Olhando a avenida através das janelas da melhor cafeteria da cidade, era difícil querer sair dali. O dia muito frio e chuvoso dava um ar muito belo à cidade, como se tudo estivesse em seu devido lugar. Porém, demorariam anos até que ela pudesse sentir as coisas dessa forma outra vez.
Em dias chuvosos como aquele, eles gostavam de fumar mais do que o habitual, e o café preto, sem açúcar, era mais gostoso. A voz de Robert Smith adequava-se perfeitamente ao apartamento que permanecia, de resto, silencioso, exceto pelo delicado ruído de uma página sendo virada ou do papel sendo escrito. E nesse mesmo silêncio, o súbito gesto de carinho que se transformava em volúpia, durando a tarde inteira. Ou pelo menos era essa a vida que ele havia lhe prometido, dia após dia, por um ano inteiro.
Violência. Cocaína, álcool, selvageria, rompimento. A pele dela, clara, sob as roupas íntimas vermelhas que, nada originalmente, enlouqueciam-no e a deixavam ainda mais indefesa, perdida, tentando sempre compreender o menino que havia por trás do homem maduro, tentando lembrar da beleza dos olhos verdes sóbrios. Conseguia e então, só por mais um outro dia, esperaria que as coisas melhorassem. Inutilmente.
Apesar de todos os atos abomináveis, era muito difícil partir. Agora ela estava mais próxima; o apartamento era a poucas quadras dali e uma caixa para colocar as suas coisas a esperava na sala, provavelmente sobre o sofá, perto da janela. Perto da claridade, onde ela gostava de estudar e criar, sabendo que poderia contar com a leitura crítica, porém cheia de incentivo, dele. A leitura atenciosa, com correção de trechos, sugestões bibliográficas e elogios ao lado de trechos destacados. O olhar atencioso que lhe ouvia as dúvidas e respondia mais do que ela perguntava, ensinando-lhe o melhor possível, dando-lhe esperança de realizar grandes feitos.
Mas não sem ele. Nunca sem ele. Mesmo sabendo que agora já não perderia noites se preocupando com sua saúde ou sua localização, ela sabia que a separação também teria um vasto efeito sobre seu crescimento, afinal, apesar da diferença de idade, eles não iriam crescer juntos? Para onde iam os artigos e livros não escritos, a filha que nunca tiveram, o casamento nunca celebrado? Felizes dos casais que passavam pela rua sem nem notar a cafeteria, sem jamais se perguntarem para onde as coisas não feitas vão. Por isso doía. Doía, e era ainda pior porque ela não havia aprendido a odiar.
Levantou-se de súbito, pegando seu sobretudo e juntando um sorriso não se sabe de onde para agradecer à atendente do caixa. Vestiu o sobretudo preto e apertou o passo por causa da insistente garoa. Em menos de cinco minutos, quase sem sentir, ela chegava ao prédio. E tinha de subir.
Ao contrário do que imaginava, as suas coisas já estavam cuidadosamente organizadas dentro da caixa, as roupas e livros cabendo quase perfeitamente, tornando as coisas mais fáceis. Tranquila, ela pegou a caixa do sofá e já ia saindo, quando repentinamente avistou uma nesga de tecido azul claro entre as suas roupas. Largando a caixa novamente, desorganizou-a para confirmar o que já sabia. A camiseta azul que já era mais dela do que dele estava ali, cuidadosamente lavada, passada e dobrada. Num gesto automático, começou a levá-la ao nariz para sentir o cheiro, mas parou um instante antes. Se sentisse aquele cheiro, sentaria no sofá e o esperaria até o amanhecer. Então, num ataque de pânico e clareza que surpreendeu a si própria, ela dobrou cuidadosamente a camiseta e a pousou sobre o sofá. Sem um último olhar que fosse, ela pegou a caixa e desceu as escadas correndo, parando sem fôlego a quadras dali. Para onde ir?
(Escrito em 13/03/2012 - 10:38 p.m.)
Em dias chuvosos como aquele, eles gostavam de fumar mais do que o habitual, e o café preto, sem açúcar, era mais gostoso. A voz de Robert Smith adequava-se perfeitamente ao apartamento que permanecia, de resto, silencioso, exceto pelo delicado ruído de uma página sendo virada ou do papel sendo escrito. E nesse mesmo silêncio, o súbito gesto de carinho que se transformava em volúpia, durando a tarde inteira. Ou pelo menos era essa a vida que ele havia lhe prometido, dia após dia, por um ano inteiro.
Violência. Cocaína, álcool, selvageria, rompimento. A pele dela, clara, sob as roupas íntimas vermelhas que, nada originalmente, enlouqueciam-no e a deixavam ainda mais indefesa, perdida, tentando sempre compreender o menino que havia por trás do homem maduro, tentando lembrar da beleza dos olhos verdes sóbrios. Conseguia e então, só por mais um outro dia, esperaria que as coisas melhorassem. Inutilmente.
Apesar de todos os atos abomináveis, era muito difícil partir. Agora ela estava mais próxima; o apartamento era a poucas quadras dali e uma caixa para colocar as suas coisas a esperava na sala, provavelmente sobre o sofá, perto da janela. Perto da claridade, onde ela gostava de estudar e criar, sabendo que poderia contar com a leitura crítica, porém cheia de incentivo, dele. A leitura atenciosa, com correção de trechos, sugestões bibliográficas e elogios ao lado de trechos destacados. O olhar atencioso que lhe ouvia as dúvidas e respondia mais do que ela perguntava, ensinando-lhe o melhor possível, dando-lhe esperança de realizar grandes feitos.
Mas não sem ele. Nunca sem ele. Mesmo sabendo que agora já não perderia noites se preocupando com sua saúde ou sua localização, ela sabia que a separação também teria um vasto efeito sobre seu crescimento, afinal, apesar da diferença de idade, eles não iriam crescer juntos? Para onde iam os artigos e livros não escritos, a filha que nunca tiveram, o casamento nunca celebrado? Felizes dos casais que passavam pela rua sem nem notar a cafeteria, sem jamais se perguntarem para onde as coisas não feitas vão. Por isso doía. Doía, e era ainda pior porque ela não havia aprendido a odiar.
Levantou-se de súbito, pegando seu sobretudo e juntando um sorriso não se sabe de onde para agradecer à atendente do caixa. Vestiu o sobretudo preto e apertou o passo por causa da insistente garoa. Em menos de cinco minutos, quase sem sentir, ela chegava ao prédio. E tinha de subir.
Ao contrário do que imaginava, as suas coisas já estavam cuidadosamente organizadas dentro da caixa, as roupas e livros cabendo quase perfeitamente, tornando as coisas mais fáceis. Tranquila, ela pegou a caixa do sofá e já ia saindo, quando repentinamente avistou uma nesga de tecido azul claro entre as suas roupas. Largando a caixa novamente, desorganizou-a para confirmar o que já sabia. A camiseta azul que já era mais dela do que dele estava ali, cuidadosamente lavada, passada e dobrada. Num gesto automático, começou a levá-la ao nariz para sentir o cheiro, mas parou um instante antes. Se sentisse aquele cheiro, sentaria no sofá e o esperaria até o amanhecer. Então, num ataque de pânico e clareza que surpreendeu a si própria, ela dobrou cuidadosamente a camiseta e a pousou sobre o sofá. Sem um último olhar que fosse, ela pegou a caixa e desceu as escadas correndo, parando sem fôlego a quadras dali. Para onde ir?
(Escrito em 13/03/2012 - 10:38 p.m.)
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