sábado, 18 de setembro de 2010

Sonho de uma noite de inverno

    Ao que tudo indicava, aquela seria apenas mais uma noite solitária. Ele preparou uma xícara de café, acendeu seu cigarro e se resolveu por reler O Senhor dos Anéis, já que não sentia sono algum. Sentou-se em sua confortável poltrona de leitura e, antes de abrir o pesado livro que continha os três volumes juntos, olhou pela janela e se encantou: era a primeira neve do ano. Sorriu involuntariamente e, largando o livro, foi debruçar-se sobre o parapeito para olhar a noite sem estrelas e a neve que caía. Desde pequeno, sempre adorara a neve e agora, mesmo que estivesse sofrendo, ela lhe trazia um conforto inexplicável, mesmo que trouxesse lembranças magníficas e dolorosas. Sem conseguir evitar a dor, lembrou-se de brincar com ela na neve, no encantamento que havia nos olhos castanhos que pela primeira vez viam a neve. Ela tinha um sorriso inocente, uma pureza inigualável, que era confirmada pela forma que seus olhos tinham de brilhar. Lembrava-se do quão encantada ela ficara em poder ter uma família ali, poder ter abrigo, e quanto medo ela tinha em ser amada por ele, em permitir-se a entrega profunda a ele. Sentia tanto medo que fugira, que desistira dos belíssimos sonhos que haviam tido juntos, da vida maravilhosa que poderiam ter. Tudo pelo medo da dor, pelo medo do desespero da perda depois.
    Sem que pudesse evitar, lágrimas corriam pelo seu rosto. Não importava: ele era um homem sensível e isso não o fazia menos homem, muito pelo contrário, tornava sua vida muito mais difícil. Mas o fato é que ela sabia compreender sua sensibilidade e parecia sofrer das mesmas dores, da mesma doçura inexplicável de alma, da mesma inocência e pureza de sentimentos. Eles haviam sonhado juntos e ela tinha medo. Agora ela havia ido embora e estava desabando, mas mesmo assim não voltava. Ela não podia perceber que, o ponto onde poderiam escolher entre ficar juntos ou se afastarem sem sofrer já havia passado? Que a tênue ruptura já havia acontecido em algum momento? No fundo, ela deveria saber, mas não admitia. Não até não poder suportar a dor, era a esperança dele. Por mais cruel que pudesse ser, ele esperava que a dor mostrasse a ela que depois de tudo o que haviam sonhado, o único possível caminho para serem felizes era tentando realizar todos os sonhos juntos, era vivendo aquele amor que ambos sentiam e só se fazia impossível pelo temor.
    Esses pensamentos todos eram-lhe insuportáveis, então ele voltou a se sentar, apagando o cigarro, largando a xícara já quase vazia de café e massageando as fontes por um longo momento, fechando os olhos, respirando profundamente. Tudo isso já causara dor demais, mas ele simplesmente não conseguia deixar tudo de lado. Ele havia construído uma vida sozinho, mas sua perspectiva mudara quando ela chegou, quieta e perdida, mas com um brilho diferente no olhar. Ela despertava algo até então desconhecido nele, ele queria protegê-la, amá-la profundamente, tê-la sempre ao seu lado, evitar todo e qualquer desapontamento naquele rosto tão jovem, porém já com tanta dor por trás dos escuros olhos. Ela não fazia esforço algum para disfarçar a enorme admiração que sentia por ele, ela era doce e se entregava a ele pelo olhar, pelos gestos carinhosos, pelas palavras gentis. Repentinamente, ele se deu por conta outra vez do quanto a simples presença dela fazia falta, e do quanto isso o aniquilava. Por que tinha de amá-la tão profundamente? Ambos nunca quiseram algo assim, mas as proporções aos poucos se tornaram assustadoramente gigantescas. E agora, tudo doía.
    Ele acendeu outro cigarro e começou a ler: os livros eram seu único consolo. Lendo, por vezes ele conseguia se esquecer de si próprio e então se tornava mais fácil viver por um momento. Mas logo qualquer palavra, qualquer personagem lembrava-o dela. E então toda paz construída era destruída.
    Pelo menos, naquela noite ele fizera uma boa escolha. O livro conseguiu distraí-lo completamente, e já fazia mais de hora que ele estava lendo, quando a campainha tocou. Irritado por ser interrompido, ele se levantou e rabugento foi atender a porta, afinal, que pessoa teria tal falta de educação de procurá-lo na madrugada? Abriu a porta de cara fechada, mas o choque foi tanto que ele quase caiu para trás: com olheiras, mais magra, extremamente pálida e com neve por toda a roupa e cabelos, ali estava ela, os olhos brilhando de lágrimas, mordendo o lábio inferior num gesto infantil de dor, mas que era tão próprio dela que ele o amava. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, enquanto ele a olhava, estupefato, mas não foi capaz de dizer nada. Ele podia ouvir a respiração dela arfante, que logo se misturou com o som da sua própria. Seus olhos cinzentos de lobo então transbordaram e, sem pensar, ele a puxou contra si como se se abraçasse à sua própria vida. Permitiram-se então chorar sem medo nem vergonha: amavam-se. Ambos não tinham coragem de se beijar, de se mover, mal podiam respirar, tinham medo de que aquele fosse apenas mais um sonho de que enfim pudessem ficar juntos. Mas não era. No fundo, eles sabiam que haviam chegado ao limite da resistência, quase ao limite da loucura. Precisavam um do outro simplesmente porque se amavam. Então, com um riso que se misturava ao choro, eles se afastaram para se olhar nos olhos, para sorrirem verdadeiramente como jamais antes souberam fazer. Ele acariciou levemente o rosto dela, e ambos sabiam perfeitamente bem, qualquer um saberia o que estava prestes a acontecer. Ambos souberam então, profundamente, que o momento pelo qual esperaram e temeram por anos havia finalmente chegado. E os lábios finalmente se encontraram – e tudo mais deixou de existir.

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