Ao longe, ele podia vê-la sentada num banco sob as árvores. Estranhamente, ela não estava lendo um livro, o que só fez com que a sensação de que alguma coisa estava muito errada aumentasse nele. Sem perceber, apressou o passo em sua direção, e depois de um longo momento ela o olhou, finalmente percebendo-o. Quando ele se aproximou, ela não conseguiu dizer nada. Levantou-se e pegou em suas mãos, enquanto ele a olhava, tentando compreender qualquer coisa que fosse, que diabos estava tão errado para deixá-la de olhos marejados. Na verdade, ele podia sentir o que havia de errado, mas não queria admitir isso. Há um mês atrás, ela ainda era uma amiga que ele via pouco, porém pela qual tinha um enorme afeto. Então aconteceram um monte de coisas e ali eles estavam e, repentinamente, os sonhos que o haviam dominado pelo último mês e, ele tinha de admitir, os devaneios de anos atrás, todos eles estavam acabando numa tarde tranquila, de começo de verão.
- Eu... Nós não... Bem, eu...
A voz dela estava embargada e tão baixa que ele tinha de se esforçar para compreendê-la - quando, no entanto, já compreendera tudo muito antes de vê-la, simplesmente pelo tom de sua voz ao telefone. Observou-a longamente por uma última vez, os cabelos finos esvoaçando ligeiramente em sua fronte, as sardas pequenas por todo o rosto, os olhos escuros, bonitos. Num impulso, deu-lhe um longo beijo na bochecha e simplesmente saiu dali, caminhando rápido, querendo olhar para trás mas sabendo que não podia, se queria manter-se digno e realmente conseguir ir embora. Então era assim que acabava: em um momento, eles estavam tão próximos que ele sentia que poderia fazer qualquer coisa, dizer-lhe qualquer coisa, porque tinham tudo pela frente, e no instante seguinte ele estava indo embora rápido, tentando firmemente lembrar da voz áspera de seu pai dizendo que homens não choram, nem gostam de poesia, porém era inútil tentar; nem mil anos de severa educação poderiam fazer com que ele perdesse toda a poesia que existia em seu interior mais profundo.
No entanto, se ele houvesse, por um momento sequer, olhado para trás, poderia talvez ter sonhado com a verdade. Como dizer a ele que tudo aquilo era bom demais para ela, que ela vinha de um mundo onde tais coisas não existiam? Como explicar-lhe que ele era puro demais, perfeito demais para ser tocado por ela, que não sabia passar nem um dia sem machucar nem que fosse a si própria? Antes de se envolver com ele, ela não sabia a dimensão de sua beleza, tampouco sonhava que existisse alguém assim no mundo - e, de certa forma, tanta perfeição era insuportável, não importa o quanto ela pudesse ter sonhado com isso. Como agir quando a realidade se mostra ser ainda mais bonita do que nossos sonhos? Tentando não remoer tudo isso, ela ainda permaneceu no banco por um longo tempo, antes de se recompor e tentar voltar para casa. Tinha de ser assim: um melhor amigo que também pudesse ser seu namorado, uma pessoa com quem compartilhar o tempo e a arte, eram sonhos muito altos que não podiam fazer bem, porque a vida não era assim. Tentando se resignar ao que nunca existiria, ela foi embora, sem perceber que estava mudando, que toda a sua vida estava mudando. E, em breve, tudo que ela jamais sonhara seria possível e real. Com ele.
- Eu... Nós não... Bem, eu...
A voz dela estava embargada e tão baixa que ele tinha de se esforçar para compreendê-la - quando, no entanto, já compreendera tudo muito antes de vê-la, simplesmente pelo tom de sua voz ao telefone. Observou-a longamente por uma última vez, os cabelos finos esvoaçando ligeiramente em sua fronte, as sardas pequenas por todo o rosto, os olhos escuros, bonitos. Num impulso, deu-lhe um longo beijo na bochecha e simplesmente saiu dali, caminhando rápido, querendo olhar para trás mas sabendo que não podia, se queria manter-se digno e realmente conseguir ir embora. Então era assim que acabava: em um momento, eles estavam tão próximos que ele sentia que poderia fazer qualquer coisa, dizer-lhe qualquer coisa, porque tinham tudo pela frente, e no instante seguinte ele estava indo embora rápido, tentando firmemente lembrar da voz áspera de seu pai dizendo que homens não choram, nem gostam de poesia, porém era inútil tentar; nem mil anos de severa educação poderiam fazer com que ele perdesse toda a poesia que existia em seu interior mais profundo.
No entanto, se ele houvesse, por um momento sequer, olhado para trás, poderia talvez ter sonhado com a verdade. Como dizer a ele que tudo aquilo era bom demais para ela, que ela vinha de um mundo onde tais coisas não existiam? Como explicar-lhe que ele era puro demais, perfeito demais para ser tocado por ela, que não sabia passar nem um dia sem machucar nem que fosse a si própria? Antes de se envolver com ele, ela não sabia a dimensão de sua beleza, tampouco sonhava que existisse alguém assim no mundo - e, de certa forma, tanta perfeição era insuportável, não importa o quanto ela pudesse ter sonhado com isso. Como agir quando a realidade se mostra ser ainda mais bonita do que nossos sonhos? Tentando não remoer tudo isso, ela ainda permaneceu no banco por um longo tempo, antes de se recompor e tentar voltar para casa. Tinha de ser assim: um melhor amigo que também pudesse ser seu namorado, uma pessoa com quem compartilhar o tempo e a arte, eram sonhos muito altos que não podiam fazer bem, porque a vida não era assim. Tentando se resignar ao que nunca existiria, ela foi embora, sem perceber que estava mudando, que toda a sua vida estava mudando. E, em breve, tudo que ela jamais sonhara seria possível e real. Com ele.
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