quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Grace

Acordar naquele hospital, por mais estranho que pudesse parecer, era muito melhor do que acordar em "casa", onde ela nunca se sentira, de fato, em casa. Estava sozinha no quarto e, apesar de estar dolorida, sentia-se em paz. Reconhecia aquelas paredes e as vozes baixas falando rapidamente em inglês ali perto, com aquele sotaque inconfundível e adorável. Quando a porta abriu-se, as lágrimas foram quase inevitáveis: era ela a sua médica, aquele anjo que sempre lhe dera força. Sorriu como não fazia há anos ao ver aqueles olhos verde-azulados, aqueles lábios desenhados, os cabelos castanhos quase loiros, o sorriso terno e levemente tímido. Ainda podia ver tristeza nos olhos dela, mas parecia que a dor já não permanecia num nível oito, talvez até mesmo houvesse baixado para sete, seis e meio sendo otimista. Ela podia ser a paciente ali, mas ela preocupava-se era com a médica, e não consigo própia.
Por sua vez, a médica podia perceber uma certa familiaridade com a jovem ali, mas não sabia de onde isso nascia. Só sabia que havia bastado um olhar para que gostasse dela, quisesse cuidar dela com especial dedicação. Explicou-lhe sua situação de saúde sentindo-se tranquila, ou melhor, estranhamente, não se sentindo sozinha. Era isso. Algo naquele olhar brilhante e carinhoso da menina não lhe permitia nenhuma angústia. Ambas sabiam que logo a menina estaria livre para ir embora do hospital, mas não queriam se afastar. Arrumavam assuntos desnecessários, como perguntas e informações que ambas já sabiam, apenas para se manterem conversando. Mas não se deixaram, quando a menina deixou o hospital. Porque se fosse de outra maneira, não existiria chuva ou azul que as acalmasse - e elas eram danificadas demais para seguir em frente sem isso, sem a paz de estarem juntas.

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