sábado, 19 de fevereiro de 2011

Taste

Dizer que aquele era um jantar de gala era praticamente um eufemismo. Ele havia colocado seu melhor terno e preparado o melhor cardápio, separando uma trilha sonora especialmente maravilhosa de Chopin, arrumara a sala de jantar com talheres de prata e belos pratos de porcelana, e até mesmo cuidou da iluminação do ambiente. Pensava que jamais teria uma convidada tão encantadora e agradável a todos os sentidos outra vez, mas logo ela estaria ali, a sucessora, a completamente nova e bela.
Exatamente como ele desejava e, mesmo sem ele ter pedido, ela apareceu num longo vestido negro com um decote que praticamente deixava os belos e pequenos seios alvos à mostra. Seus longos cabelos lisos estavam soltos, e o único adorno em suas graciosas orelhas eram pequenos brincos de diamante. Em seu anelar esquerdo, o delicado anel também de diamantes. O bom de um jantar como esse é que ele podia observar suas longas e graciosas mãos de pianista, podia apreciar o brilho daqueles olhos castanhos ser intensificado pela luminosidade planejada, podia ver seus lábios simétricos e avermelhados movendo-se prazerosamente. Em um dado momento, ela afastou os cabelos para trás, mostrando seu pescoço ingenuamente. Tremendo de excitação, ele levantou-se de seu lugar à cabeceira da mesa e, sem dizer palavra, aproximou-se do pescoço dela e aspirou profundamente seu cheiro: era algo de rosas, loção e algo mais que ele não pôde identificar, mas que misturado aos cheiros anteriores criava algo único, poderoso.
- Eu posso sentir sua pulsação extremamente acelerada - sussurrou ele, com aquele sotaque britânico que poderia até mesmo ressucitá-la. - Posso sentir o cheiro do medo e da excitação saindo livremente de você, e posso sentir sua face se movendo num sorriso irônico e cheio de prazer. Você adora isso porque tem reais motivos para me temer, porque comigo seus medos são tão reais que passam a não existir. Minha inteligência, minha classe e...
- Seu sotaque.
-... e principalmente meu sotaque, te excitam. Há um bom gosto inexplicável nisso tudo - ele subiu e lhe beijou o maxilar, e ela fechou os olhos, entregue, estremecendo com os braços dele ao seu redor. Inúmeras análises psicológicas e culturais poderiam mantê-los palestrando por uma noite inteira e até por mais tempo, mas naquele exato instante desejavam um prazer muito distinto (ou talvez nem tanto) das palavras agradáveis e belas que ambos haviam aprendido através dos mais diversos e interessantes livros.
Talvez, em sociedade, eles pudessem ser um casal (apesar da gritante diferença de idade) perfeitamente admirável por todos, educados, polidos, um casal de classe incomparável e de perfeitos atributos, tanto intelectuais quanto de conversação - mas naquele momento eram animais, abandonados aos seus instintos mais primitivos e saborosos, seus cérebros eram uma confusão de prazer e angústia, era uma libertação para ela, um renascimento para ele. Pela manhã, ele sentiu um imenso prazer ao ver a tranquila e despreocupada surpresa que foi para ela perceber que ainda estava viva, sem traumas. Seu riso ao acordar e vê-lo observando-a, seu riso alegre e prazeroso ao ouví-lo chamá-la de meu amor foi único em sua vida. O mais sincero.

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