quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Soprano


Deitada na cama, muito inquieta, ela ouvia música, sem conseguir parar de pensar em todas as belas palavras que ecoavam em sua cabeça. A cama de beliche fazia sombra no quarto já escuro pelo tempo chuvoso, e ela mantinha os olhos bem abertos, completamente desperta e agoniada. Uma sensação de que tinha uma responsabilidade muito grande em suas mãos não a abandonava desde que votos haviam sido feitos, desde que uma vida havia sido planejada em conjunto. Havia sonhos, detalhes, beleza – a estante compartilhada, as escrivaninhas uma ao lado da outra, a efervescência criativa alimentada mutuamente, tudo que eles precisavam para serem completos. Tudo isso se guardava dentro dele, por trás daqueles belos olhos verdes, olhos que jamais a deixavam ter paz.
No fundo, ela sabia que todo o sonho dependia apenas de um gesto frágil. Um impulso, uma respiração profunda, e tudo poderia ser diferente. De súbito, levantou-se da cama bruscamente e procurou pelas roupas mais próximas, achou um vestido e um par de tênis e após pegar algumas moedas para o transporte, saiu correndo pela rua. Por um momento, começou a pensar no que estava fazendo, mas o impulso inicial apagou os pensamentos e receios. Depois de esperar por alguns momentos, um ônibus surgiu e ela se acomodou nele, olhando através da janela sem realmente enxergar nem pensar. Era um caminho relativamente longo até o lugar onde poderia encontra-lo, e ela simplesmente esperava, observando a paisagem se afastar.
Desceu depois de cerca de meia hora, sob uma chuva forte que não a incomodava. Olhou ao redor, procurando voltar a si, porém tudo que conseguiu foi ser tomada por lembranças ao ver a catedral do outro lado da avenida – lembranças de um onze de junho que foi o começo de tudo, há tanto e tão pouco tempo atrás. Decidiu então, indo por entre as árvores e os bancos, descer a bela avenida que havia se tornado seu cenário mais particular. Apesar de ter deixado sua casa num impulso muito certeiro, agora descia a avenida sem rumo nem pressa, deixando-se levar pelos próprios passos, perdida num estranho entorpecimento. Caminhava olhando os pés, percebendo só agora que usava o par de all star amarelo no qual pensara em escrever um monte de coisas, mas jazia em branco. Ouviu algumas buzinas ao atravessar as ruas sem olhar, e ao chegar em uma calçada foi interrompida.
- Cuidado!

Num sobressalto, ela levantou os olhos, sendo tomada pelos verdes cheios de cuidado. Não havia surpresa em vê-lo ali, apenas receio. Por algum motivo, já não fazia sentido insistir em tantos sonhos. Uma palavra interrompida, um gesto frágil –e tudo se desintegrou.

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