Dedicado a Patrícia Tagarra Pereyra.
Após terminar todos os arranjos
necessários, ela finalmente voltou ao quarto onde a noiva se preparava.
Tentando não deixar transparecer nada do que tinha em mente, respirou fundo
antes de abrir a porta.
- Aí está você, finalmente! Onde
diabos tinha se metido?
- Eu só estava me certificando que
tudo estava certo com as músicas a serem tocadas, acalme-se Rachel – ela fez
com que Rachel sentasse em frente à penteadeira e começou a ajeitar os longos
cabelos dela. – Eu sei que você quer que tudo seja perfeito.
- Bem que queria, mas não acredito
em mais nada a esse ponto – Rachel bufou, feito criança. – Não sei onde foram
parar os brincos que eu queria usar essa noite, sujei meu sapato com o sorvete
que eu não deveria estar comendo e...
- Tenho certeza que dá para arrumar
o sapato, onde está ele?
- Kirsti está tentando limpá-lo para
mim – Rachel disse, cabisbaixa. Linda não podia ignorar a tristeza opressiva
que vinha de Rachel, espalhando-se pelo olhar, pelos gestos dela. Linda soube
que estava fazendo a coisa certa naquele momento, mas permaneceu em silêncio,
finalizando o penteado dela. Linda já estava em seu vestido vermelho, muito
bonita com um coque alto e uma bela maquiagem, que realçava seu olhar. Rachel
estava sem maquiagem e aparentemente sem ânimo para maquiar-se, mas Linda não
achava que fosse o momento certo para alertá-la sobre o erro que poderia
cometer. Seguiria seu plano original, mesmo que houvessem outras maneiras de
solucionar tudo aquilo.
Depois de cerca de duas horas,
durante as quais Rachel simplesmente deixou que Linda e as outras mulheres
presentes a arrumassem e vestissem para o casamento, ela estava pronta. O
sapato estava branco novamente, os cabelos devidamente arrumados, o rosto
finalmente maquiado. Aos poucos, todas as outras mulheres foram deixando o
quarto, sobrando apenas Linda a acompanhar Rachel. Quando se viram sozinhas,
houve um grande silêncio, que deixou ainda mais evidente que a agitação que há
pouco enchia o quarto não era alimentada, nem um pouco, por Rachel. Ela se olhou
no espelho por um segundo e então, de cabeça baixa, saiu pelo quarto à procura
do buquê. Linda respirou fundo. Não suportava ver Rachel dessa forma, mas sabia
que de nada adiantaria tentar conversar sobre o que ela estava sentindo.
- Está tudo bem?
- Uhum – disse Rachel, tentando
sorrir e pegando o buquê. – É estranho estar vestida de noiva pela segunda vez
na vida, quero dizer, isso é a última coisa que pensamos quando casamos pela
primeira vez, mas enfim... Estou pronta – e sorriu, tentando inutilmente
disfarçar os olhos cintilantes.
- Então vamos – disse Linda,
estendendo-lhe o braço. Rachel aceitou e seguiu Linda caminhando devagar, em
silêncio. Elas haviam decidido que, já que o pai de Rachel morrera, nada mais
justo do que a pessoa que Rachel mais amava a levasse ao altar. Ambas entraram
no carro que Linda havia alugado e nem mesmo colocaram música, pois a tensão de
ambas era grande demais. Rachel fechou os olhos e Linda dirigiu em silêncio até
estacionar. Quando o carro parou, Rachel olhou ao redor, desorientada.
- Por que paramos aqui? Você precisa
de... ? – e parou de falar, ao reconhecer o Rainbow um pouco
mais abaixo na rua. – O que isso significa? O que você está fazendo?
Agora sim os olhos de Rachel estavam
cheios d’água, e os de Linda também. Ela pegou firme nas mãos de Rachel, e
suspirou enquanto tentava encontrar as palavras para explicar aquilo.
- Eu... eu estou tentando salvar a
sua vida, simplesmente – em falta de definição melhor, era só o que podia
dizer. – A escolha é sua, é claro, mas eu precisava saber que você tinha
certeza antes de fazer isso. Eu só quero que você desça desse carro, entre no
Rainbow e converse com ele, apenas isso. Se você não sentir nada, prometo que
estarei aqui te esperando e te levarei ao altar, festejarei contigo e tudo
continua exatamente como o planejado. Mas se você sentir que ele ainda é o seu
marido, ou o mínimo de paixão por ele...
- Eu não posso ir! Por Deus, existe uma multidão me esperando numa igreja
longe daqui! Isso é loucu...
- Loucura é fechar os olhos para o
que você realmente sente! Dessa vez você não vai fugir, eu não vou deixar – quase gritando, Linda permaneceu firme. – Você
não tem escolha. Por todos os anos ao seu lado, eu sei, bem melhor do que você,
o que estou fazendo. Agora não diga mais nada e simplesmente saia desse carro!
Rachel ficou em silêncio,
completamente parada por um momento. Olhou para Linda e para o Rainbow
repetidas vezes, até perceber que a amiga jamais cederia. Com um suspiro, ela
largou o buquê no banco de trás e abriu a porta do carro. Depois de um momento
de hesitação, Linda pôde ouvir o barulho dos saltos altos batendo no asfalto
enquanto Rachel se aproximava do Rainbow, tirando o véu e tentando caminhar da
melhor forma possível com o vestido. Quando ela desapareceu atrás da porta, Linda
se deu por conta de que estava chorando.
Apesar do desconforto, Rachel
conseguiu tranquilamente caminhar entre as mesas de seu bar favorito. Por um
momento, quis acreditar que ele não estaria lá, mas a agonia desse pensamento foi
felizmente substituída pela presença dele, numa mesa do canto. Ele estava
largando o copo de uísque sobre a mesa quando a viu. Olhou-a dos pés a cabeça,
comovido como só ele era capaz de ficar em tais momentos. Ao reencontrá-lo, ela
sentia em seu corpo a urgência que através dos anos nunca mudava. Ele se
levantou para encontra-la, já que Rachel não fazia menção de se aproximar ou
sentar.
- Linda me disse que...
- Eu sei, eu sei – interrompeu ele,
falando baixo. – Eu não consigo te ver assim, eu..
Ele desviou os olhos, parecendo
desesperado. Imaginar o que ele estaria sentindo, vendo-a pronta para se casar
com outro homem fez com que Rachel quase gritasse de agonia. Num gesto brusco,
ela se aproximou dele, sussurrando:
- Eu não posso continuar com
isso,
eu...
Agora sim as lágrimas vinham, e ela
o beijou com toda a intensidade dos anos de distância, do desejo que jamais
passava. Abraçaram-se forte então, tornando as palavras e tudo o mais
desnecessário, tudo inexistente. Depois de se acalmar, Rachel soltou os cabelos
e disse, quase sem voz:
- Preciso avisar Linda, espere...
- Eu vou junto.
Pela primeira vez naquele dia,
Rachel sorriu, estendendo-lhe a mão. E ao se olharem, ambos riram, aliviados,
alegres. Tirando os sapatos, Rachel correu pela rua, correu para os braços de Linda
que já a esperavam abertos, quentes, como sempre haviam esperado. As duas riram
alto ao se encontrarem, e por um longo tempo se abraçaram, rindo, chorando,
enquanto Linda repetia “eu sabia!” e Rachel “obrigada meu amor, obrigada,
obrigada...”. Bruce olhava rindo a cena que tantas vezes presenciara durante
todos os anos que passara ao lado de Rachel. As duas se beijaram de leve, por
fim, e disseram “eu te amo”, porque nada mais poderia expressar aquele
sentimento que fazia com que uma salvasse a outra através dos anos, sempre.