segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Our Home... Perhaps

Ela estava quase chorando de rir quando derrubou ainda mais farinha no chão e, ao invés de brigar, sua mãe ria tanto o quanto ela, tentando consertar o que eram para ser ótimos bolinhos ingleses. Podia-se ouvir, acima da vitrola tocando um dos muitos álbuns dos Beatles que sua mãe tanto gostava, o vocabulário comum de esporte vindo de fora, enquanto seu irmão gêmeo e seu pai faziam uma bagunça no quintal. A primeira fornada de bolinhos já conferia um perfume agradável à cozinha, e a luz anormalmente dourada do sol se pondo fazia com que tudo parecesse mais fácil. Os cabelos ruivos da mãe dela pareciam ainda mais flamejantes sob aquela luminosidade, e enquanto limpavam a cozinha e colocavam os últimos bolos a assar, ela observava o quão bela sua mãe ainda era, uma mulher alta e de gentis olhos verdes, sempre pronta para confortar alguém com suas inúmeras maneiras de ser gentil com os outros. 
- O que foi, querida? - perguntou ela subitamente, depois de um longo período de silêncio da filha.
- O quê? - perguntou ela, confusa após sair de seu devaneio.
- Você parece triste, Rose - disse ela, aproximando-se da filha e a olhando preocupada. Abaixou-se até ficar da mesma altura dela e lhe segurou os ombros. - Você sabe, não é mesmo, que as férias vão acabar, certo?
- Eu sei mamãe, e esse é justamente o problema - ela mordeu o lábio inferior e sua mãe pareceu estupefata. Estava tão acostumada com a verdadeira adoração que seus filhos tinham pela escola, que nada podia ser mais estranho do que ver Rose cabisbaixa por te de voltar.
- Mas filha...
- Na escola você não está à distância de uma palavra - falou Rose baixinho, evitando olhar sua mãe nos olhos e corando violentamente. Sua mãe sabia perfeitamente que sua filha estava quase chorando quando fazia isso. Tentando não demonstrar o quão tocantes essas simples palavras lhe pareceram, sua mãe fez um esforço extraordinário para não sorrir ou abraçar-lhe forte. Resignou-se a agir da maneira que lhe pareceu melhor:
- Seu irmão está sempre com você...
- O que nem sempre é uma coisa boa - cortou Rose, e as duas sorriram, mas logo sua mãe se recompôs.
- E você tem seus melhores amigos lá, além de aprender inúmeras coisas... E aquela biblioteca que você gosta tanto, o lago, o vilarejo para passearem nos finais de semana...
- Tudo isso é realmente ótimo mamãe, mas me afasta demais de você e de papai, sabe? Se pelo menos ele pudesse voltar a ser nosso professor...
- Querida... - começou a mãe, mas foram interrompidas pela entrada intempestiva de seu pai e seu irmão gêmeo. Ambos estavam com lama por toda a parte e aparentemente contentes com a partida que haviam jogado.
- Hum... Bolinhos! - disse o irmão, pegando e dando uma grande mordida, queimando a boca no mesmo instante em que a mãe gritou avisando que estava quente. Seu pai chamou-lhe de esfomeado, mas já sorria mesmo antes de "xingá-lo". A música continuava tocando ao fundo e Rose ficou por um momento apenas contemplando sua família: seu irmão pegando pratos para todos e seu pai checando os bolinhos no forno, enquanto sua mãe, com um sorriso esquecido no rosto, checava as panelas do jantar.
- Querido, você pode preparar um pouco de suco de abóbora por favor?
- Sem dúvida - respondeu seu pai gentilmente, já pegando os apetrechos necessários. Era claro que sua escola era uma segunda casa para ela, afinal, ela passava nove meses por ano lá e realmente gostava das aulas e dos amigos que tinha lá. Mas nada se comparava a essas cenas costumeiras, onde o riso era facilmente atingível e a guerra parecia não poder penetrar nem mesmo no jardim de casa. 
Rose ia subindo para o seu quarto para tomar um banho antes do jantar, quando subitamente acordou. Por um momento, foi difícil entender onde estava e que horas eram, mas subitamente se deu por conta de que estivera apenas sonhando e seu estômago afundou. Podia ouvir o ressonar de seu irmão na cama ao lado, e vê-lo na fraca luminosidade que entrava pela janela aberta.
- Ei, James, acorde -  sussurrou ela, tocando de leve em seu braço. Ele pulou sentado na cama, procurando seus óculos e a olhando imediatamente.
- O que foi?
- Eu sonhei com eles outra vez.
Sem dizer mais nada, James puxou seu lençol para que Rose se deitasse na cama dele, e ela lhe contou o sonho, incluindo os mais insignificantes detalhes. Quando ela terminou, ele suspirou e ela podia jurar ter visto uma lágrima no canto do olho dele, mas não disse nada. Tinham um acordo tácito de sempre contarem um ao outro os sonhos com os seus pais o mais cedo possível, nas raras vezes em que sonhavam com eles, porque só assim podiam tê-los por perto e imaginar como teria sido uma vida com eles. Nunca souberam direito se era bom ou ruim agarrar-se tão fixamente a esses pequenos fragmentos de seus pais, mas era apenas o que lhes restava. James alisou os cabelos da irmã, olhando para o teto, tentando respirar mais levemente. Podia se imaginar perfeitamente na casa que sua irmã descrevera, inclusive imaginar seus pais, exatamente como eles seriam hoje. Mas por enquanto, eles estavam sozinhos - mas só por enquanto, e não totalmente. Porque seus pais viviam neles, através deles, e eles perceberiam isso cedo ou tarde. Então os teriam em si próprios, e até que era bom... quase bom.
 



 

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