sexta-feira, 6 de abril de 2012

Mikrokosmos XLI


         - Quando eu tinha catorze anos, inúmeras coisas aconteceram e me mudaram profundamente, sem, no entanto destruir o que eu mais queria preservar. A sua vida repete a minha, então eu não ficaria surpreso se isso lhe acontecesse.
        - Eu preciso que muitas coisas mudem, mas sei que tenho de ir embora para que isso aconteça, e eu nunca quis ir - ela observou-lhe o rosto prolongadamente, num gesto já de saudade. - Eu sei que você me levará ao aeroporto, e fará o melhor possível para me esperar, mas isso não torna as coisas mais fáceis. Ainda vou sentir a sua falta todos os dias e me perguntar porque diabos estamos longe um do outro.
        Por um longo tempo ele permaneceu em silêncio, apenas observando ao longe as árvores da floresta onde brincava quando criança. Quão errado era deixá-la partir, e quão certo? Havia tanto que deveria ser arriscado que ele nem queria pensar.
        - Sim, eu te levarei ao aeroporto e tentarei te esperar, se você puder retornar algum dia. Porém, preciso dizer-lhe algo e preciso igualmente que me ouça seriamente, sem jamais considerar isso uma reação exagerada de minha parte.
        Como ele temia e desejava, ela assentiu prontamente, muito séria, olhando-o atenciosamente. Depois de um momento de ultima hesitação, com um enorme esforço, ele conseguiu dizer:
        - Temo que as probabilidades de voce não retornar sejam grandes. Pense no quanto o seu cotidiano irá mudar, quantas novas preocupações e novas alegrias irão vir... Uma vez que você estiver de volta na Inglaterra, querendo ou não, sua vida irá mudar aos poucos, até que essa tarde não seja mais do que uma memória distante, de uma vida que você superou. É desnecessário se sentir culpada por desejar isso; ambos sempre soubemos que crescer como ser humano é o que há de mais importante nessa vida.
        Pensativa, ela assentiu, evitando o seu olhar. Apesar de saber que isso era, supostamente, necessário, ainda não desejava partir, ou melhor: desejava partir, fazer o que tinha de ser feito e voltar para casa. A ideia de que a vida que levavam agora poderia se tornar apenas um passado inatingível era desejável apenas pela conveniência; no fundo não havia nada que ela desejasse menos do que deixar isso tudo para trás.
        - Eu não acredito em nada disso. Sei que muitas coisas vão acontecer e que eu estarei longe por um tempo, mas cedo ou tarde tudo voltará ao normal, porque eu não preciso de nada além disso.
        - Isso não é verdade. Se não precisasse, você ficaria aqui. Você está certa em ir, e concordo que você possa voltar, mas acho difícil. Lembra do quão feliz você ficou durante sua entrevista? E sua enorme empolgação quando foi aceita? - ela assentiu, sentindo os olhos arderem. Como sempre, ele via através dela, porém era incapaz de compreender que por isso mesmo ela precisava dele, dessa vida ao seu lado. - Tudo está certo para que você vá e, apesar de haverem inúmeras dificuldades, você sabe que a única opção é enfrentá-las com coragem e pureza de intenções.
        Sem mais o que dizer, ambos silenciaram, observando as copas das árvores movendo-se harmoniosamente com o vento. O verão estava chegando e nada mais seria tão belo, muito menos tão delicado, entretanto esse era o ciclo natural das estações. Um dia, o inverno traria a neve outra vez, e os dois poderiam brincar a tarde toda e decorar pinheiros e dançar sob eles no Natal, mas até lá havia muito trabalho a fazer. Então era hora de entrar e se dedicar por um momento - e talvez, em devaneio, ainda ser livre.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

End of Time

           Laying on a hotel bed, they remained silent, holding hands, both thinking about everything so confusingly that nothing could be understood even in their minds. Actually, this was their strategy to breathe when too many things were happening or about to happen. Ten years of friendship made their silence be enough communication; their history was completely different because of each other's presence. He seemed to be the only man who could love her without desire; she seemed to be the only woman able to see beyond his appearance. With no masks they spoke, laughed and cried together through the years, being siblings, the norwegian girl and the italian man.
        - You are screwed, you know that, right?
        She laughed as answer. The moment of worry was gone for a while. The best of being together like this was that there was something about him, something very subtle that seemed to say "Forget everything, be just a girl with her brother, let me just a boy with his sis". It usually worked, so, at least for one hour all the hell or heavens which were worring them, just disappeared, and then they could go back to a safe place in their lives, where there was nothing but friendship and a little of fun, and even seemed that they could be young and brave once more. As life was making them grow older and older, only more regrets and useless experiences were added to their "wisdom". At least, they had built great professional lives: she made it through the medical school and became a great general surgeon, while he became the brilliant writer he always dreamed of being.
        Their sucessfull professional lives were a good mask for their personal mess. He lived by himself in a fancy apartment in Rome; she lived with her best friend (who was also a surgeon) in a house near the hospital where they worked. The flight for Oslo was in two hours, but she did not want to go home. Liv, her best friend, was now with a good life: she had finally gone back to her musician and very beautiful boyfriend. She was thin and really beautiful too, with amazing dark eyes, behind which all sort of sadness had been through. For a long time, Liv was the only person who could know everything about her, and that was...
        Someone was at the door. Lazily, he rose to answer it. Before she was even able to realize what was going on, she heard he whisper to her "Easy, honey" and then the lights were on and the voices spoke in italian and english and nothing else made sense: in a moment she was watching Liv dancing through the living room, smiling as she almost never did, and the hospital's lights were blinding her and somewhere, in some very distant place, the italian man was waking up with his phone ringing, with Liv's crying voice and there wasn't enough time to fly to Oslo, there was... That was the end of time. 


(Written in 03/27/2012)