Batidas
repetidas e fortes na janela a tiraram de seu devaneio. Num sobressalto, ela
correu até a janela e a abriu, para ver o rosto que mais queria ver: aquele
menininho dos olhos azuis que ela tanto gostava. A neve cobria todo lugar e o
vento era ruidoso. Ficaram olhando-se apenas, por um momento, e então ele
perguntou:
-
Quer ajuda para pular?
-
Mas você sabe que eu não posso...
-
Não existe "não posso" enquanto você estiver tão triste - ele
estendeu a mão. - Também estou triste, venha por mim.
A
menininha subiu na janela e, tentando ser o mais silenciosa possível, subiu na
janela e segurou a mão que ele lhe estendia para pular para fora. Os dois
correram por um longo tempo, até estarem sem fôlego e longe de onde poderiam
ser descobertos. As árvores estavam nuas, mas ainda eram melhores do que estar
em casa. Depois de se recomporem um pouco, ele comentou:
-
Nem acredito que farei 10 anos semana que vem.
- Eu
acredito, você é velho - disse ela, sorrindo, enquanto ele dava um meio
sorriso. - O que foi dessa vez?
- O
mesmo de sempre, e você?
-
Também, e um pouco de cansaço também. Você acha que vão sentir falta de nós?
-
Espero que não - ele se sentou num toco de árvore por perto, e ficou em
silêncio por um longo momento, olhando um ponto fixo. Ela tentava achar e
colocar as luvas que ela sabia ter em algum bolso de seu casaco.
-
Nós deveríamos fugir de verdade, ao invés de fugir por algumas horas para a
floresta.
-
Como se nós tivéssemos coragem o suficiente - resmungou ela, sentando-se ao
lado dele, já vestindo as luvas. - Não faz diferença, eu acho.
-
Não? - ele pareceu entre triste e surpreso. - Achei que você, acima de todos,
pudesse entender...
-
Entender o que?
-
Que nós não pertencemos a esse mundo. Deve haver algum lugar onde sirvam bolos
ingleses quentes e se possa dormir a noite toda, sem medo.
Ela
permaneceu em silêncio, encarando os tênis azuis dele.
-
Nós iremos, algum dia, mas ainda não.
-
Não?
Ela
confirmou com a cabeça. Ele a encarou por um longo momento, os olhos tristes e,
para surpresa de ambos, ela não se conteve e, pela primeira vez em sua vida,
abraçou-o repentina e rapidamente e o soltou - mas ele segurou a sua mão até que
ela estivesse segura em seu quarto outra vez.
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