Sei lá, por um tempos nós achamos que tu voltaria, assim, numa boa, como tu sempre fazia. Aquela tua blusinha florida que tu usava quase mostrando os seios, aquele teu sorriso que desviava a atenção de qualquer outra coisa, nossa, teus entusiasmos malucos eram maravilhosos, porque tu era linda daquele jeito, dançando Velvet Underground na cozinha e rindo do que estressava todo mundo. Aí tu leu aquele ensaio do Artur Távola e chegou toda apaixonada, querendo fazer amor com todo mundo - era assim, tu brilhava por aí, lia na grama, viajava e não se preocupava muito, era bom e bonito assim. Lembra dos sábados com incenso e cigarro, só? A gente conversava por horas, falava merda mesmo mas às vezes saía coisa boa, como aquele teu trabalho de sociologia que saiu das nossas teorias de sábado - e lembra daquela vez que falamos em quanto era besteira pra nós todo aquele negócio de relaxamento e tudo mais, aí começamos a compor uns mantras estranhos e ficamos quase sem ar de tanto rir? Essa era a guria que tu era, assim, simples e bonita mesmo, sem grandes problemas. Teus olhos são intensos e combinam com a tua boca que combina com todo o resto, e isso bastava, deveria bastar.
Lembro que quando tu chegou, pela primeira vez, tu tava perdida, sem rumo. Aí a gente te deu abrigo, colocou umas saias legais, tirou tua roupa, te mostrou Aguaturbia e um montão de girassóis, um campo só deles, e tudo ficou bem. Ainda não entendo e acho que nunca vou entender porque tu não pode ficar, mas tudo bem. Sei que o mundo lá fora é grande também, e que grandes coisas podem e talvez até mesmo devem ser feitas, mas será que vale a pena mesmo? Os anos podem passar rápido, mas os dias jamais. Estamos vivendo cada segundo, e por que agonizá-los? Não é muito melhor passarmos horas apenas nos olhando nos olhos, porque nos amamos, sem complicação alguma? A grandeza e a burocracia podem trazer grandes coisas, mas traz grandes bostas junto e acho que tu não foi feita pra isso. Vem aqui pra casa, coloca uma roupa mais solta ou nem coloca, vou encher a casa de incensos, colocar um bom Love pra tocar e vamos ouvir Arthur Lee e rir dessas merdas todas. A gente sabe bem que as coisas não tem que ser tão pesadas, que pode ter riso e alegria também, pode ter amor e paz mesmo num cotidiano tão sem graça e sem música como o que geralmente temos. Lembra que as obrigações do dia não duram 24 horas, e que tu pode chegar em casa e sorrir pra mim e largar tudo, só por algumas horas. Vem aqui, fica quietinha e respira fundo. Tu tá bem, mesmo aí longe, eu sei, mas vem pra cá, é diferente e mais feliz. Te amo, bosta.
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