Deitada na cama, muito inquieta, ela ouvia música, sem
conseguir parar de pensar em todas as belas palavras que ecoavam em sua cabeça.
A cama de beliche fazia sombra no quarto já escuro pelo tempo chuvoso, e ela
mantinha os olhos bem abertos, completamente desperta e agoniada. Uma sensação
de que tinha uma responsabilidade muito grande em suas mãos não a abandonava desde
que votos haviam sido feitos, desde que uma vida havia sido planejada em
conjunto. Havia sonhos, detalhes, beleza – a estante compartilhada, as
escrivaninhas uma ao lado da outra, a efervescência criativa alimentada
mutuamente, tudo que eles precisavam para serem completos. Tudo isso se
guardava dentro dele, por trás daqueles belos olhos verdes, olhos que jamais a
deixavam ter paz.
No fundo, ela sabia que todo o sonho dependia apenas
de um gesto frágil. Um impulso, uma respiração profunda, e tudo poderia ser
diferente. De súbito, levantou-se da cama bruscamente e procurou pelas roupas
mais próximas, achou um vestido e um par de tênis e após pegar algumas moedas
para o transporte, saiu correndo pela rua. Por um momento, começou a pensar no
que estava fazendo, mas o impulso inicial apagou os pensamentos e receios.
Depois de esperar por alguns momentos, um ônibus surgiu e ela se acomodou nele,
olhando através da janela sem realmente enxergar nem pensar. Era um caminho
relativamente longo até o lugar onde poderia encontra-lo, e ela simplesmente
esperava, observando a paisagem se afastar.
Desceu depois de cerca de meia hora, sob uma chuva
forte que não a incomodava. Olhou ao redor, procurando voltar a si, porém tudo
que conseguiu foi ser tomada por lembranças ao ver a catedral do outro lado da
avenida – lembranças de um onze de junho que foi o começo de tudo, há tanto e
tão pouco tempo atrás. Decidiu então, indo por entre as árvores e os bancos,
descer a bela avenida que havia se tornado seu cenário mais particular. Apesar
de ter deixado sua casa num impulso muito certeiro, agora descia a avenida sem
rumo nem pressa, deixando-se levar pelos próprios passos, perdida num estranho
entorpecimento. Caminhava olhando os pés, percebendo só agora que usava o par de
all star amarelo no qual pensara em escrever um monte de coisas, mas jazia em
branco. Ouviu algumas buzinas ao atravessar as ruas sem olhar, e ao chegar em
uma calçada foi interrompida.
- Cuidado!
Num sobressalto, ela levantou os olhos, sendo tomada
pelos verdes cheios de cuidado. Não havia surpresa em vê-lo ali, apenas receio.
Por algum motivo, já não fazia sentido insistir em tantos sonhos. Uma palavra
interrompida, um gesto frágil –e tudo se desintegrou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário