A garrafa de uísque estava vazia, e os cinzeiros derrubados pelo quarto. As luzes estavam todas apagadas, não havia som ou ruído. Ele sobressaltou-se, era estranho que nem sequer alguma música estivesse tocando, já que ele supunha que aquela bagunça havia sido feita por ela. Havia algo de muito estranho ali.
Antes de ligar para ela, ele entrou no banheiro e, antes mesmo que pudesse pensar, viu-a na banheira, parecendo desacordada, seu copo de uísque quebrado ali perto, mas sem nenhum vestígio do líquido pelo chão. Assustado, ele correu a segurá-la, puxando-a para si, o que fez com que ela o olhasse assustada também. Ela estava pálida e gelada, sua respiração era superficial e seu rosto manchado de lágrimas. Ao se recuperar do susto, ela olhou-o por um longo momento e teve uma crise tão profunda de choro que ele se desesperou - tanto que estaria chorando com ela se não estivesse tão preocupado com o estado dela. Deixou que ela chorasse abraçada nele, ainda na banheira, até que se acalmasse um pouco, até que pudesse dizer qualquer coisa se quisesse. Quando qualquer um dos dois estava mal, havia um acordo tácito de permanecer em silêncio e não fazer perguntas, apenas oferecer todo o conforto necessário. Geralmente os motivos eram revelados, mas nem sempre - e nessas ocasiões ambos respeitavam perfeitamente isso, sem sequer ficarem pensando sobre isso depois. Passados alguns minutos que pareceram muito mais longos do que o normal para ambos, ela começou a murmurar:
- Eu não consegui...Eu não pu..pude...Eu falhei...
- Shhh...Calma - sussurrou ele de volta, beijando-lhe a fronte e acariciando-lhe os cabelos. - Isso foi só o começo, você não poderia conseguir tudo de uma vez só. Você já deu um grande passo, já construiu muito mais do que se considerava capaz.
- Mas...
- Você fez até onde pôde, por enquanto. Agora nós temos um recomeço, e sempre teremos. Tente dar um passo de cada vez, como você deveria ter feito desde o começo.
Ela abriu os olhos para olhá-lo. Mesmo que estivessem na penumbra, ela adivinhava seus olhos graves, cinzentos, brilhantes. Ele estava ali, como sempre - mas até quando? Em algum momento ele cansaria de salvá-la, certamente, mas ela simplesmente ainda não era forte o suficiente para conseguir se salvar sozinha, aliás, mesmo tendo alguém como ele ao seu lado ela mal conseguia manter algum nível decente de vida. Olhou para aquelas feições que tanto amor lhe despertavam, que tanto lhe alegraram em seus tempos de força e alegria, e soube que jamais deixaria de amá-lo, mesmo que os papéis se invertessem (como acontecia às vezes), ou mesmo que sua vida mudasse subitamente, ainda seria ele. Dando um longo suspiro, ela disse-lhe, quase sorrindo:
- Sabe, existe uma mulher, muito linda. Ela teve problemas muito mais sérios com os pais, teve traumas muito mais sérios e profundos...E ela sobrevive - ele percebia o nó na garganta dela, a angústia mal disfarçada, e doía-lhe sua impotência diante disso tudo. - Todo santo dia, ela sobrevive. Não sei como nem por quanto tempo, mas todos os dias ela levanta e consegue, simplesmente luta e consegue. Eu não deveria ser assim, tão fraca. Eu quero ser como ela, e nossa, se você visse, ela tem lindos olhos verdes e um sorriso tímido...
Mesmo em meio à toda aquela desintegração, ela conseguiu sorrir ao lembrar-se daquela mulher que era seu modelo, seu exemplo, e permitiu que ele pegasse-a no colo e lhe desse aconchego por muito tempo. Ele vestiu-a ignorando deliberadamente as marcas dos vícios em seu corpo (o que confirmava ainda mais seu amor), penteou seus cabelos, fez-lhe seu chá favorito, colocou-lhe um roupão macio e fofo, deu-lhe cigarros e lhe acomodou no quarto, ligando seu filme favorito e assistindo em silêncio com ela, apenas dando-lhe colo e afagos. Ela deixava que ele cuidasse dela como uma criança doente se deixa conduzir pela mãe, sem forças nem vontade de qualquer resistência. Antes mesmo da metade do filme ela adormecia, o rosto enterrado em seu pescoço, assim como ele também gostava de ficar nela, e sua respiração normalizou, mesmo que ele própio não conseguisse dormir até o outro dia. Eram por noites como aquelas que ela havia se casado com ele. Eram por noites como aquela que ambos sobreviviam - e amavam.
Antes de ligar para ela, ele entrou no banheiro e, antes mesmo que pudesse pensar, viu-a na banheira, parecendo desacordada, seu copo de uísque quebrado ali perto, mas sem nenhum vestígio do líquido pelo chão. Assustado, ele correu a segurá-la, puxando-a para si, o que fez com que ela o olhasse assustada também. Ela estava pálida e gelada, sua respiração era superficial e seu rosto manchado de lágrimas. Ao se recuperar do susto, ela olhou-o por um longo momento e teve uma crise tão profunda de choro que ele se desesperou - tanto que estaria chorando com ela se não estivesse tão preocupado com o estado dela. Deixou que ela chorasse abraçada nele, ainda na banheira, até que se acalmasse um pouco, até que pudesse dizer qualquer coisa se quisesse. Quando qualquer um dos dois estava mal, havia um acordo tácito de permanecer em silêncio e não fazer perguntas, apenas oferecer todo o conforto necessário. Geralmente os motivos eram revelados, mas nem sempre - e nessas ocasiões ambos respeitavam perfeitamente isso, sem sequer ficarem pensando sobre isso depois. Passados alguns minutos que pareceram muito mais longos do que o normal para ambos, ela começou a murmurar:
- Eu não consegui...Eu não pu..pude...Eu falhei...
- Shhh...Calma - sussurrou ele de volta, beijando-lhe a fronte e acariciando-lhe os cabelos. - Isso foi só o começo, você não poderia conseguir tudo de uma vez só. Você já deu um grande passo, já construiu muito mais do que se considerava capaz.
- Mas...
- Você fez até onde pôde, por enquanto. Agora nós temos um recomeço, e sempre teremos. Tente dar um passo de cada vez, como você deveria ter feito desde o começo.
Ela abriu os olhos para olhá-lo. Mesmo que estivessem na penumbra, ela adivinhava seus olhos graves, cinzentos, brilhantes. Ele estava ali, como sempre - mas até quando? Em algum momento ele cansaria de salvá-la, certamente, mas ela simplesmente ainda não era forte o suficiente para conseguir se salvar sozinha, aliás, mesmo tendo alguém como ele ao seu lado ela mal conseguia manter algum nível decente de vida. Olhou para aquelas feições que tanto amor lhe despertavam, que tanto lhe alegraram em seus tempos de força e alegria, e soube que jamais deixaria de amá-lo, mesmo que os papéis se invertessem (como acontecia às vezes), ou mesmo que sua vida mudasse subitamente, ainda seria ele. Dando um longo suspiro, ela disse-lhe, quase sorrindo:
- Sabe, existe uma mulher, muito linda. Ela teve problemas muito mais sérios com os pais, teve traumas muito mais sérios e profundos...E ela sobrevive - ele percebia o nó na garganta dela, a angústia mal disfarçada, e doía-lhe sua impotência diante disso tudo. - Todo santo dia, ela sobrevive. Não sei como nem por quanto tempo, mas todos os dias ela levanta e consegue, simplesmente luta e consegue. Eu não deveria ser assim, tão fraca. Eu quero ser como ela, e nossa, se você visse, ela tem lindos olhos verdes e um sorriso tímido...
Mesmo em meio à toda aquela desintegração, ela conseguiu sorrir ao lembrar-se daquela mulher que era seu modelo, seu exemplo, e permitiu que ele pegasse-a no colo e lhe desse aconchego por muito tempo. Ele vestiu-a ignorando deliberadamente as marcas dos vícios em seu corpo (o que confirmava ainda mais seu amor), penteou seus cabelos, fez-lhe seu chá favorito, colocou-lhe um roupão macio e fofo, deu-lhe cigarros e lhe acomodou no quarto, ligando seu filme favorito e assistindo em silêncio com ela, apenas dando-lhe colo e afagos. Ela deixava que ele cuidasse dela como uma criança doente se deixa conduzir pela mãe, sem forças nem vontade de qualquer resistência. Antes mesmo da metade do filme ela adormecia, o rosto enterrado em seu pescoço, assim como ele também gostava de ficar nela, e sua respiração normalizou, mesmo que ele própio não conseguisse dormir até o outro dia. Eram por noites como aquelas que ela havia se casado com ele. Eram por noites como aquela que ambos sobreviviam - e amavam.
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