quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Tempo Perdido

- Você tem certeza? Ainda há tempo para voltar atrás e...
- Sim, eu tenho. Absoluta.
Ele deu um profundo suspiro de cansaço e se sentou novamente. Seus olhos não exprimiam raiva, apenas tristeza e desesperança. Ela sentiu uma angústia indescritível ao vê-lo assim: preferia que seus olhos se tornassem uma tempestade cinzenta e ele gritasse com ela, como antigamente, ou que simplesmente fingisse não se importar, mas ele estava absolutamente desarmado. Isso era muito mais devastador do que qualquer briga. Depois de um instante, ele retomou calmamente sua argumentação:
- É um novo país, você sabe disso. E se não der certo? O divócio é... Definitivo demais. Nós éramos o casal que jamais se divorciaria, se lembra? Nós fomos casados por malditos 14 anos! Eu estou velho, realmente velho, Rach. Como é que eu vou... sei lá, seguir em frente, ou que diabos se faz depois de um divórcio?
- Você só tem 49 anos, recém completados, ainda por cima, Bruce - disse ela, falando tranquilamente, mas com os olhos ardendo. - Você sabe que tudo pode se arrumar...
- Chega dessa conversa mole! - ele levantou-se cerrando os punhos, seus olhos se acinzentando. - Pare de fingir que tudo vai ficar bem, porra, nada vai ficar bem! Nós somos loucos um pelo outro, absurdamente loucos! Você é a garota que me estuprava no meio da noite, que me apoiou quando eu perdi tudo e ninguém mais acreditava em mim! Nós dois vivíamos grudados e você me reergueu, e era você que me enlouquecia, e ninguém ficaria entre nós, jamais! Mesmo que Matt e Stephanie e não sei mais quantas outras pessoas tenham tentando, nós sempre conseguíamos, nós éramos inflexíveis, éramos casados, porra! - ele fez uma pausa, estava completamente sem fôlego. Ela não conseguia olhá-lo, não conseguia sequer respirar direito. Ele tinha toda a razão e ela nunca esperou, em sua vida inteira, que um homem bruto e passional como ele pudesse se mostrar tão vulnerável, tão desesperado por ela. Quando ela finalmente virou-se para ele, ambos estavam chorando, de raiva, decepção, tristeza, todo o remorso de simplesmente não estarem mais juntos, de a marca da aliança já ter desaparecido, de no último ano terem estado vivendo em países diferentes, da saudade e do desejo que latejava em ambos, como se absolutamente nada houvesse mudado.
- Eu comprei uma aliança verde pra você - disse ele, a voz rouca e forte agora pouca acima de um sussurro, seu rosto próximo do dela. - Eu comprei uma aliança verde pra você, porque era a sua cor favorita e você não gostava de usar alianças, mas aquela você não tirava por nada nesse mundo, e você mandou gravar meu nome dentro dela, lembra? Você era a minha mulher, a única noiva no mundo que deixou que o noivo escolhesse o vestido porque preferia ficar lendo um livro em casa, que casou mesmo tendo só 15 anos e tendo que pedir autorização, a única que perdeu toda a sua juventude com um cara 20 anos mais velho, a única que eu nunca quis abandonar - ele segurou seu rosto entre as mãos, num último esforço. - Se isso fosse há alguns anos atrás, eu provavelmente estaria gritando e exigindo que você ficasse aqui, ou até te batendo, mas eu não estou, justamente porque você fez com que eu me tratasse, você me fez um homem melhor. Eu aguentei, heroicamente aguentei que você ficasse um ano fora, mas divórcio? Você indo embora definitivamente? Não, eu não posso, é demais...
- Eu não posso ficar - disse ela, arrasada. - Eu simplesmente não posso. Eu concordo com tudo o que você disse, eu sei que fomos o casal mais louco um pelo outro, sei que nossa intimidade era maravilhosamente inigualável, que o que tínhamos era incomparável. Mas minha vida tinha parado, eu estava sendo completamente autodestrutiva e a única coisa boa era você...
- Ah, ótimo. Conversa de seu psquiatra agora?
- Não, ele jamais diria algo desse tipo. Ele jamais insinuou que estar casada com você estagnava e destruía a minha vida. O problema é, realmente, comigo. Eu é que não consigo me mover, não consigo fazer nada ao seu lado, porque você me preenche de uma forma que...
- Você pode tentar! Nós dois temos projetos em andamento, temos vidas reconstruídas, temos tudo, menos um ao outro, o que é o mais importante!
- Ele é um cara maravilhoso. Nós construímos uma vida lá, e...
- Você não está apaixonada por ele, você não ama ele!
- É claro que amo! Que besteira... - disse ela, querendo rir, mas ele fez com que ela o olhasse nos olhos.
- Eu posso ver em seus olhos que você ainda me ama - disse ele, absolutamente sério e quase furioso. - Pare com tudo isso, não faz sentido, e ainda há tempo.
- Não, não há tempo - disse ela, se desvencilhando dele. - Porque sim, eu ainda te amo e isso nunca vai mudar, mas eu ainda tenho algum amor próprio, e amo ainda mais a minha carreira, então não, eu não vou ficar nessa cidade infernal, tampouco ficar num casamento intenso e... psicótico! Porque eu tenho certeza que nós nos amamos Bruce, certeza absoluta, mas não da maneira certa. Nós dois precisamos de mais do que sexo bom e cumplicidade, nós precisamos de um rumo. E não podemos ter um, juntos. Eu não posso.
Antes que ele pudesse rebater, ela saiu batendo a porta, para as ruas lotadas e barulhentas, para a incansável multidão daquele país deturpado. Ele jamais entenderia as necessidades dela, mas ainda assim assinou os papéis que ficaram sobre a mesa. Havia paixão, cega e raivosa, mas havia amor também, e por isso ele deixava que ela fosse e se tornasse brilhante - mas mesmo com a vida reconstruída, não havia sequer um dia em que ela não sentisse falta do "tempo perdido" ao lado dele. Porque era nos olhos dele que ela se perdia e se encontrava na mesma proporção. E não havia como não sentir falta disso.

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