sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mikrokosmos XLVI

    Depois de muito tempo sem vê-la, soube que a encontraria quando, antes de entrar no quarto, ouviu o som de violoncelos, a canção que ela mais gostava de todas as trilhas sonoras que eles possuíam. Abriu a porta com cuidado para não distraí-la caso ela estivesse trabalhando em alguma coisa, no entanto ela estava repousando. Apesar de estar deitada sobre o carpete, de olhos fechados, a primeira coisa que ele percebeu foi o leve movimento dos seios a cada inspiração, e isso foi a única coisa que evitou que ele corresse em desespero até ela. O vestido negro parecia se mesclar com o chão, longo, espalhado ao seu redor, mas seus cabelos, tão espalhados quanto o vestido, pareciam vivos, destoando de todo o resto. Estava de bruços, mas ele podia entrever seus seios, que pareciam maiores... E sua pele, mais branca e lisa, os lábios pintados de vermelho, tudo imaculado, suas mãos repousando perto de seu rosto como era seu costume enquanto dormia, e sua expressão concentrada. Aproximou-se, hesitando em tocá-la, tentando compreender se toda aquela súbita perfeição era realmente dela ou se ela havia simplesmente cessado de existir; só ele seria capaz de perceber as diferenças que haviam nela, e sua maior dúvida era se ela havia cessado ou apenas agora começado a existir de fato.
    Nunca antes ele havia percebido o quão triste era aquela canção, como se os violoncelos se desintegrassem aos poucos, seus pedaços voando suavemente mas em direções distintas, para jamais se reunirem outra vez. Paralisado, ele observava sua respiração rasa, temendo e desejando igualmente que ela abrisse os olhos, porque então ele saberia a verdade sobre sua existência, saberia se sua mulher ainda estava em algum lugar daquele corpo que ele conhecia tão bem. A música se repetia incessantemente e, como que hipnotizado, ele continuava a olhar tudo nela; a aliança permanecia na mão esquerda, porém até suas mãos pareciam mais brancas, intocáveis. E antes de abrir os olhos, foram as mãos que ela levou aos cabelos, virando-se e finalmente abrindo os olhos.
    - Olá - disse, simplesmente.
    Por um momento, ainda houve confusão nele. No entanto, quando o sorriso dela não se refletiu em seus olhos, que pareciam procurá-lo mesmo estando ali, ele soube que continuariam distantes por um longo tempo, mas que ela ainda existia em sua forma mais simples, a forma que ele conhecia. Porque em seus olhos ela procurava por ele, sem hesitação ou pausa, da mesma forma que há anos atrás o encontrara - e sempre encontraria.

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