sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sutil

    A festa estava lotada de gente e barulhenta, exatamente como ela imaginara que seria. Não foi difícil entrar e conseguir um pouco de uísque, e as pessoas, quando a viam ali, não se esforçavam por disfarçar o espanto e começavam a cochichar entre si, mas ela jamais se importara com isso. Era o aniversário dele, e ela viajara inúmeros quilômetros apenas para vê-lo sorrindo, abraçá-lo outra vez. Geralmente não se permitia pensar nele, justamente porque morria de saudade e continuava amando-o com aquela paixão ardente misturada a uma cumplicidade ilimitada que lhe permitira passar quase 15 anos casada com ele. O divórcio havia sido assinado há pouco mais de um mês, mas eles jamais haviam se sentido separados, mesmo morando em países diferentes e mesmo que ela vivesse com outro homem, seu novo marido - mas que jamais, por mais que todos os papéis do mundo afirmassem, alcançaria esse título.
    Haviam strippers ali, drogas, álcool e sexo à vontade, era um mundo completamente diferente do que ela se habituara há cerca de um ano, quando abandonara aquele país. Vivia tranquila e sem muitos vícios em Kitee e, apesar de não perceber, até mesmo essa óbvia falta de regras lhe fazia falta. As tardes inteiras na cama e/ou na banheira, os porres monumentais, o riso fácil, eram coisas completamente desconhecidas em Kitee, e ela gostava dessa sobriedade. Mas não sempre. E não sem o seu marido (apesar de não haver sobriedade possível perto daquele homem corpulento e passional).
    Ele não viu que ela estava se aproximando. Conversava com um amigo, enquanto uma de suas "bonecas" (que era como ele chamava as mulheres que ele usava apenas para o prazer) estava abraçada nele, olhando-o tolamente com um sorriso. Demorou um pouco para que o seu amigo visse sua mulher ali, mas ela não se importou. Olhava o marido com aquela voracidade com que olhamos os que amamos depois de muito tempo longe. Ele emagrecera um pouco, parecia um pouco abatido, mas continuava tão belo o quanto há anos atrás, quando ela era apenas uma adolescente e eles começaram a namorar. Era um homem belíssimo para seus 49 anos completados naquela data, exatamente um mês depois do aniversário de casamento deles. Os longos cabelos ruivos continuavam tão brilhantes quanto os olhos azuis, e o cavanhaque dava-lhe um ar ainda mais másculo. Ela sorriu abertamente como não fazia há tempos, sorriu feito menina alegre, porque aquele homem grande e forte podia ser impetuoso, mas sabia ser o mais amoroso dos homens em alguns momentos - e essa mistura de explosividade e ternura era incrível. Aproximou-se e, quando estava a poucos passos, ele a olhou estupefato.
    - Boa noite, monsieur. Feliz aniversário, meu amor.
    Sem sequer ter tempo para sorrir, ele repeliu sua "boneca" num movimento rápido e tomou sua mulher nos braços, apertando-a fortemente contra si, fazendo-a rir de felicidade. Ele não acreditava que ela estava ali, justamente no único ano desde que ela nascera onde ele pensara que não a teria ao seu lado no seu dia favorito do ano. Ele lhe beijava os cabelos e logo beijou-a nos lábios com uma voluptuosidade desconhecida, surpreendentemente mais forte, mesmo depois de tanto tempo juntos. Nesse momento, ela sequer se lembrava de Kitee, de seu novo marido, de todo o mundo bonito e delicado que construíra para si própria tão longe. Aquele corpo robusto e forte tocando no seu afastava-lhe toda a sanidade, e ela não fazia questão nenhuma de estar no controle, como o de costume. Era simplesmente maravilhoso perder-se por ele, nele. Logo estavam no quarto outra vez, onde outrora passavam dias e noites completamente desligados do mundo, felizes.
    Depois de se perderem inúmeras vezes percorrendo os prazerosos caminhos tão perfeitamente conhecidos há muito tempo, repousaram em silêncio, e já havia amanhecido há tempos. Pararam para se olharem nos olhos então, exauridos, tranquilos, suados e alegres, com um riso escapando facilmente dos lábios perfeitamente desenhados que ambos tinham. Ao olhar naqueles olhos castanhos tão amados, dos quais sentira tanta falta, ele não precisou que ela dissesse nada para entender que ainda eram casados, para saber que ela não possuía em Kitee essa vida maravilhosamente inquieta que tinha ali. Ela já parecia desconhecer prazeres tão simples e profundos, de tanto tempo que passara longe deles. Não importava. Por enquanto ela permaneceria ao seu lado, e cedo ou tarde ela estaria de volta, para sempre, ele sabia. Ele sabia muito bem.

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