O parque estava cheio, exatamente como deveria ser num raro domingo ensolarado como aquele. Era difícil caminhar desviando das pessoas que se amontoavam pelo Green Park, e haviam tantos piqueniques ocorrendo que ele se sentiu realmente com vontade de participar de um, mas só poderia convidar o violão que trazia às costas, se quisesse, então procurou um lugar mais calmo para se sentar e descansar um pouco. Refletindo agora, as coisas pareciam bem: ele havia viajado, seu trabalho estava dando certo e até havia feito alguns novos amigos. Era bom voltar para casa, ainda mais porque ele não gostava realmente de sair do seu país. Ali estavam as pessoas que lhe eram mais caras - e entre elas, a menina que ele estava esperando. Para ela, ao contrário, era difícil permanecer num só lugar. Tinha um riso fácil que escondia dores profundas, que ele desconhecia. Aqueles olhos escuros e tristes lhe causavam um impulso fortíssimo de tentar protegê-la, fosse como fosse, mas ela parecia inatingível, recuava ao mais sutil toque. Conheciam-se há menos de um ano, e ele tentara salvá-la inúmeras vezes desde então. E iria tentar outra vez.
Primeiro, como sempre, ele avistou os cabelos arruivados, depois um sorriso cansado no rosto sardento e desenhado. Era uma daquelas tardes onde ela o abraçava forte, não querendo largá-lo. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez, era ela que se abria, que deixava que os olhos transbordassem, que deixava que a monotonia do domingo pudesse ser bem mais do que isso. Cansado de dizer que as escolhas eram dela, que tudo dependia do que ela queria, limitou-se a sussurrar que estava ali por ela, desde o dia em que haviam se conhecido. Ela concordou, entre constrangida e aliviada por se abrir assim, tão inapropriadamente num parque cheio de gente, mas ele nem sonhava em se importar.
- Crescer dói, não é mesmo?
Os dois riram baixinho, ainda abraçados, e ela deu um longo suspiro. Ele a conhecia tão bem que seria estranho, se não fosse tão bom. Depois de um momento de calmaria, ele lentamente pegou a mão dela e começou a cantar baixinho sobre dirigir um barco naufragando para casa... E ela sorriu.
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