terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mikrokosmos XLVII


Depois de olhar para o céu por um longo tempo, sua cabeça simplesmente baixou e, aos poucos, ela foi se desfazendo, de joelhos, vagamente consciente do som do mar e do vento. Tudo desmoronava numa profusão de cores, vozes, luzes e sombras, murmúrios, risos, ausência. Deixando que toda exaustão se esvaísse aos poucos ela permaneceu ali, pela primeira vez em muito tempo se permitindo sentir. Não estranhou ao sentir a mão grande repousar em seu ombro, nem ao sentir o calor familiar daquele corpo. Após se acalmar, ela olhou para cima, finalmente vendo a face dele, que olhava o mar profundamente. Sem coragem e muito menos voz para dizer qualquer coisa, ela se pôs de pé e se deixou repousar nos braços dele, observando as altas ondas que se formavam e se chocavam contra a pedra onde estavam.
- Bom estar aqui de novo, não?
Ela assentiu, sem olhá-lo. Respirou fundo, recostando-se nele, fechando os olhos e tentando se acalmar com aqueles cheiros tão dela. Acariciando o cabelo dela, ele a olhava repousar, engolindo tudo que girava em sua mente. Como sempre, tinha de se manter firme para ser o repouso dela, o guia e guardião. Beijou-a com calma, sustentando-na sobre a pedra. Olharam-se então, redescobrindo os traços harmoniosos e a profunda ternura que eles despertavam. Tentando evitar as lágrimas pela certeza que sentia, ele a beijou outra vez, finalmente encontrando as palavras:
- Eu sei que é difícil agora, mas nós estaremos sim aqui, no final. Você sabe disso.
- Não, eu não sei - falou ela, em pouco mais do que um sussurro. - E não quero, nesse exato momento, importar-me com isso ou com o que quer que seja. Isso é tudo o que eu preciso.
Aos poucos, ambos foram se acalmando, permanecendo em silêncio onde pertenciam. Era melhor não pensar mesmo em nada; reencontraram aquele lugar, aquele silêncio cheio de som, e mesmo que jamais o encontrassem outra vez, aquela era uma paz - a única que eles precisavam.

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