Sobre
o criado-mudo, numa folhinha verde de bloco de notas, naquela caligrafia
apertada, ele pôde reler os versos tão conhecidos:
“Good-bye my Fancy!
Farewell dear mate, dear love!
I’m going away, I know not where,
Or to what fortune, or whether I may
ever see you again,
So Good-bye my Fancy.
Now for my last – let me look back a
moment;
The slower fainter ticking of the
clock is in me,
Exit, nightfall, and soon the
heart-thud stopping.
Long have we lived, joy’d, carres’d
together;
Delightful! – now separation –
Good-bye my Fancy.
Yet let me not be too hasty,
Long indeed have we lived, slept,
filter’d, become really blended into one;
Then if we die we die together,
(yes, we’ll remain one,)
If we go anywhere we’ll go together
to meet what happens,
May-be we’ll be better off and
blither, and learn something,
May-be it is yourself now really
ushering me to the true songs, (who knows?)
May-be it is you the mortal knob really
undoing, turning – so now
finally,
Good-bye – and hail! my
Fancy.”
E
tudo se apagou. Demorou um tempo até que ele pudesse se mover para se sentar na
cama, muito rígido, sem lágrimas.
seria a coisa certa?
O corpo dela, muito branco e
arredondado, ressonando tranquilamente na cama, enquanto ele se distraía
durante a vigília com o mesmo livro do qual ela copiara o poema, num tempo em
que ela ainda era pura. Ela acordaria então e desceria para preparar o café e
ler um pouco, enquanto ele arrumava a cama e preparava-se para mais uma vez
viajarem juntos. Às vezes ela acordava muito séria, com um sorriso triste, e
ele sabia que ela lembrava da morte, da família que não tinha mais, da finitude
das coisas. Eram dias onde nada além deles era necessário, mas o inevitável
acontecia e logo as coisas mudaram e ele, por algum instinto não justificado,
passou a acreditar que o melhor seria “seguirem
em frente e crescer”, sem que ele próprio pudesse entender ao certo o que
isso significava, apenas o que envolvia – separação. E então foi o que fizeram
e, depois de tanto tempo, de tantos avanços e recuos, ali ele encontrava o
poema que mais belamente descrevia a delicada rendição dela. O pensamento, a
imagem de tal alma se rendendo tão tranquilamente, longe de qualquer tipo de
ódio, fez com que ele lembrasse quem ela realmente era. E com isso,
subitamente, toda a distância, todo o crescimento forçado e toda insegurança se
tornaram apenas fruto da ignorância e do medo. Entretanto, era tarde demais
para que qualquer coisa fosse feita a respeito, as folhas já haviam caído e
nascido novamente e só então ele se deu por conta de seu erro.
Então chorou. Chorou como o menino
que era, menino que em sua inocência havia pecado, mesmo sem saber que era
pecado. A neve era reconfortante, porém a desolação por ter cometido tamanha
falta não permitia que ele se sentisse tranquilo por muito tempo. De imediato
entendeu que aquela seria uma noite bastante difícil, e para noites assim,
mesmo suas mais antigas fórmulas de conforto e aconchego (os livros de Tolkien,
uma xícara bem quente de chá, café ou um bom vinho e a solidão de seu quarto,
com a janela aberta para os pinheiros) não funcionavam. Resolveu então procurar
algum bom filme para assistir, e não pôde pensar em algo melhor e mais triste
do que Born of Hope – o qual, ele
lembrou depois de uns trinta minutos, era o favorito dela. Não era meia-noite
ainda quando uma batida leve soou na porta.
- Pode entrar- disse ele, resignado
a ser incomodado nesse momento.
- Tem alguém querendo te ver, filho –
uma pausa, hesitante. – Mando subir?
Só poderia ser o irmão dele. Haviam
brigado há poucos dias e ele certamente viera se desculpar. É claro que, na
verdade, ele tinha esperanças que ela tivesse aparecido, mesmo depois dos anos
passados, e sua esperança aumentava à medida que ouvia ruídos nas escadas e
olhava para o bilhete que ainda naquele dia havia sido depositado em seu
criado-mudo. Uma batida de leve e, no mesmo instante, é claro, ele a mandou
entrar.
- Perdoe-me por aparecer assim sem
avisar e em hora tão inapropriada – começou ela, muito timidamente, sem olhá-lo
nos olhos. – Eu avisei a sua mãe, porém ela se esqueceu de pegar os livros e o
suéter do seu quarto, e insistiu que eu mesma subisse e os pegasse. Espero não
estar atrapalhando muito, e prometo ser rápida.
- Você é bem-vinda, não se preocupe.
Fique à vontade, o quarto é seu também.
Ele se sentou na cama e ali
permaneceu, completamente constrangido, sem saber o que deveria fazer. Ela
tinha a mesma aparência de dois anos atrás, exceto por estar mais magra, talvez
um pouco abatida. Ela andava de cabeça baixa e muito rápida e cuidadosamente
recolhia os objetos esquecidos por tanto tempo – ou talvez perdidos pela falta
de coragem de toma-los de volta. Tomado por um impulso, tão súbito que ele nem
se deu por conta do que estava fazendo, levantou-se e tocou de leve no cotovelo
dela, a pedir que o olhasse. Ela se virou, parecendo um pouco ansiosa. Esperou
em silêncio que ele se manifestasse.
- Aquele poema era exatamente o que
eu precisava ler. Obrigado por tê-lo deixado aqui.
- Por nada. É apenas como me sinto.
- Existe alguma maneira de mudar
isso?
Ela franziu o cenho, mas ele
reconhecia o interesse, a esperança nos olhos dela. Poderia estar errado,
afinal, talvez não a conhecesse tão bem depois de tanto tempo distante, no
entanto parecia-lhe claro que a ansiedade que ele sentia por falar era a mesma
que ela sentia por ouvir.
- Eu acredito que nosso futuro
juntos nunca deixou de existir. Mesmo quando ambos deixamos de acreditar, ele
sempre esteve lá.
- O que quer dizer... ?
- Eu só preciso saber se você também
sabe da existência do resto das
nossas vidas em comum. Preciso saber se, assim como no dia em que nos casamos,
você ainda acredita que só podemos ser verdadeiramente felizes um com o outro.
Ela respirou fundo, com os olhos cintilando.
Depois de um bom tempo, parecendo quase irritada, perguntou:
- Você tem noção do que está
propondo, sugerindo... ?
- Absoluta noção. Você ainda me
deseja por perto, Elizabeth?
Ela tremeu. E de repente, não mais
que de repente, seu rosto se transformou em pranto e ela não pôde mais esconder
as lágrimas. Ela as limpou bruscamente, como se não gostasse de si mesma por
chorar assim, e respondeu:
- Sim, eu quero. De uma vez por
todas.
Eles não sorriram ou choraram.
Olharam-se e logo se beijaram, intensificando tudo à medida que outra vez
sentiam-se preenchidos pela presença mútua. Pela primeira vez, em anos,
dormiram tranquilamente. E quando ela despertou, desceu para preparar o café
enquanto ele repousava o livro da vigília na cabeceira, não mais um livro
triste, mas as mais belas histórias que lhe preenchiam com alegria e um pequeno
gosto de eternidade.
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