segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mikrokosmos IX

     Depois de acordar sozinho e procurar por toda a casa, ele dirigiu-se à praia, supondo corretamente que ela estaria lá colocando os pensamentos em ordem ou apenas entregue aos seus devaneios. O amanhecer trazia um estranho e belíssimo colorido ao céu e ao mar, e ela parecia absorver toda essa rara beleza em seus brilhantes olhos castanhos. Abraçando seus joelhos, ela estava tão profundamente perdida em si mesma que levou um susto ao vê-lo por perto, mas logo correspondeu ao belo sorriso iluminando o rosto dele. Ele lhe beijou rápida e carinhosamente os lábios, sentando-se ao seu lado e passando um braço sobre os ombros nus e gelados. Mesmo sem ele dizer em voz alta, ela respondeu à sua pergunta:
    - Estranhamente, estava pensando sobre o céu, o paraíso - ela suspirou, e com um sorriso, recostou sua cabeça no ombro dele, que prontamente começou a acariciar-lhe os cabelos. O silêncio só era quebrado pelo vento e pelas ondas, e não havia o mínimo sinal de outros seres humanos em quilômetros. Eles amavam essa paz e essa imensidão: sentiam-se praticamente imortais ali. - Talvez seja algo como exatamente isso: você sorrindo, uma praia segura e completamente isolada. Ou talvez o fundo do oceano, sem tubarões, é claro - os dois riram. - Ou talvez...Alguma floresta de Kitee, na primeira manhã de neve do ano...Você me carregando nos ombros e eu balaçando os galhos das árvores para derrubar neve sobre você, que ao invés de ficar bravo ri ainda mais do que eu...Assim como fizemos esse ano, lembra?
    Ela sobressaltou-se ao ouví-lo fungar e sorriu ao ver que lágrimas escorriam dos intensos olhos cinzentos que, envergonhados, olhavam para o mar calmo. Abraçou-o fortemente contra si, o que fez com que ele não conseguisse mais disfarçar sua comoção. Tranquilamente, ela o manteve em seus braços, acariciando seus cabelos e beijando-o esporadicamente, exatamente como ele fazia com ela para acalmá-la. Depois de vários minutos, um pouco recomposto, ele falou, ainda com a voz embargada:
    - É só que...Imagino o mesmo que você, com exatidão. Nós dois aqui...Ou talvez em Kitee, sob a primeira neve do ano...Talvez nós dois ainda crianças, brincando livremente por toda essa praia, crianças diferentes das que nós fomos: crianças felizes e livres. Posso imaginá-la perfeitamente com aquele vestidinho vermelho da foto que você me deu, rindo, seu cabelo bagunçado pelo vento, aquele brilho inteligente e triste em seus olhos...
    Ele suspirou, parecendo não poder continuar. Olhou-a sorrindo, como se quisesse memorizar cada detalhe de seu rosto. Ela respirou fundo, olhando-o séria e intensamente, como se quisesse atestar a veracidade de tudo aquilo. Depois de um momento, pareceu satisfeita e beijou-o nos lábios, puxando-o para si com uma saudade inexplicável.
    - Talvez esse seja mesmo o paraíso - sussurrou ele, onde eles eram eternos.

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