quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Tempo Perdido

- Você tem certeza? Ainda há tempo para voltar atrás e...
- Sim, eu tenho. Absoluta.
Ele deu um profundo suspiro de cansaço e se sentou novamente. Seus olhos não exprimiam raiva, apenas tristeza e desesperança. Ela sentiu uma angústia indescritível ao vê-lo assim: preferia que seus olhos se tornassem uma tempestade cinzenta e ele gritasse com ela, como antigamente, ou que simplesmente fingisse não se importar, mas ele estava absolutamente desarmado. Isso era muito mais devastador do que qualquer briga. Depois de um instante, ele retomou calmamente sua argumentação:
- É um novo país, você sabe disso. E se não der certo? O divócio é... Definitivo demais. Nós éramos o casal que jamais se divorciaria, se lembra? Nós fomos casados por malditos 14 anos! Eu estou velho, realmente velho, Rach. Como é que eu vou... sei lá, seguir em frente, ou que diabos se faz depois de um divórcio?
- Você só tem 49 anos, recém completados, ainda por cima, Bruce - disse ela, falando tranquilamente, mas com os olhos ardendo. - Você sabe que tudo pode se arrumar...
- Chega dessa conversa mole! - ele levantou-se cerrando os punhos, seus olhos se acinzentando. - Pare de fingir que tudo vai ficar bem, porra, nada vai ficar bem! Nós somos loucos um pelo outro, absurdamente loucos! Você é a garota que me estuprava no meio da noite, que me apoiou quando eu perdi tudo e ninguém mais acreditava em mim! Nós dois vivíamos grudados e você me reergueu, e era você que me enlouquecia, e ninguém ficaria entre nós, jamais! Mesmo que Matt e Stephanie e não sei mais quantas outras pessoas tenham tentando, nós sempre conseguíamos, nós éramos inflexíveis, éramos casados, porra! - ele fez uma pausa, estava completamente sem fôlego. Ela não conseguia olhá-lo, não conseguia sequer respirar direito. Ele tinha toda a razão e ela nunca esperou, em sua vida inteira, que um homem bruto e passional como ele pudesse se mostrar tão vulnerável, tão desesperado por ela. Quando ela finalmente virou-se para ele, ambos estavam chorando, de raiva, decepção, tristeza, todo o remorso de simplesmente não estarem mais juntos, de a marca da aliança já ter desaparecido, de no último ano terem estado vivendo em países diferentes, da saudade e do desejo que latejava em ambos, como se absolutamente nada houvesse mudado.
- Eu comprei uma aliança verde pra você - disse ele, a voz rouca e forte agora pouca acima de um sussurro, seu rosto próximo do dela. - Eu comprei uma aliança verde pra você, porque era a sua cor favorita e você não gostava de usar alianças, mas aquela você não tirava por nada nesse mundo, e você mandou gravar meu nome dentro dela, lembra? Você era a minha mulher, a única noiva no mundo que deixou que o noivo escolhesse o vestido porque preferia ficar lendo um livro em casa, que casou mesmo tendo só 15 anos e tendo que pedir autorização, a única que perdeu toda a sua juventude com um cara 20 anos mais velho, a única que eu nunca quis abandonar - ele segurou seu rosto entre as mãos, num último esforço. - Se isso fosse há alguns anos atrás, eu provavelmente estaria gritando e exigindo que você ficasse aqui, ou até te batendo, mas eu não estou, justamente porque você fez com que eu me tratasse, você me fez um homem melhor. Eu aguentei, heroicamente aguentei que você ficasse um ano fora, mas divórcio? Você indo embora definitivamente? Não, eu não posso, é demais...
- Eu não posso ficar - disse ela, arrasada. - Eu simplesmente não posso. Eu concordo com tudo o que você disse, eu sei que fomos o casal mais louco um pelo outro, sei que nossa intimidade era maravilhosamente inigualável, que o que tínhamos era incomparável. Mas minha vida tinha parado, eu estava sendo completamente autodestrutiva e a única coisa boa era você...
- Ah, ótimo. Conversa de seu psquiatra agora?
- Não, ele jamais diria algo desse tipo. Ele jamais insinuou que estar casada com você estagnava e destruía a minha vida. O problema é, realmente, comigo. Eu é que não consigo me mover, não consigo fazer nada ao seu lado, porque você me preenche de uma forma que...
- Você pode tentar! Nós dois temos projetos em andamento, temos vidas reconstruídas, temos tudo, menos um ao outro, o que é o mais importante!
- Ele é um cara maravilhoso. Nós construímos uma vida lá, e...
- Você não está apaixonada por ele, você não ama ele!
- É claro que amo! Que besteira... - disse ela, querendo rir, mas ele fez com que ela o olhasse nos olhos.
- Eu posso ver em seus olhos que você ainda me ama - disse ele, absolutamente sério e quase furioso. - Pare com tudo isso, não faz sentido, e ainda há tempo.
- Não, não há tempo - disse ela, se desvencilhando dele. - Porque sim, eu ainda te amo e isso nunca vai mudar, mas eu ainda tenho algum amor próprio, e amo ainda mais a minha carreira, então não, eu não vou ficar nessa cidade infernal, tampouco ficar num casamento intenso e... psicótico! Porque eu tenho certeza que nós nos amamos Bruce, certeza absoluta, mas não da maneira certa. Nós dois precisamos de mais do que sexo bom e cumplicidade, nós precisamos de um rumo. E não podemos ter um, juntos. Eu não posso.
Antes que ele pudesse rebater, ela saiu batendo a porta, para as ruas lotadas e barulhentas, para a incansável multidão daquele país deturpado. Ele jamais entenderia as necessidades dela, mas ainda assim assinou os papéis que ficaram sobre a mesa. Havia paixão, cega e raivosa, mas havia amor também, e por isso ele deixava que ela fosse e se tornasse brilhante - mas mesmo com a vida reconstruída, não havia sequer um dia em que ela não sentisse falta do "tempo perdido" ao lado dele. Porque era nos olhos dele que ela se perdia e se encontrava na mesma proporção. E não havia como não sentir falta disso.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mikrokosmos IX

     Depois de acordar sozinho e procurar por toda a casa, ele dirigiu-se à praia, supondo corretamente que ela estaria lá colocando os pensamentos em ordem ou apenas entregue aos seus devaneios. O amanhecer trazia um estranho e belíssimo colorido ao céu e ao mar, e ela parecia absorver toda essa rara beleza em seus brilhantes olhos castanhos. Abraçando seus joelhos, ela estava tão profundamente perdida em si mesma que levou um susto ao vê-lo por perto, mas logo correspondeu ao belo sorriso iluminando o rosto dele. Ele lhe beijou rápida e carinhosamente os lábios, sentando-se ao seu lado e passando um braço sobre os ombros nus e gelados. Mesmo sem ele dizer em voz alta, ela respondeu à sua pergunta:
    - Estranhamente, estava pensando sobre o céu, o paraíso - ela suspirou, e com um sorriso, recostou sua cabeça no ombro dele, que prontamente começou a acariciar-lhe os cabelos. O silêncio só era quebrado pelo vento e pelas ondas, e não havia o mínimo sinal de outros seres humanos em quilômetros. Eles amavam essa paz e essa imensidão: sentiam-se praticamente imortais ali. - Talvez seja algo como exatamente isso: você sorrindo, uma praia segura e completamente isolada. Ou talvez o fundo do oceano, sem tubarões, é claro - os dois riram. - Ou talvez...Alguma floresta de Kitee, na primeira manhã de neve do ano...Você me carregando nos ombros e eu balaçando os galhos das árvores para derrubar neve sobre você, que ao invés de ficar bravo ri ainda mais do que eu...Assim como fizemos esse ano, lembra?
    Ela sobressaltou-se ao ouví-lo fungar e sorriu ao ver que lágrimas escorriam dos intensos olhos cinzentos que, envergonhados, olhavam para o mar calmo. Abraçou-o fortemente contra si, o que fez com que ele não conseguisse mais disfarçar sua comoção. Tranquilamente, ela o manteve em seus braços, acariciando seus cabelos e beijando-o esporadicamente, exatamente como ele fazia com ela para acalmá-la. Depois de vários minutos, um pouco recomposto, ele falou, ainda com a voz embargada:
    - É só que...Imagino o mesmo que você, com exatidão. Nós dois aqui...Ou talvez em Kitee, sob a primeira neve do ano...Talvez nós dois ainda crianças, brincando livremente por toda essa praia, crianças diferentes das que nós fomos: crianças felizes e livres. Posso imaginá-la perfeitamente com aquele vestidinho vermelho da foto que você me deu, rindo, seu cabelo bagunçado pelo vento, aquele brilho inteligente e triste em seus olhos...
    Ele suspirou, parecendo não poder continuar. Olhou-a sorrindo, como se quisesse memorizar cada detalhe de seu rosto. Ela respirou fundo, olhando-o séria e intensamente, como se quisesse atestar a veracidade de tudo aquilo. Depois de um momento, pareceu satisfeita e beijou-o nos lábios, puxando-o para si com uma saudade inexplicável.
    - Talvez esse seja mesmo o paraíso - sussurrou ele, onde eles eram eternos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Taste

Dizer que aquele era um jantar de gala era praticamente um eufemismo. Ele havia colocado seu melhor terno e preparado o melhor cardápio, separando uma trilha sonora especialmente maravilhosa de Chopin, arrumara a sala de jantar com talheres de prata e belos pratos de porcelana, e até mesmo cuidou da iluminação do ambiente. Pensava que jamais teria uma convidada tão encantadora e agradável a todos os sentidos outra vez, mas logo ela estaria ali, a sucessora, a completamente nova e bela.
Exatamente como ele desejava e, mesmo sem ele ter pedido, ela apareceu num longo vestido negro com um decote que praticamente deixava os belos e pequenos seios alvos à mostra. Seus longos cabelos lisos estavam soltos, e o único adorno em suas graciosas orelhas eram pequenos brincos de diamante. Em seu anelar esquerdo, o delicado anel também de diamantes. O bom de um jantar como esse é que ele podia observar suas longas e graciosas mãos de pianista, podia apreciar o brilho daqueles olhos castanhos ser intensificado pela luminosidade planejada, podia ver seus lábios simétricos e avermelhados movendo-se prazerosamente. Em um dado momento, ela afastou os cabelos para trás, mostrando seu pescoço ingenuamente. Tremendo de excitação, ele levantou-se de seu lugar à cabeceira da mesa e, sem dizer palavra, aproximou-se do pescoço dela e aspirou profundamente seu cheiro: era algo de rosas, loção e algo mais que ele não pôde identificar, mas que misturado aos cheiros anteriores criava algo único, poderoso.
- Eu posso sentir sua pulsação extremamente acelerada - sussurrou ele, com aquele sotaque britânico que poderia até mesmo ressucitá-la. - Posso sentir o cheiro do medo e da excitação saindo livremente de você, e posso sentir sua face se movendo num sorriso irônico e cheio de prazer. Você adora isso porque tem reais motivos para me temer, porque comigo seus medos são tão reais que passam a não existir. Minha inteligência, minha classe e...
- Seu sotaque.
-... e principalmente meu sotaque, te excitam. Há um bom gosto inexplicável nisso tudo - ele subiu e lhe beijou o maxilar, e ela fechou os olhos, entregue, estremecendo com os braços dele ao seu redor. Inúmeras análises psicológicas e culturais poderiam mantê-los palestrando por uma noite inteira e até por mais tempo, mas naquele exato instante desejavam um prazer muito distinto (ou talvez nem tanto) das palavras agradáveis e belas que ambos haviam aprendido através dos mais diversos e interessantes livros.
Talvez, em sociedade, eles pudessem ser um casal (apesar da gritante diferença de idade) perfeitamente admirável por todos, educados, polidos, um casal de classe incomparável e de perfeitos atributos, tanto intelectuais quanto de conversação - mas naquele momento eram animais, abandonados aos seus instintos mais primitivos e saborosos, seus cérebros eram uma confusão de prazer e angústia, era uma libertação para ela, um renascimento para ele. Pela manhã, ele sentiu um imenso prazer ao ver a tranquila e despreocupada surpresa que foi para ela perceber que ainda estava viva, sem traumas. Seu riso ao acordar e vê-lo observando-a, seu riso alegre e prazeroso ao ouví-lo chamá-la de meu amor foi único em sua vida. O mais sincero.

Mikrokosmos VIII

    A garrafa de uísque estava vazia, e os cinzeiros derrubados pelo quarto. As luzes estavam todas apagadas, não havia som ou ruído. Ele sobressaltou-se, era estranho que nem sequer alguma música estivesse tocando, já que ele supunha que aquela bagunça havia sido feita por ela. Havia algo de muito estranho ali.
    Antes de ligar para ela, ele entrou no banheiro e, antes mesmo que pudesse pensar, viu-a na banheira, parecendo desacordada, seu copo de uísque quebrado ali perto, mas sem nenhum vestígio do líquido pelo chão. Assustado, ele correu a segurá-la, puxando-a para si, o que fez com que ela o olhasse assustada também. Ela estava pálida e gelada, sua respiração era superficial e seu rosto manchado de lágrimas. Ao se recuperar do susto, ela olhou-o por um longo momento e teve uma crise tão profunda de choro que ele se desesperou - tanto que estaria chorando com ela se não estivesse tão preocupado com o estado dela. Deixou que ela chorasse abraçada nele, ainda na banheira, até que se acalmasse um pouco, até que pudesse dizer qualquer coisa se quisesse. Quando qualquer um dos dois estava mal, havia um acordo tácito de permanecer em silêncio e não fazer perguntas, apenas oferecer todo o conforto necessário. Geralmente os motivos eram revelados, mas nem sempre - e nessas ocasiões ambos respeitavam perfeitamente isso, sem sequer ficarem pensando sobre isso depois. Passados alguns minutos que pareceram muito mais longos do que o normal para ambos, ela começou a murmurar:
    - Eu não consegui...Eu não pu..pude...Eu falhei...
    - Shhh...Calma - sussurrou ele de volta, beijando-lhe a fronte e acariciando-lhe os cabelos. - Isso foi só o começo, você não poderia conseguir tudo de uma vez só. Você já deu um grande passo, já construiu muito mais do que se considerava capaz.
    - Mas...
    - Você fez até onde pôde, por enquanto. Agora nós temos um recomeço, e sempre teremos. Tente dar um passo de cada vez, como você deveria ter feito desde o começo.
Ela abriu os olhos para olhá-lo. Mesmo que estivessem na penumbra, ela adivinhava seus olhos graves, cinzentos, brilhantes. Ele estava ali, como sempre - mas até quando? Em algum momento ele cansaria de salvá-la, certamente, mas ela simplesmente ainda não era forte o suficiente para conseguir se salvar sozinha, aliás, mesmo tendo alguém como ele ao seu lado ela mal conseguia manter algum nível decente de vida. Olhou para aquelas feições que tanto amor lhe despertavam, que tanto lhe alegraram em seus tempos de força e alegria, e soube que jamais deixaria de amá-lo, mesmo que os papéis se invertessem (como acontecia às vezes), ou mesmo que sua vida mudasse subitamente, ainda seria ele. Dando um longo suspiro, ela disse-lhe, quase sorrindo:
    - Sabe, existe uma mulher, muito linda. Ela teve problemas muito mais sérios com os pais, teve traumas muito mais sérios e profundos...E ela sobrevive - ele percebia o nó na garganta dela, a angústia mal disfarçada, e doía-lhe sua impotência diante disso tudo. - Todo santo dia, ela sobrevive. Não sei como nem por quanto tempo, mas todos os dias ela levanta e consegue, simplesmente luta e consegue. Eu não deveria ser assim, tão fraca. Eu quero ser como ela, e nossa, se você visse, ela tem lindos olhos verdes e um sorriso tímido...
    Mesmo em meio à toda aquela desintegração, ela conseguiu sorrir ao lembrar-se daquela mulher que era seu modelo, seu exemplo, e permitiu que ele pegasse-a no colo e lhe desse aconchego por muito tempo. Ele vestiu-a ignorando deliberadamente as marcas dos vícios em seu corpo (o que confirmava ainda mais seu amor), penteou seus cabelos, fez-lhe seu chá favorito, colocou-lhe um roupão macio e fofo, deu-lhe cigarros e lhe acomodou no quarto, ligando seu filme favorito e assistindo em silêncio com ela, apenas dando-lhe colo e afagos. Ela deixava que ele cuidasse dela como uma criança doente se deixa conduzir pela mãe, sem forças nem vontade de qualquer resistência. Antes mesmo da metade do filme ela adormecia, o rosto enterrado em seu pescoço, assim como ele também gostava de ficar nela, e sua respiração normalizou, mesmo que ele própio não conseguisse dormir até o outro dia. Eram por noites como aquelas que ela havia se casado com ele. Eram por noites como aquela que ambos sobreviviam - e amavam.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mikrokosmos VII

     Sem que entendesse muito bem o que estava acontecendo, ele foi subitamente quase atropelado por ela, que pulou em seu colo, rindo e beijando-o alegre como ele não lembrava de tê-la visto jamais. Retribuindo-lhe os beijos e olhando-a já envolvido por sua alegria, longe de estar reclamando, ele perguntou:
    - Mas que diabos aconteceram...?
    Ela riu mais ainda, fazendo-o sorrir. Segurou o rosto dele e olhou-o, comovida, e ainda no colo dele, aproximou seu rosto do dele, sussurrando:
    - Você se lembra melhor do que ninguém o quanto eu estive assustada, triste, acuada. Mas subitamente...Subitamente eu compreendo que não há nada a temer. O medo não impede que algo de ruim aconteça, e confio em você. Quero confiar, acreditar que nada disso vai simplesmente se perder na neve. Você está aqui, sempre esteve. E você foi meu abrigo há um ano atrás, e tem sido desde então...
    - E serei por quanto tempo você quiser.
    Ambos mais seguros do que jamais haviam se sentido em suas vidas, beijaram-se voluptuosa e amorosamente, entregando-se sem culpa e com a maior intensidade à luxúria e aos sentimentos intensos que ambos sentiam. Enquanto ela dormia, ele chorou silenciosamente, beijou-lhe os olhos, os cabelos, os lábios, e enterrou seu rosto em seu pescoço, aspirando sua presença. A súbita coragem dela dava-lhe forças. E mais amor.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Grace

Acordar naquele hospital, por mais estranho que pudesse parecer, era muito melhor do que acordar em "casa", onde ela nunca se sentira, de fato, em casa. Estava sozinha no quarto e, apesar de estar dolorida, sentia-se em paz. Reconhecia aquelas paredes e as vozes baixas falando rapidamente em inglês ali perto, com aquele sotaque inconfundível e adorável. Quando a porta abriu-se, as lágrimas foram quase inevitáveis: era ela a sua médica, aquele anjo que sempre lhe dera força. Sorriu como não fazia há anos ao ver aqueles olhos verde-azulados, aqueles lábios desenhados, os cabelos castanhos quase loiros, o sorriso terno e levemente tímido. Ainda podia ver tristeza nos olhos dela, mas parecia que a dor já não permanecia num nível oito, talvez até mesmo houvesse baixado para sete, seis e meio sendo otimista. Ela podia ser a paciente ali, mas ela preocupava-se era com a médica, e não consigo própia.
Por sua vez, a médica podia perceber uma certa familiaridade com a jovem ali, mas não sabia de onde isso nascia. Só sabia que havia bastado um olhar para que gostasse dela, quisesse cuidar dela com especial dedicação. Explicou-lhe sua situação de saúde sentindo-se tranquila, ou melhor, estranhamente, não se sentindo sozinha. Era isso. Algo naquele olhar brilhante e carinhoso da menina não lhe permitia nenhuma angústia. Ambas sabiam que logo a menina estaria livre para ir embora do hospital, mas não queriam se afastar. Arrumavam assuntos desnecessários, como perguntas e informações que ambas já sabiam, apenas para se manterem conversando. Mas não se deixaram, quando a menina deixou o hospital. Porque se fosse de outra maneira, não existiria chuva ou azul que as acalmasse - e elas eram danificadas demais para seguir em frente sem isso, sem a paz de estarem juntas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sutil

    A festa estava lotada de gente e barulhenta, exatamente como ela imaginara que seria. Não foi difícil entrar e conseguir um pouco de uísque, e as pessoas, quando a viam ali, não se esforçavam por disfarçar o espanto e começavam a cochichar entre si, mas ela jamais se importara com isso. Era o aniversário dele, e ela viajara inúmeros quilômetros apenas para vê-lo sorrindo, abraçá-lo outra vez. Geralmente não se permitia pensar nele, justamente porque morria de saudade e continuava amando-o com aquela paixão ardente misturada a uma cumplicidade ilimitada que lhe permitira passar quase 15 anos casada com ele. O divórcio havia sido assinado há pouco mais de um mês, mas eles jamais haviam se sentido separados, mesmo morando em países diferentes e mesmo que ela vivesse com outro homem, seu novo marido - mas que jamais, por mais que todos os papéis do mundo afirmassem, alcançaria esse título.
    Haviam strippers ali, drogas, álcool e sexo à vontade, era um mundo completamente diferente do que ela se habituara há cerca de um ano, quando abandonara aquele país. Vivia tranquila e sem muitos vícios em Kitee e, apesar de não perceber, até mesmo essa óbvia falta de regras lhe fazia falta. As tardes inteiras na cama e/ou na banheira, os porres monumentais, o riso fácil, eram coisas completamente desconhecidas em Kitee, e ela gostava dessa sobriedade. Mas não sempre. E não sem o seu marido (apesar de não haver sobriedade possível perto daquele homem corpulento e passional).
    Ele não viu que ela estava se aproximando. Conversava com um amigo, enquanto uma de suas "bonecas" (que era como ele chamava as mulheres que ele usava apenas para o prazer) estava abraçada nele, olhando-o tolamente com um sorriso. Demorou um pouco para que o seu amigo visse sua mulher ali, mas ela não se importou. Olhava o marido com aquela voracidade com que olhamos os que amamos depois de muito tempo longe. Ele emagrecera um pouco, parecia um pouco abatido, mas continuava tão belo o quanto há anos atrás, quando ela era apenas uma adolescente e eles começaram a namorar. Era um homem belíssimo para seus 49 anos completados naquela data, exatamente um mês depois do aniversário de casamento deles. Os longos cabelos ruivos continuavam tão brilhantes quanto os olhos azuis, e o cavanhaque dava-lhe um ar ainda mais másculo. Ela sorriu abertamente como não fazia há tempos, sorriu feito menina alegre, porque aquele homem grande e forte podia ser impetuoso, mas sabia ser o mais amoroso dos homens em alguns momentos - e essa mistura de explosividade e ternura era incrível. Aproximou-se e, quando estava a poucos passos, ele a olhou estupefato.
    - Boa noite, monsieur. Feliz aniversário, meu amor.
    Sem sequer ter tempo para sorrir, ele repeliu sua "boneca" num movimento rápido e tomou sua mulher nos braços, apertando-a fortemente contra si, fazendo-a rir de felicidade. Ele não acreditava que ela estava ali, justamente no único ano desde que ela nascera onde ele pensara que não a teria ao seu lado no seu dia favorito do ano. Ele lhe beijava os cabelos e logo beijou-a nos lábios com uma voluptuosidade desconhecida, surpreendentemente mais forte, mesmo depois de tanto tempo juntos. Nesse momento, ela sequer se lembrava de Kitee, de seu novo marido, de todo o mundo bonito e delicado que construíra para si própria tão longe. Aquele corpo robusto e forte tocando no seu afastava-lhe toda a sanidade, e ela não fazia questão nenhuma de estar no controle, como o de costume. Era simplesmente maravilhoso perder-se por ele, nele. Logo estavam no quarto outra vez, onde outrora passavam dias e noites completamente desligados do mundo, felizes.
    Depois de se perderem inúmeras vezes percorrendo os prazerosos caminhos tão perfeitamente conhecidos há muito tempo, repousaram em silêncio, e já havia amanhecido há tempos. Pararam para se olharem nos olhos então, exauridos, tranquilos, suados e alegres, com um riso escapando facilmente dos lábios perfeitamente desenhados que ambos tinham. Ao olhar naqueles olhos castanhos tão amados, dos quais sentira tanta falta, ele não precisou que ela dissesse nada para entender que ainda eram casados, para saber que ela não possuía em Kitee essa vida maravilhosamente inquieta que tinha ali. Ela já parecia desconhecer prazeres tão simples e profundos, de tanto tempo que passara longe deles. Não importava. Por enquanto ela permaneceria ao seu lado, e cedo ou tarde ela estaria de volta, para sempre, ele sabia. Ele sabia muito bem.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Hajuvesi

A música ia invadindo-lhe aos poucos, em cada mínimo átomo, percorrendo lentamente suas costas, seu pescoço, seus longos cabelos, seus lábios, seus olhos fechados e entregues ao prazer. Às vezes lembrava-se do cigarro em sua mão e dava uma tragada longa, profunda, prazerosa. Seu quadril ligeiramente largo movia-se lenta e sensualmente, prazeroso e preguiçoso, enquanto o cheiro de incenso invadia o apartamento e a semi-escuridão da madrugada tornava-se em um milhão de cores em sua mente. Por horas ela já não era grandiosa, preocupada, depressiva, perfeita - ela estava entre seus girassóis, entregue aos prazeres e a paz voluptuosa que ela raramente se permitia saborear, e talvez justamente por isso fosse ainda mais intensa e saborosa. Vê-la daquela forma, tão livre e leve, toda sensível e alegre, viva, era privilégio apenas dele, porque encontrara-a em silêncio na escuridão, e apenas ele era capaz de desvendar suas múltiplas cores em seu olhar escuro e brilhante. Depois disso tudo, ela sempre dormia por horas intermináveis, tranquila e continuamente, como jamais conseguiria de outra forma, e até mesmo suas olheiras pareciam mais claras. Mas a noite sempre acaba, e no outro dia ela estava vestida em negro, séria e impenetrável, escapista e angustiada outra vez. Mas um pouco mais feliz.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Lacrymosa

Não sei se é irônico ou triste que eu esteja aqui, tendo um dia terrível por sua causa enquanto você se perde nas sombras da luxúria sem culpa alguma. Por algumas horas, senti-me curada - mas minha cura era sensível demais e, como sempre, você conseguiu destruir tudo com um simples olhar de desprezo e reprovação. O meu amor, contra todas as probabilidades nunca foi o suficiente para você. Não. Eu sempre fui repreendida por algum erro inexplicável, sempre fui vista com olhos irritados. E nunca soube ao certo de onde isso tudo veio.
Nunca, sob hipótese alguma, eu pensei que as coisas pudessem mudar, mas por um tempo mudaram. Talvez você tenha percebido que eu estava definitivamente sucumbindo e se esforçou ao máximo para me manter na superfície, e por alguns instantes, os poucos em que eu ousava me permitir questionar a duração desse período de bonança, acreditava tolamente que talvez as coisas estivessem definitivamente mudadas, mas é óbvio que eu estava me enganando. Você continua me destruindo, de novo e de novo, mesmo que eu tente ignorar e amenizar tudo.
Às vezes me pergunto como minha vida teria sido se eu jamais tivesse te conhecido, se não houvesse sido fadada a ter você em minha vida inteira. Longe de você eu sou uma pessoa completamente diferente, porque conheço a liberdade, a tranquilidade de não estar errada o tempo todo, em cada mínimo gesto. Quando fujo, você me persegue até que eu volte, e não sei que drásticas medidas você tomaria se um dia eu permanecesse distante, não ouso tal risco, apesar de desejar isso profundamente. O problema é que te amo, mesmo depois de todos os anos de abuso subjetivo, carência, rejeição e dor. Os raríssimos bons momentos são guardados como se fossem a minha própria vida, com a qual eu já não me importo tanto, há muito tempo, outra coisa pela qual você certamente me recriminaria.
Não gosto de lhe culpar por tudo, e reconheço que talvez tudo isso tenha feito de mim uma pessoa melhor, até mesmo me tirado da banalidade. Mesmo assim, trocaria toda a minha "especialidade", tudo o que os outros admiram, pelo seu amor. Tento me libertar dessa devoção obsessiva, mas é profundamente difícil, mesmo que isso tenha me destruído. Quero lutar contra o seu desprezo e o meu amor a partir de agora, mas não sei se isso será possível algum dia. Você sempre quis que eu fosse outra pessoa, alguém que você nunca conseguiu ser, mas eu jamais serei aquilo que você deseja. Ao mesmo tempo, sei que você jamais aprenderá a me amar e admirar da forma que sou, com minhas cicatrizes e sorrisos. “Save my life, change my mind”, mas você não ouviria nem que eu gritasse as frases mais desesperadamente viscerais. Suas palavras me assombrarão eternamente, e não há nada que eu possa fazer - enquanto isso, permaneço te amando, em meu sangue.

Carta I, Destinatário I

Mesmo depois de tanto tempo, fico feliz em ver que ainda somos as mesmas - talvez mudadas em alguns aspectos, mas essencialmente as mesmas. Enquanto as pessoas fingem e desconhecem a inocência, nós permanecemos intactas, não fomos corrompidas pelo mundo que nos cerca. Nos seus belos e tristes olhos verdes ainda posso ver aquela inocência e aquela profunda tristeza que eu desconheço mas sinto também. Apesar de não convivermos mais, ainda nos podemos sentir realmente acompanhadas quando estamos juntas. Como seria se tivéssemos isso tudo diariamente outra vez? Acho que preciso de ti, no fundo. Tu não sabes, mas estive com febre a tarde inteira hoje. Eu estava assim, mas tu apareceste e tudo passou. Fácil assim. Como antigamente.
Nunca soube ao certo explicar o que temos ou o que sinto, mas sei que, mesmo sem envolver homossexualidade, isso é mais do que amizade, algo que não tem nome. O que sinto por ti não se define, não se limita a qualquer sentimento vago e comum. Surpreendo-me ao ver que mesmo depois de cinco anos tu ainda és uma luz estranhamente bela em meus dias sombrios. Por que caminhos tu se perdes quando desapareces? Já ouvi algo a respeito, mas recuso-me a considerar qualquer coisa que não venha de ti mesma. Quero ouvir na tua voz insegura e doce que não há motivos para me preocupar contigo, mas sei que isso é ilusão. Há oceanos inteiros dentro de ti que sempre permanecerão trancados e que ninguém pode desvendar, muito menos eu - e não quero. Respeito a imensidão que há dentro de ti e é impenetrável. Admiro-te por isso, por sermos iguais nisso também.
Às vezes tenho a feliz ilusão que me amas, e sei que é bastante provável que isso não seja ilusão. Compartilhamos a dor desde o começo, e gosto, de certa forma, de saber que te tive desde o início. Lembra daquelas tardes cinzentas onde conversávamos sobre Deus e seus anjos, e nos perdíamos nas nossas doces tristezas? Havia uma igreja ali em frente, e às vezes passávamos por ela, nunca sem olhá-la nem que fosse rapidamente. Ninguém mais nos compreendia, não quando entrávamos no nosso exclusivo e vasto mundo de anjos e demônios, nossas crenças, nossas sombras. Será que tu ainda rezas pela noite? Acho que um anjo confuso reside em teu corpo, és tua própia alma meu amor. Algo obscuro nos permite continuar sempre, apesar de todo o estranho universo onde sempre estivemos. Estou aqui, fui e sou seu abrigo. Sempre serei, mesmo que você se perca de novo e de novo. Liberte-se e simplesmente se renda ao que arde em seus olhos. Estou aqui.