A música ia invadindo-lhe aos poucos, em cada mínimo átomo, percorrendo lentamente suas costas, seu pescoço, seus longos cabelos, seus lábios, seus olhos fechados e entregues ao prazer. Às vezes lembrava-se do cigarro em sua mão e dava uma tragada longa, profunda, prazerosa. Seu quadril ligeiramente largo movia-se lenta e sensualmente, prazeroso e preguiçoso, enquanto o cheiro de incenso invadia o apartamento e a semi-escuridão da madrugada tornava-se em um milhão de cores em sua mente. Por horas ela já não era grandiosa, preocupada, depressiva, perfeita - ela estava entre seus girassóis, entregue aos prazeres e a paz voluptuosa que ela raramente se permitia saborear, e talvez justamente por isso fosse ainda mais intensa e saborosa. Vê-la daquela forma, tão livre e leve, toda sensível e alegre, viva, era privilégio apenas dele, porque encontrara-a em silêncio na escuridão, e apenas ele era capaz de desvendar suas múltiplas cores em seu olhar escuro e brilhante. Depois disso tudo, ela sempre dormia por horas intermináveis, tranquila e continuamente, como jamais conseguiria de outra forma, e até mesmo suas olheiras pareciam mais claras. Mas a noite sempre acaba, e no outro dia ela estava vestida em negro, séria e impenetrável, escapista e angustiada outra vez. Mas um pouco mais feliz.
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