sábado, 12 de maio de 2012

Mikrokosmos XLIV

    Conduzindo-a gentilmente, ele abriu a porta da biblioteca, mas não ligou a luz. Muito séria, ela observava tudo ao seu redor, olhando verdadeiramente para aquele lugar pela primeira vez em quase dois anos. Não se moveu de perto dele, tampouco disse alguma coisa. Ficou apenas observando silenciosamente as estantes intermináveis na penumbra.
    - Você pode explorar o quanto quiser, ou melhor, você deve. Eu construí esse lugar para você, é desnecessário temer qualquer coisa.
    Ela respirou fundo, ainda sem se mover. Os olhos, porém, moviam-se famintos pelas estantes, como se não vissem livros há muito tempo. Hesitante, ela deu um passo e fez um gesto vago com a mão, como se não soubesse se teria força para pegar um livro ou não soubesse se deveria.
    - Você nunca será capaz de confiar em mim, não é mesmo?
    Fechando os olhos, ela assentiu, de costas para ele, que estendeu uma mão para tocar-lhe no ombro, mas parou um instante antes de tocá-la. Era como se ele fosse tocar um animal ferido, e este fosse incapaz de perceber que ele queria curá-lo. Pensativo, ele ficou por um longo tempo observando-a, enquanto ela permanecia muito calada, talvez até mesmo de olhos fechados. Naquela penumbra, os cabelos dela pareciam escuros, uma cortina sobre as costas que ele não podia tocar. Afastou-se então, para tentar tornar as coisas mais fáceis, e se sentou à mesa.
    - Não importa o que acontecer, este lugar é seu. Você deveria saber e acreditar nisso.
    Ela se virou e o encarou. Apesar de sua profunda empatia, ele não conseguia enxergar nada além de medo e dor naquele olhar que ele parecia conhecer tão bem. Aos poucos, ele se aproximou novamente, parando à uma distância segura, esperando. Depois de desviar o olhar algumas vezes e voltar a olhá-lo, ela se decidiu por um título que ele não pôde ver e saiu da biblioteca. Calado, sem saber o que pensar, ele permaneceu em pé, olhando para o nada, incapaz de sentir qualquer coisa, até ser despertado de seu torpor por ela.
    - Você não vem para a cama?

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