional lives: she made it through the medical school and became a great general surgeon, while he became the brilliant writer he always dreamed of being.
        Their sucessfull professional lives were a good mask for their personal mess. He lived by himself in a fancy apartment in Rome; she lived with her best friend (who was also a surgeon) in a house near the hospital where they worked. The flight for Oslo was in two hours, but she did not want to go home. Liv, her best friend, was now with a good life: she had finally gone back to her musician and very beautiful boyfriend. She was thin and really beautiful too, with amazing dark eyes, behind which all sort of sadness had been through. For a long time, Liv was the only person who could know everything about her, and that was...
        Someone was at the door. Lazily, he rose to answer it. Before she was even able to realize what was going on, she heard he whisper to her "Easy, honey" and then the lights were on and the voices spoke in italian and english and nothing else made sense: in a moment she was watching Liv dancing through the living room, smiling as she almost never did, and the hospital's lights were blinding her and somewhere, in some very distant place, the italian man was waking up with his phone ringing, with Liv's crying voice and there wasn't enough time to fly to Oslo, there was... That was the end of time. 


(Written in 03/27/2012)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Mikrokosmos XL

    O oceano se aproximava com força, mesmo sem se virar ela podia perceber as ondas violentamente perto, atrás de si, o vento forte deixando seus olhos marejados. Ainda assim, ela ignorava conscientemente o oceano se aproximando e continuava a caminhar pela biblioteca, procurando sem sequer saber o que queria encontrar, apenas sabia que em algum lugar daquele labirinto haveria conforto. E então ela seguia caminhando.
    Cansado, ele finalmente conseguira um tempo para ler, depois de meses de trabalho exaustivo. Acomodou-se para reler um de seus livros favoritos, porém algo sempre parecia tirar-lhe a atenção. Ao longe, podia ouvir o mar agitado, e aos poucos ele percebeu que era esse som que não o deixava se concentrar. Sabia perfeitamente bem que não deveria ir, que aquele era o ponto onde ele, o mar e ela se afastavam para poderem se enxergar melhor, entretanto era quase impossível permanecer imóvel enquanto eles estavam lá chamando, precisando dele.
    As estantes eram intermináveis; os autores desconhecidos e absurdos. Ela continuava procurando, caminhando cada vez mais rápido, guiada mais pelos instintos do que pela visão. As ondas não diminuíam o seu ritmo, seguindo cada passo dela. O som delas era tão reconfortante quanto assustador, e por isso mesmo ela não sabia o que fazer além de seguir caminhando, procurando. Depois de caminhar infinitamente, ela pensou ter visto, num relance, longos cabelos negros, e no mesmo instante correu para eles. Parou quase caindo sobre ele, mas este continuou a acariciar a lombada de um livro quase esquecidamente. Mesmo sem olhar o título, ela saberia que se tratava de Leaves of Grass, de Walt Whitman. Pegou o livro por um instante, sob o olhar cuidadoso do poeta de cabelos negros, e abriu numa página aleatória; sabia que ele e o livro estavam ali apenas de passagem, apenas para lembrá-la do que era importante. Levantou os olhos do livro e encarou os olhos cinzentos por um longo tempo, sem sequer pensar em nada. Por tanto tempo não fizera isso que...
    - "There is no fear in a dream".
    Ela assentiu, muito calada e perdida, esperando pacientemente que o próximo movimento se mostrasse. As ondas já molhavam-na e batiam em suas pernas, porém ela não se importava. Quando os olhos cinzentos estavam ali, em silêncio, de fato não havia medo. Ela segurou suavemente a mão que ele lhe estendia; ele apertou de leve a sua mão assim que esta repousou na dele. Num abraço então, ela se permitiu afundar nos cabelos negros, na pele clara, nela mesma. Em casa.
(Escrito em 17/03/2012 - 11:21 a.m.)

domingo, 25 de março de 2012

Landslide

    Olhando a avenida através das janelas da melhor cafeteria da cidade, era difícil querer sair dali. O dia muito frio e chuvoso dava um ar muito belo à cidade, como se tudo estivesse em seu devido lugar. Porém, demorariam anos até que ela pudesse sentir as coisas dessa forma outra vez.
    Em dias chuvosos como aquele, eles gostavam de fumar mais do que o habitual, e o café preto, sem açúcar, era mais gostoso. A voz de Robert Smith adequava-se perfeitamente ao apartamento que permanecia, de resto, silencioso, exceto pelo delicado ruído de uma página sendo virada ou do papel sendo escrito. E nesse mesmo silêncio, o súbito gesto de carinho que se transformava em volúpia, durando a tarde inteira. Ou pelo menos era essa a vida que ele havia lhe prometido, dia após dia, por um ano inteiro.
    Violência. Cocaína, álcool, selvageria, rompimento. A pele dela, clara, sob as roupas íntimas vermelhas que, nada originalmente, enlouqueciam-no e a deixavam ainda mais indefesa, perdida, tentando sempre compreender o menino que havia por trás do homem maduro, tentando lembrar da beleza dos olhos verdes sóbrios. Conseguia e então, só por mais um outro dia, esperaria que as coisas melhorassem. Inutilmente.
    Apesar de todos os atos abomináveis, era muito difícil partir. Agora ela estava mais próxima; o apartamento era a poucas quadras dali e uma caixa para colocar as suas coisas a esperava na sala, provavelmente sobre o sofá, perto da janela. Perto da claridade, onde ela gostava de estudar e criar, sabendo que poderia contar com a leitura crítica, porém cheia de incentivo, dele. A leitura atenciosa, com correção de trechos, sugestões bibliográficas e elogios ao lado de trechos destacados. O olhar atencioso que lhe ouvia as dúvidas e respondia mais do que ela perguntava, ensinando-lhe o melhor possível, dando-lhe esperança de realizar grandes feitos.
    Mas não sem ele. Nunca sem ele. Mesmo sabendo que agora já não perderia noites se preocupando com sua saúde ou sua localização, ela sabia que a separação também teria um vasto efeito sobre seu crescimento, afinal, apesar da diferença de idade, eles não iriam crescer juntos? Para onde iam os artigos e livros não escritos, a filha que nunca tiveram, o casamento nunca celebrado? Felizes dos casais que passavam pela rua sem nem notar a cafeteria, sem jamais se perguntarem para onde as coisas não feitas vão. Por isso doía. Doía, e era ainda pior porque ela não havia aprendido a odiar.
    Levantou-se de súbito, pegando seu sobretudo e juntando um sorriso não se sabe de onde para agradecer à atendente do caixa. Vestiu o sobretudo preto e apertou o passo por causa da insistente garoa. Em menos de cinco minutos, quase sem sentir, ela chegava ao prédio. E tinha de subir.
    Ao contrário do que imaginava, as suas coisas já estavam cuidadosamente organizadas dentro da caixa, as roupas e livros cabendo quase perfeitamente, tornando as coisas mais fáceis. Tranquila, ela pegou a caixa do sofá e já ia saindo, quando repentinamente avistou uma nesga de tecido azul claro entre as suas roupas. Largando a caixa novamente, desorganizou-a para confirmar o que já sabia. A camiseta azul que já era mais dela do que dele estava ali, cuidadosamente lavada, passada e dobrada. Num gesto automático, começou a levá-la ao nariz para sentir o cheiro, mas parou um instante antes. Se sentisse aquele cheiro, sentaria no sofá e o esperaria até o amanhecer. Então, num ataque de pânico e clareza que surpreendeu a si própria, ela dobrou cuidadosamente a camiseta e a pousou sobre o sofá. Sem um último olhar que fosse, ela pegou a caixa e desceu as escadas correndo, parando sem fôlego a quadras dali. Para onde ir?

(Escrito em 13/03/2012 - 10:38 p.m.)

sábado, 3 de março de 2012

Gone

    - I'm sorry, but I have to ask you. Are you ok with it?
    - With what?
    - Leaving.
    - Oh... Yes, leaving. I'm fine, I suppose. Why?
    - Well... It's just that it was very hard for me, even though I've been with him just for a while. Two years... I can't even imagine how hard would that be.
    - There's this... this part of me, you know? It keeps screaming for me to stay, screaming that I don't have to go, but I know it's not truth.
    - Did he ask you to stay?
    - No. He only said I could've. He just... felt that things were changing, and the time was ending. And he tried very hard to make it easier for me, most of the time. It's very unfair, don't you think? I mean, they both helped us, giving us a new chance to live, and we leave them, even before we're sure that we're ready for it.
    - We are ready, we surely are. And no, it's not unfair, it's just... life. We can't heal them, because what they have goes far beyond our reach. But we were less damaged, and they knew how to fix it, and they're glad for having done this, we both know.
    - Yet, I don't like this. I wish I could just... stay. But there is no option, it's time.
    - Yes. He's going to be fine, you know? He will miss you, but he knows that you have to go, and that you'll never forget his essence. He knows what he is doing, trust me.
    - It's fucking scary.
    - I know, I'm freaking out too. However, there's a part of me that remains calm, just like if t knew that this is the way things should be.
    - Oh yes, I feel that way too.
    - Really?
    - Yes.
    - We're going to be fine. We just have to... breathe, and be brave.
    - Yes.

    "The train has arrived at Dublin..."

    - Good luck, so. With everything.
    - Thanks. For you too. Goodbye.

(Written in 03/01/2012 - 08:34 p.m.)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Falling

    In a random night, very deep in the ocean, the colors were changing. For a long time, the lights from high above were trying to penetrate the deep dark ocean, but it was one of the hardest things they could ever do. The depths of the ocean only knew light many eras ago, but the damage caused by those lights were too deep to be fixed, so the deep dark ocean kept himself, in silence, running away from the beauty and the violence from the stunning light of the sun.
    For years, the deep dark ocean remained into himself, always finding a way to forbid even the most delicated ray of light of touching its bottom. It seemed the right thing, however, there was a factor which was being ignored, and it couldn't be ignored. The factor was... that the ocean, ever since its formation, always dreamed about the sun, and loved its light, its warmth. And in a very beautiful day, the sun, even it being as impossible as it was, managed a way to get closer to the deep dark ocean, and him, surprised, didn't have the time to close himself, not even the surface. Indeed, the deep dark ocean had been thinking about the sun for a long time, because its importance had been revealing itself for him, day after day, together with his need of the sun's presence. He had beautiful dreams about its presence, even though he did not name it "the sun", it was only a beautiful, loving and shapeless presence.
    So, when the deep dark ocean felt the sun so close, and realized how helpless he was, he drowned into his eldest and deepest fears, bleeding out once more for his past, afraid of all the injury the warmth of the sun could cause him, once more. In despair, he struggled with every single thought, every single tear and nightmare he kept in his own depths, until a nice, gentle siren came from his surface, swimming to his very bottom, and sang to him the song he needed to hear. She sang for a long time, bringing tears to his face, yet, stroking his hair, singing in a lullaby tone. When she was done singing, he smiled, his face still stained with tears from long ago, but yet smiling, hurting infinitely, finally with bravery. He said farewell to the siren, thanking her for everything, and stared at the sun, for the first time, directly, bravely.
    "With time, perhaps, we shall be together. I am here, for us, and if our scars can be healed by ourselves, together, I know that only time can tell, and I hope you do, too."
    With a smile, he opened a tiny slit for the sun, almost invisible, but the sun saw it. With a deep breath, they both looked into each other, and smiled, waiting - waiting, and letting the rivers flow.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Depois

Era irônico e desrespeitoso, mas tudo estava exatamente igual estava há algum tempo atrás, antes que o tempo mudasse, antes que tudo nunca mais pudesse ser o mesmo. O pão ainda era assado, as horas sucediam-se ininterruptamente, crianças iam para a escola, mães e pais iam trabalhar, namorados se beijavam, riam, choravam, cafeterias eram abertas, café da manhã era preparado, luzes eram ligadas,
portas batendo
cafeteira roncando
torneira ligada
tudo tudo funcionando perfeitamente bem, ironicamente bem, a programação da televisão em seu curso habitual, buzinas soando, ônibus pegando e largando passageiros, pessoas correndo para não se atrasar, esquecendo de livros, chaves, relógios, um brinco sobre a mesa, outro na orelha esquerda, um relatório importante embaixo do braço amassa levemente mas tem conserto tudo tem conserto menos
ah sim
Em algum lugar alguém adormeceu com a cabeça doendo, adormeceu em meio ao pranto. Quando ele acordar, tudo estará funcionando perfeita e desrespeitosamente bem, com todos os exemplos acima citados e tantos outros que talvez sejam ainda piores. Nada nesse mundo é capaz de sentir o quão absurda a ideia de seguir-em-frente-e-superar pode ser, nada a não ser o oceano. Ele sim encerra em si tudo, sem se tornar mais fraco - muito pelo contrário - e embala em seu conforto de beleza infindável tudo que se perdeu, a inocência a esperança os medos as brigas o riso a alegria a chance Lily, Joseph, Frank, Brian, George, Danny, Thomas, Mary, Amy, Bonnie, Debra, Anne, Sirius
todos eles em silêncio
todos em melodia
E a menininha, de mãos dadas com o meninho, olha o mar grande imenso lindo lindo, infinitamente azul, abrigando todos, abrigando deles também o que havia de melhor e que talvez algum dia pudesse vir à superfície. O mar, um dos únicos seres no mundo capazes de abranger a morte, respeitá-la e enfrentá-la como se deve, de fato. Enquanto o sol sobe outra vez e a praia se enche de gente e as pessoas trabalham e os carros poluem e a vida segue infinitamente irônica.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mikrokosmos XXXIX

    Ao longe, ele podia vê-la sentada num banco sob as árvores. Estranhamente, ela não estava lendo um livro, o que só fez com que a sensação de que alguma coisa estava muito errada aumentasse nele. Sem perceber, apressou o passo em sua direção, e depois de um longo momento ela o olhou, finalmente percebendo-o. Quando ele se aproximou, ela não conseguiu dizer nada. Levantou-se e pegou em suas mãos, enquanto ele a olhava, tentando compreender qualquer coisa que fosse, que diabos estava tão errado para deixá-la de olhos marejados. Na verdade, ele podia sentir o que havia de errado, mas não queria admitir isso. Há um mês atrás, ela ainda era uma amiga que ele via pouco, porém pela qual tinha um enorme afeto. Então aconteceram um monte de coisas e ali eles estavam e, repentinamente, os sonhos que o haviam dominado pelo último mês e, ele tinha de admitir, os devaneios de anos atrás, todos eles estavam acabando numa tarde tranquila, de começo de verão.
    - Eu... Nós não... Bem, eu...
    A voz dela estava embargada e tão baixa que ele tinha de se esforçar para compreendê-la - quando, no entanto, já compreendera tudo muito antes de vê-la, simplesmente pelo tom de sua voz ao telefone. Observou-a longamente por uma última vez, os cabelos finos esvoaçando ligeiramente em sua fronte, as sardas pequenas por todo o rosto, os olhos escuros, bonitos. Num impulso, deu-lhe um longo beijo na bochecha e simplesmente saiu dali, caminhando rápido, querendo olhar para trás mas sabendo que não podia, se queria manter-se digno e realmente conseguir ir embora. Então era assim que acabava: em um momento, eles estavam tão próximos que ele sentia que poderia fazer qualquer coisa, dizer-lhe qualquer coisa, porque tinham tudo pela frente, e no instante seguinte ele estava indo embora rápido, tentando firmemente lembrar da voz áspera de seu pai dizendo que homens não choram, nem gostam de poesia, porém era inútil tentar; nem mil anos de severa educação poderiam fazer com que ele perdesse toda a poesia que existia em seu interior mais profundo.
    No entanto, se ele houvesse, por um momento sequer, olhado para trás, poderia talvez ter sonhado com a verdade. Como dizer a ele que tudo aquilo era bom demais para ela, que ela vinha de um mundo onde tais coisas não existiam? Como explicar-lhe que ele era puro demais, perfeito demais para ser tocado por ela, que não sabia passar nem um dia sem machucar nem que fosse a si própria? Antes de se envolver com ele, ela não sabia a dimensão de sua beleza, tampouco sonhava que existisse alguém assim no mundo - e, de certa forma, tanta perfeição era insuportável, não importa o quanto ela pudesse ter sonhado com isso. Como agir quando a realidade se mostra ser ainda mais bonita do que nossos sonhos? Tentando não remoer tudo isso, ela ainda permaneceu no banco por um longo tempo, antes de se recompor e tentar voltar para casa. Tinha de ser assim: um melhor amigo que também pudesse ser seu namorado, uma pessoa com quem compartilhar o tempo e a arte, eram sonhos muito altos que não podiam fazer bem, porque a vida não era assim. Tentando se resignar ao que nunca existiria, ela foi embora, sem perceber que estava mudando, que toda a sua vida estava mudando. E, em breve, tudo que ela jamais sonhara seria possível e real. Com ele.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mikrokosmos XXXVIII

    - "...o pranto exausto, aliviado, de uma criança que ficara perdida durante tempo demais, sofrera muito e finalmente estava mais uma vez em segurança."
    - Por que você está citando Stephen King? - perguntou ela sorrindo, levantando-se da cama para ir olhar as fotos que ele estava arrumando. Ele não respondeu, apenas lhe entregou a foto que tinha em sua mão.
    No verso da foto, na caligrafia dela, estava o trecho que ele acabara de ler. Ela virou a foto, mas isso era desnecessário: lembrava-se perfeitamente que havia escrito isso atrás da foto que fora tirada na primeira noite em que saíram como, oficialmente, namorados. Ela estava com os cabelos presos e ele a abraçava forte; ela sorria mais com os olhos do que com a boca, como de costume, ambos com casacos pretos e pesados de inverno. Ainda que houvessem se passado anos desde que a foto fora tirada, e mais alguns desde que ela transcrevera o trecho d'As Terras Devastadas no verso da foto, ela ainda se sentia da mesma forma. Obviamente, estava mais habituada à segurança agora, mas ainda não sabia o que fazer quando algo, por menor que fosse, dava errado e a possibilidade de perdê-lo se tornava real. Ele a ajudara a se recompor, a ter uma razão para viver por si própria outra vez, porém sem tê-lo por perto, toda a estabilidade, toda a possível beleza e poesia se esvairia num átimo.
    Aproximando-se, ele a perscrutava em silêncio, uma pergunta muda em seus olhos, que não queriam acreditar, tampouco compreender a extensão do que havia lido. Num súbito lampejo de compreensão, ele disse:
    - Eu prometi que cuidaria de você, lembra? Prometi que não te deixaria cair outra vez e...
    Ela concordava com a cabeça, tentando disfarçar o quão nua se sentia naquele instante, quando seus medos e seus sentimentos mais bem guardados pareciam vir à tona por uma simples transcrição. Ela abriu e fechou a boca, entretanto não possuía palavras, simplesmente não possuía. Deixou que ele a abraçasse por um longo tempo e então, sem perceber, sussurrou:
    - Roland...
    Ele parou de acariciar os cabelos dela, surpreso, e a olhou. Podia ver nela uma criança tão perdida o quanto Jake, mas tão determinada em seguir em frente o quanto ele. Comovido por lembrar-se como, apesar de possuírem formas diferentes, o amor deles se assemelhava com o de Jake e de Roland, ele lhe afastou os cabelos do rosto com cuidado, sussurrando outra vez:
    - Eu nunca vou te deixar cair. Nunca mais.
    E ela soube que ele dizia a verdade. Era ka-tet, só podia ser ka-tet. Por um longo tempo ele continuou ali, apenas a abraçá-la e acariciar a filha deles, ainda dentro da barriga dela. Nenhum dos dois poderia ter jamais realmente pensado que tudo fosse acabar daquele modo, no entanto daquele modo tudo estava, e era assim que deveria ser. Wyrd bið ful aræd.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Little Rain

    - I failed, I know - she took a deep breath, trying to disguise the tears. - When I was a kid, I remember looking at you with those bitches, and all I could think was that I would be better for you.
    - Better? - he asked, smiling as she couldn't see him, with her eyes looking down.
    - Yes, you know... Well, I'd give you more than good sex and trouble, I kept promising to myself I'd be deserving of you, no matter how badly they used to talk of you. These women weren't good people, I could sense this, and none of them cared about you, not really, I'm sorry to say.
    - You're being protective, once more - said him, and by the little tone of amusement that could be heard in his voice, she looked into him. In spite of trying to stay serious, she could see a smile in his eyes, a shadow of happiness and/or hope in those amazing blue eyes. Who saw him with that expression, could never guess how violent and angry he could be sometimes, but most of people didn't know him this way, the way she loved, the loving man with that ginger and nifty mustache, which could spend hours just stroking her hair, which was so slim and sleek as his that could be perfectly blended with his, as if it was only one's hair. The man who used that strong hands to stroke her with the same passion which he used on the piano... No, no one else knew this man, the man she truly love and that he always kept hidden to most of people. Perhaps, she had spent way too much time away from him, listening too much to people who just knew the bad side of him, and that was why she had made so many mistakes.
    - I have to be protective, at least - she said, truly sad. - At least that, I owe you. And you don't even have to start to yell at me, I know quite well that all my mistakes are unforgivable, and I have been the greatest bitch you ever met, because you were never bad for me and yet I left you. I turned out to be even worse than those bitches I hated so much in my childhood, look at that - she gave a bitter smile, looking to the street, where people were walking completely not worried, all of them without a clue of how it was to be as sorry as she was. All she wanted to do was to go away, since she couldn't go back in time to fix it all up, and she knew that there was no hope of forgiveness, she didn't deserve it, and he was quite right at it. However, she wouldn't cry in front of him. She had came to tell him that she was finally aware of her own mistakes, and it was harder than she could imagine, but she did it. After a long silence, while she was deciding herself to go home, he said something, carefully.
    - You're not worse. You're better.
    She looked at him, thinking she had misheard his words. Yet, he was looking at her deeply, with some sort of hidden tenderness in his gesture.
    - You don't have to try to make me feel better, my dear - she smiled, taking his hand. - Thank you a lot, but I know I'm the wrong one here.
    She seemed very touched by what she thought that he had done, but she was wrong about his intentions.
    - Yes, you're the wrong one here, but not about our past - he gave a little smile. - A bit, yes, but that's not what I'm talking about. You're wrong about all those bitches - they both laughed at the way he said that word -, because you are, yes, way better than they could ever be. None of them ever had the decency of coming here and admiting their mistakes, none of them ever loved me enough to understand my anger, my jealousy, and even less to care about how I was doing, after they had their lifes put back together. So, no, you're not like them. You are my true wife. You.
    - What are you saying...? - asked her, almost without voice, her tears threatening to fall down her face at anytime. He pressed her hand gently, yet strongly, the hand in which their wedding's ring was still in. Suddenly, the little girl that used to say that she couldn't wait to grow up and marry him was there again; that little five years old child that loved the man he already was back then, and used to run happier than ever to his lap, everytime they met.
    - I'm saying that I'm an old man - started him, surprisingly touched by everything -, just an old man who can't affort to keep his old and stupid pride. Yes, you've been a bitch, but I always loved bitches - she laughed, in discreet tears - and I know, I always knew that, if there's a woman who loves me, that would be you. It's odd, but I don't think I could ever regret this. So, all this bullshit is to say that I forgive you and, I don't really know if it was your intention, but I want you to come back home with me. I have a party to plan, you know, and I'll need your help.
    She didn't have the courage to kiss him, because it was all too unreal for her to believe in. However, when he standed up, she embraced him, without letting him go as they went out of the coffee house and walked down the streets. As a little child, she kept holding him, as if he was a good dream that would flee away, so she hold him really tight against her, ignoring the rain, the people, everything. It was just a little rain, after all. And peace.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Little Wing

    The sound of breaking glass woke her up. She sat on the bed quickly, but it was only him breaking some bottles in their bedroom. She laid down again, asking calmly:
    - What's wrong, love?
    - I dreamt you were fucking some bastard - he said, angry.
    - It was just a bad dream, come back to bed honey - she was speaking with her eyes closed, barely awake. The sun light wasn't so bad because of the curtains, but yet it was sure that the day was, at least, in its middle. It was way too early for them to wake up, but he didn't seem to come back to bed. Resigning herself, she sat once more and looked at him. His ginger hair was a mess, and he walked through the room, almost cutting his feet with the broken glass on the floor. His mind was clearly far away, even though his thoughts were all about her and some random man above her. It drove him insane, and he felt like he could hit her to death, if it was really truth.  However, she has always been with him, even when he had to travel, even we he lost everything. Why, then, this sudden terror of losing her? He wasn't the kind of man which loves a woman this way.
    - What was so real in this dream, dear? - she got closer to him, without touching him. - Was it some guy we know?
    - No, that's not the problem - he shook his had, still thoughtful. - You.. You were prostituting yourself.
    - I'm sorry, what? - asked her, surprised.
    - Not in the usual way - said him quickly. - But way worse. I don't know how, but I knew you where fucking him just because... well, because of the "life" he gave you. You know, all that rubbish about a serious and very responsible life, with everything very well structured, from the gifts of christmas to when you would have kids and stuff like that... You were fucking for a image of yourself. That's the problem.
    Now, she was the one thoughtful. Oddly, she could understand everything he told her. The image of a "good" woman, with a well structured life, approved by everyone she knew, a pride for everyone. It makes sense, she thought. But that was a dirty and ridiculous thing for her, and her deepest hope was that she would never find it decent. That ginger, middle-aged and insane man who was walking through their room, completely worried by a dream, was the man she had been always in love with, her childhood dream, even though he wasn't a dream at all. Yes, he could be violent, lunatic and depressed, however, no one else had his beautiful eyes, his strong voice, his way of embosom her hair, hold her, give her as much pleasure as a man could give... and more than that, no one else sang with her on the lap when she was only a child, making her believe in better days, no matter how wrong they could sound for everyone else. He was, secretly, a paradise for her, and even the most perfect prince couldn't replace that.
    - It was just a bad dream - said her, strongly now, touching his shoulder. - Now get naked and lay down, I'll make you feel better.
    He looked at her eyes deeply, for a long moment, as if he could read the truth behind her words. After a while, he seemed satisfied, and so he obeyed her, getting naked into the bed, while she put a Led Zeppelin's cd and started to dance to him, accompanying the guitar flood, getting naked almost lazily, yet doing things in the way he liked. For him, she would always be a pretty good dancer, and when she were dancing on him, the bad dream was long forgotten. All they needed to do was to give themselves entirely for each other, and that was the way things were always going to be. Until the dream comes true.