Que ninguém escolhe nascer, isso é fato. Mas pelo menos nos foi dada, supostamente a possibilidade de escolher como viver as nossas vidas. E, dentro dessas inúmeras possibilidades dentre as quais podemos escolher, existe a de não mais viver, ou suicidar-se, o que é considerado covardia pela maioria das pessoas. Mas ninguém nunca pensou na força que se tem de ter para fazer isso.
Não estou de forma alguma aqui querendo fazer uma apologia ao suicídio, muito menos encorajar alguém a fazê-lo, porém quero tentar abrir os olhos para aqueles que condenam friamente sem pensar um pouco mais a respeito daqueles que o cometem. Num primeiro momento, pode parecer fácil a ideia de se matar, porque então a pessoa simplesmente estaria desistindo de tudo, "dando para trás". Mas essa desistência não é tão simples o quanto parece.
Em primeiro lugar, por mais solitária que a pessoa seja, sempre existe alguém que se importe com ela. Mesmo que seja apenas uma avó beirando os 90 anos, mesmo que sejam apenas poucas pessoas próximas, sempre tem. E pensar em causar um sofrimento tão grande que pode ser a perda de uma pessoa querida nelas não é fácil. Mesmo que se saiba que não existe culpa após a morte, isso já deixa a pessoa extremamente preocupada. Depois vem todos os planos, todas as boas possibilidades: e se o amanhã fosse o dia que tanto havia sido esperado? E se no ano que vem as coisas se transformarem? Às vezes, para piorar, podem vir boas lembranças e a consciência de que outras igualmente boas ou até melhores podem vir com o futuro.
Desistir de todas as boas possibilidades é extremamente difícil, assim como qualquer outra desistência é difícil. É difícil até mesmo sair da segurança do própio casulo para ser amado, para ser verdadeiramente feliz, às vezes por medo de sofrer, outras por medo de se entregar por inteiro - e por vezes até mesmo ambos os temores. Desistência e entrega são separadas por uma linha tênue, e é necessária uma coragem extrema para ambos os atos, ainda mais quando já se tem traumas de entregas e desistências que causaram sofrimento.
O suicídio me parece a maior das entregas - entregar todas as possibilidades, as lembranças, enfim, tudo, literalmente. É desistir de tudo que é bom e bonito, desistir da risada verdadeira, do abraço, dos livros, das canções, dos olhares, das lembranças, e mais importante, de todo e qualquer "talvez". É desistir de todo plano, todo sonho que já se teve, toda possibilidade de dias melhores.
Tem gente que não sabe se entregar ao amor, ao carinho, à felicidade, à dor, enfim, a tudo que possa exigir qualquer tipo de entrega. Por isso aqui fica registrada minha profunda admiração e minha parabenização para todos aqueles que conseguem se entregar mesmo (e principalmente) com medo, mesmo que seja tão terrivelmente difícil. A entrega sempre pode ser um começo, e ele é sempre a parte mais difícil - mas vale a pena. Porque sempre resta uma lembrança bonita, um sorriso no rosto. E aí deve residir toda a coragem para as entregas futuras.
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