desilusão
A chuva era fina e irritante, com uma ventania boa. Não é que não houvesse dor ou angústia, o problema é que simplesmente ele não sabia como deveria se sentir, como engoliria tudo aquilo. Não via um "depois", sequer conseguia se imaginar ao entardecer daquela tarde fria. Não conseguia pensar, não conseguia se dar por conta que, repentinamente, aquele que sempre fora o seu ideal mais alto, o modelo de perfeição, fosse igual ou pior do que todo mundo. Em meses, toda a esperança, toda a força se resumiam aos sonhos de um dia tê-lo por perto, porque assim é que era para ser. Mas algumas palavras podem acabar com absolutamente tudo, destruir um mundo inteiro, um mundo seguro e belo - que já não existia mais, ou melhor, jamais poderia existir.
Seus cabelos longos eram fustigados pelo vento, suas pernas se moviam automaticamente e completamente sem rumo. Nada fazia sentido, simplesmente não podia fazer. Fumava sem sentir, assim como caminhava sem saber que horas eram ou para onde iria agora. Não podia voltar para aquele apartamento que fora muito mais do que a sua casa pelos últimos meses, não passaria mais as madrugadas perdido nos olhos dele, em suas pernas, seus pelos, tudo simplesmente havia se desintegrado. Por horas, ele se sentou num banco e ficou olhando um arbusto sem realmente vê-lo. Ninguém mais conseguiria tirá-lo de casa e fazer com que ele jamais quisesse voltar, ninguém mergulharia em filosofia e música com ele daquela forma. Mas as máscaras se desintegram na chuva. Ele se levantou, colocou o sobretudo e pegou seu livro, como se estivesse indo embora da vida dele. A desilusão havia chegado, destruído tudo. Mas o que ele não imaginava é que ela só estava começando, e ele mesmo assim não iria embora - porque ele era a mentira mais bela em sua vida.
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