A manhã estava tão nublada que nem sequer uma réstia de sol ousava aparecer, mesmo que momentaneamente. Do terraço do prédio era possível ver muito bem Nova York, todos os prédios, os carros, a "cidade que nunca dorme" em pleno funcionamento. Era estranho não estar no meio de toda essa atividade, já era dez da manhã, mas hoje ela não podia participar de nada. Absolutamente nada.
Sentada na cadeira de rodas ela observava apática a movimentação lá embaixo. Ainda vestia seu pijama do Pateta, seu rosto manchado de lágrimas, o rosto estranhamente afinado pelos quilos que havia perdido na última semana. Num momento, tudo estava perfeitamente bem, e no instante seguinte - um carro! E nada mais será o mesmo. Ambulância, dor, vozes, sapato perdido, cabelo desarrumado, sangue. E o compromisso inadiável cancelado.
As perguntas eram muitas agora. Depois do tempo de licença, ela ainda teria o seu emprego? Seu corpo ainda seria tão belo o quanto antes? As toneladas de trabalho atrasado ficariam todas para ela realizar? E seus amigos, eles continuariam a amá-la como sempre ou de agora em diante teriam sempre esse olhar de pena? Ela sabia que toda a sua vida mudaria agora, mas ela estava tão cansada, tão triste para pensar nessas coisas todas... Era melhor ficar apenas olhando a cidade se mover, como se nada houvesse acontecido, como se essa fosse só mais uma manhã nublada em Nova York e ela, ao invés de estar se recuperando, estivesse tirando uma folga do trabalho, e pudesse mais tarde tomar um banho, se arrumar e sair, fosse para o que fosse.
Porém, por mais cedo que fosse, ela já via Nova York como uma cidade morta, imagem escurecida da vida que ela já não podia ter. Seu telefone tocou, perguntaram se ela estava bem, é claro que sim. Não havia dúvidas, ela havia morrido naquele acidente, tudo estava bem.
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