quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mikrokosmos XXXVIII

    - "...o pranto exausto, aliviado, de uma criança que ficara perdida durante tempo demais, sofrera muito e finalmente estava mais uma vez em segurança."
    - Por que você está citando Stephen King? - perguntou ela sorrindo, levantando-se da cama para ir olhar as fotos que ele estava arrumando. Ele não respondeu, apenas lhe entregou a foto que tinha em sua mão.
    No verso da foto, na caligrafia dela, estava o trecho que ele acabara de ler. Ela virou a foto, mas isso era desnecessário: lembrava-se perfeitamente que havia escrito isso atrás da foto que fora tirada na primeira noite em que saíram como, oficialmente, namorados. Ela estava com os cabelos presos e ele a abraçava forte; ela sorria mais com os olhos do que com a boca, como de costume, ambos com casacos pretos e pesados de inverno. Ainda que houvessem se passado anos desde que a foto fora tirada, e mais alguns desde que ela transcrevera o trecho d'As Terras Devastadas no verso da foto, ela ainda se sentia da mesma forma. Obviamente, estava mais habituada à segurança agora, mas ainda não sabia o que fazer quando algo, por menor que fosse, dava errado e a possibilidade de perdê-lo se tornava real. Ele a ajudara a se recompor, a ter uma razão para viver por si própria outra vez, porém sem tê-lo por perto, toda a estabilidade, toda a possível beleza e poesia se esvairia num átimo.
    Aproximando-se, ele a perscrutava em silêncio, uma pergunta muda em seus olhos, que não queriam acreditar, tampouco compreender a extensão do que havia lido. Num súbito lampejo de compreensão, ele disse:
    - Eu prometi que cuidaria de você, lembra? Prometi que não te deixaria cair outra vez e...
    Ela concordava com a cabeça, tentando disfarçar o quão nua se sentia naquele instante, quando seus medos e seus sentimentos mais bem guardados pareciam vir à tona por uma simples transcrição. Ela abriu e fechou a boca, entretanto não possuía palavras, simplesmente não possuía. Deixou que ele a abraçasse por um longo tempo e então, sem perceber, sussurrou:
    - Roland...
    Ele parou de acariciar os cabelos dela, surpreso, e a olhou. Podia ver nela uma criança tão perdida o quanto Jake, mas tão determinada em seguir em frente o quanto ele. Comovido por lembrar-se como, apesar de possuírem formas diferentes, o amor deles se assemelhava com o de Jake e de Roland, ele lhe afastou os cabelos do rosto com cuidado, sussurrando outra vez:
    - Eu nunca vou te deixar cair. Nunca mais.
    E ela soube que ele dizia a verdade. Era ka-tet, só podia ser ka-tet. Por um longo tempo ele continuou ali, apenas a abraçá-la e acariciar a filha deles, ainda dentro da barriga dela. Nenhum dos dois poderia ter jamais realmente pensado que tudo fosse acabar daquele modo, no entanto daquele modo tudo estava, e era assim que deveria ser. Wyrd bið ful aræd.

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