segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mikrokosmos XXVI

- Quem de nós é Lappin, afinal? - perguntou ele, suspirando pesadamente e a olhando. Ela largou o livro que estava lendo, tirou os óculos e o encarou profundamente por um longo momento, ponderando sua resposta. Depois de um momento, ela respirou e disse:
- Temo que eu seja - os olhos dela tinha uma intensidade estranha, que ele desconhecia. Eles brilhavam, certamente que sim, mas de uma forma nova (para ele) e que ele não entendia. - Você achava que isso fosse acontecer conosco?
-Sinceramente? - ela assentiu e ele levantou as sobrancelhas, pensativo. - Sim, eu receei que isso acontecesse... Mas sempre tive a esperança que pudéssemos permanecer mortos para o mundo.
- Na verdade, eu pensei que eu já não fosse capaz de abandonar esse lugar - disse ela, olhando afetuosamente a paisagem nevada que se desenhava através da janela. Parecia achar divertido que algo extraordinário, como a súbita liberdade acontecesse, nada além de divertido. Por um momento, a excentricidade dela parecia estar em seu auge, justamente por se mostrar num gesto tão simples.
- Sabe, eu andei mexendo em suas estantes e vendo algumas fotos... - ela o olhou repentinamente interessada, segurando-se para não perguntar quais delas. - E você quer saber o que eu descobri? Eu me descobri num dos álbuns. Numa das pessoas com as quais você vivia quando ainda morava em seu país.
- Mesmo? - o sorriso dela era de pura animação. - Qual deles?
- O Prisioneiro - disse ele, e pôde perceber a expressão dela transformar-se profundamente triste no mesmo instante. Os olhos dela faiscaram, e ela voltou a olhar pela janela.
- Eu também percebi uma certa, leve semelhança, há pouco tempo atrás - admitiu ela, ainda sem olhar para ele. - Mas acredite em mim, vocês são profundamente diferentes. As únicas semelhanças são os olhos cinzentos e os longos cabelos negros e crespos, eu sei disso.
- Como sabe?
Ela se virou de volta e, segurando as mãos dele subitamente, olhou-o nos olhos outra vez:
- Porque eu vivi com vocês dois, e conheci inúmeras outras pessoas... Você se parece com o meu guia, isso sim.
Ele franziu o cenho, subitamente interessado.
- Você nunca me falou sobre ele - disse, arrependendo-se disso no mesmo instante, pois tinha enorme curiosidade sobre esse homem misterioso que a instruiu e era o maior responsável por ela ter sobrevivido.
- Basta dizer que ele era um homem capaz de amar como pouquíssimos - ele podia jurar que os olhos dela estavam marejados, mas a penumbra do quarto o impedia de ter certeza - e que foi um homem infinitamente triste... por suas próprias escolhas.
- Ele escolheu ser infeliz?
- Sim, sutilmente, dia após dia - disse ela tristemente. - Você vê, quanto mais ele se fechava, acreditando que tinha estragado sua própria vida e perdido tudo, mais isso se tornava realidade, enquanto ele fechava os olhos para tudo que ele ainda poderia criar.
Ele se afastou rapidamente, ficando de pé.
- Isso é algum tipo de lição de moral ou...?
- Não, de forma alguma! - assustou-se ela, sinceramente espantada com a interpretação dele. - Não. Você pode perguntar a quem quer que o tenha conhecido bem, ele era exatamente assim.
- E você quer dizer...
- Não quero dizer nada, mas acho que você pode ver melhor agora - ela se levantou, indo até ele e falando baixo, quase num sussurro. - É apenas uma questão de se permitir ver, e você sabe disso. Sempre soube. Eu não quero que você morra no oceano, meu amor.
Ele queria sentir raiva, mas a conhecia e, mais do que isso, sentia a sinceridade em suas palavras. Profundamente pensativo, ele a abraçou e repousou seu queixo em seu ombro, olhando a neve fora do quarto. E desejou, mais do que nunca, que pudesse parar de pensar, de existir, nem que fosse por um segundo.

Our Home... Perhaps

Ela estava quase chorando de rir quando derrubou ainda mais farinha no chão e, ao invés de brigar, sua mãe ria tanto o quanto ela, tentando consertar o que eram para ser ótimos bolinhos ingleses. Podia-se ouvir, acima da vitrola tocando um dos muitos álbuns dos Beatles que sua mãe tanto gostava, o vocabulário comum de esporte vindo de fora, enquanto seu irmão gêmeo e seu pai faziam uma bagunça no quintal. A primeira fornada de bolinhos já conferia um perfume agradável à cozinha, e a luz anormalmente dourada do sol se pondo fazia com que tudo parecesse mais fácil. Os cabelos ruivos da mãe dela pareciam ainda mais flamejantes sob aquela luminosidade, e enquanto limpavam a cozinha e colocavam os últimos bolos a assar, ela observava o quão bela sua mãe ainda era, uma mulher alta e de gentis olhos verdes, sempre pronta para confortar alguém com suas inúmeras maneiras de ser gentil com os outros. 
- O que foi, querida? - perguntou ela subitamente, depois de um longo período de silêncio da filha.
- O quê? - perguntou ela, confusa após sair de seu devaneio.
- Você parece triste, Rose - disse ela, aproximando-se da filha e a olhando preocupada. Abaixou-se até ficar da mesma altura dela e lhe segurou os ombros. - Você sabe, não é mesmo, que as férias vão acabar, certo?
- Eu sei mamãe, e esse é justamente o problema - ela mordeu o lábio inferior e sua mãe pareceu estupefata. Estava tão acostumada com a verdadeira adoração que seus filhos tinham pela escola, que nada podia ser mais estranho do que ver Rose cabisbaixa por te de voltar.
- Mas filha...
- Na escola você não está à distância de uma palavra - falou Rose baixinho, evitando olhar sua mãe nos olhos e corando violentamente. Sua mãe sabia perfeitamente que sua filha estava quase chorando quando fazia isso. Tentando não demonstrar o quão tocantes essas simples palavras lhe pareceram, sua mãe fez um esforço extraordinário para não sorrir ou abraçar-lhe forte. Resignou-se a agir da maneira que lhe pareceu melhor:
- Seu irmão está sempre com você...
- O que nem sempre é uma coisa boa - cortou Rose, e as duas sorriram, mas logo sua mãe se recompôs.
- E você tem seus melhores amigos lá, além de aprender inúmeras coisas... E aquela biblioteca que você gosta tanto, o lago, o vilarejo para passearem nos finais de semana...
- Tudo isso é realmente ótimo mamãe, mas me afasta demais de você e de papai, sabe? Se pelo menos ele pudesse voltar a ser nosso professor...
- Querida... - começou a mãe, mas foram interrompidas pela entrada intempestiva de seu pai e seu irmão gêmeo. Ambos estavam com lama por toda a parte e aparentemente contentes com a partida que haviam jogado.
- Hum... Bolinhos! - disse o irmão, pegando e dando uma grande mordida, queimando a boca no mesmo instante em que a mãe gritou avisando que estava quente. Seu pai chamou-lhe de esfomeado, mas já sorria mesmo antes de "xingá-lo". A música continuava tocando ao fundo e Rose ficou por um momento apenas contemplando sua família: seu irmão pegando pratos para todos e seu pai checando os bolinhos no forno, enquanto sua mãe, com um sorriso esquecido no rosto, checava as panelas do jantar.
- Querido, você pode preparar um pouco de suco de abóbora por favor?
- Sem dúvida - respondeu seu pai gentilmente, já pegando os apetrechos necessários. Era claro que sua escola era uma segunda casa para ela, afinal, ela passava nove meses por ano lá e realmente gostava das aulas e dos amigos que tinha lá. Mas nada se comparava a essas cenas costumeiras, onde o riso era facilmente atingível e a guerra parecia não poder penetrar nem mesmo no jardim de casa. 
Rose ia subindo para o seu quarto para tomar um banho antes do jantar, quando subitamente acordou. Por um momento, foi difícil entender onde estava e que horas eram, mas subitamente se deu por conta de que estivera apenas sonhando e seu estômago afundou. Podia ouvir o ressonar de seu irmão na cama ao lado, e vê-lo na fraca luminosidade que entrava pela janela aberta.
- Ei, James, acorde -  sussurrou ela, tocando de leve em seu braço. Ele pulou sentado na cama, procurando seus óculos e a olhando imediatamente.
- O que foi?
- Eu sonhei com eles outra vez.
Sem dizer mais nada, James puxou seu lençol para que Rose se deitasse na cama dele, e ela lhe contou o sonho, incluindo os mais insignificantes detalhes. Quando ela terminou, ele suspirou e ela podia jurar ter visto uma lágrima no canto do olho dele, mas não disse nada. Tinham um acordo tácito de sempre contarem um ao outro os sonhos com os seus pais o mais cedo possível, nas raras vezes em que sonhavam com eles, porque só assim podiam tê-los por perto e imaginar como teria sido uma vida com eles. Nunca souberam direito se era bom ou ruim agarrar-se tão fixamente a esses pequenos fragmentos de seus pais, mas era apenas o que lhes restava. James alisou os cabelos da irmã, olhando para o teto, tentando respirar mais levemente. Podia se imaginar perfeitamente na casa que sua irmã descrevera, inclusive imaginar seus pais, exatamente como eles seriam hoje. Mas por enquanto, eles estavam sozinhos - mas só por enquanto, e não totalmente. Porque seus pais viviam neles, através deles, e eles perceberiam isso cedo ou tarde. Então os teriam em si próprios, e até que era bom... quase bom.
 



 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mikrokosmos XXV

- Eu sabia que você não havia ido embora- sussurrou ele sorrindo, enquanto a abraçava por trás e repousava a cabeça em seu ombro. Um sorriso imperceptivelmente maroto não abandonava o seu rosto desde que eles haviam voltado de Londres. Porque repentinamente era seguro ali - e ele não sentia medo de permanecer. As coisas foram tomando forma aos poucos e, também aos poucos, ambos foram percebendo a verdade, mesmo que vê-la não fosse sinônimo de acreditar nela. Mas era muito mais fácil acreditar quando estavam juntos, e isso não era exatamente algo finito.
- Como você sabia dessa vez? - perguntou ela, quando começou a chover.
- Fácil. A sua felicidade ao me ver lá foi um pouquinho reveladora, sabe? - os dois riram, e ele prosseguiu. - Sem contar que você não ficou realmente longe, estava sempre em contato, então se eu sentisse dúvidas era só conversar com você, e você ficava comigo até o amanhecer, como se ainda estivéssemos num quarto juntos. E temos os oito meses de casados, também, que você não esqueceu. Então não foi difícil, você vê, foi mais sobre ter coragem de ir te buscar.
Ele pôde sentir ela lhe acariciando as mãos, subitamente triste consigo mesma. Ouviu-a respirar fundo antes de se virar e beijar-lhe o rosto, a boca, acariciar seus cabelos, puxando-o para si no que ele sabia ser uma gratidão pela simples permanência dele, pela sua silenciosa espera. Ela calou a certeza de que ele era tudo, que era a única coisa que ela não podia estragar. Ele era fragilmente irreparável, e ela não permitiria que ele se perdesse. Nunca. Perderiam-se um no outro então, como deve ser. Sempre.

(Escrito em 29/08/2011 - 07:14 a.m.) 

domingo, 4 de setembro de 2011

Melody

O parque estava cheio, exatamente como deveria ser num raro domingo ensolarado como aquele. Era difícil caminhar desviando das pessoas que se amontoavam pelo Green Park, e haviam tantos piqueniques ocorrendo que ele se sentiu realmente com vontade de participar de um, mas só poderia convidar o violão que trazia às costas, se quisesse, então procurou um lugar mais calmo para se sentar e descansar um pouco. Refletindo agora, as coisas pareciam bem: ele havia viajado, seu trabalho estava dando certo e até havia feito alguns novos amigos. Era bom voltar para casa, ainda mais porque ele não gostava realmente de sair do seu país. Ali estavam as pessoas que lhe eram mais caras - e entre elas, a menina que ele estava esperando. Para ela, ao contrário, era difícil permanecer num só lugar. Tinha um riso fácil que escondia dores profundas, que ele desconhecia. Aqueles olhos escuros e tristes lhe causavam um impulso fortíssimo de tentar protegê-la, fosse como fosse, mas ela parecia inatingível, recuava ao mais sutil toque. Conheciam-se há menos de um ano, e ele tentara salvá-la inúmeras vezes desde então. E iria tentar outra vez.
Primeiro, como sempre, ele avistou os cabelos arruivados, depois um sorriso cansado no rosto sardento e desenhado. Era uma daquelas tardes onde ela o abraçava forte, não querendo largá-lo. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez, era ela que se abria, que deixava que os olhos transbordassem, que deixava que a monotonia do domingo pudesse ser bem mais do que isso. Cansado de dizer que as escolhas eram dela, que tudo dependia do que ela queria, limitou-se a sussurrar que estava ali por ela, desde o dia em que haviam se conhecido. Ela concordou, entre constrangida e aliviada por se abrir assim, tão inapropriadamente num parque cheio de gente, mas ele nem sonhava em se importar. 
- Crescer dói, não é mesmo?
Os dois riram baixinho, ainda abraçados, e ela deu um longo suspiro. Ele a conhecia tão bem que seria estranho, se não fosse tão bom. Depois de um momento de calmaria, ele lentamente pegou a mão dela e começou a cantar baixinho sobre dirigir um barco naufragando para casa... E ela sorriu.