"Uma vez, aliás , agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: “e essa agora? Que devo fazer?”. Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada."
Clarice Lispector – Uma Esperança (Conto)
Fingindo arrumar seus papéis, ela esperava que ele se sentasse na cadeira defronte. Não esperavam nada e mesmo assim estavam ansiosos, sempre tinham esse receio e esse desejo de estarem juntos. Ele já chega sorrindo, já chega pousando seus belos olhos brilhantes sobre ela, e os sorrisos de ambos são inevitáveis. Olham-se nos olhos com tanto amor que é quase um desperdício apenas olhar. Mas permanecem em silêncio, sorrindo, se olhando. Como talvez sempre devessem ter permanecido.
Estranha e felizmente, as horas iam passando mas a luminosidade não mudava. O sol incidia sobre ambos e davam um brilho, um tom diferente aos olhos verdes dele. Os olhos brilhavam mais sob essa luz, e ela se alegrava. Era uma manhã de paz, a brisa acalmava ambos e a claridade era agradável. Nada mais existia, exceto pelos olhos que se amavam em silêncio. Tudo mais era superflúo - inclusive o passado.
Por um momento, ela parou de ler para tomar um gole de seu café e olhar outra vez nos olhos verdes. Mentiras, verdades, silêncios, dificuldades, sonhos - que diferença isso tudo fazia agora? Mesmo as pessoas que estavam nas mesas ao redor pareciam estar envolvidas na mesma paz alegre, na mesma tranquilidade satisfeita deles. Sabia que aqueles grandes olhos que a olhavam com tanto brilho haviam sido sinceros, mas não sabia o que fazer. O menor ato poderia ter implicações catastróficas - e ela tinha medo.
Lembrou-se então de outros tempos. De outras manhãs onde ele era a própia claridade perfeita, onde ela se permitia amá-lo sem medo, pois amava sem saber. Seria amor a palavra? Não sabia, mas sabia que havia afeto e carinho. E nessas outras manhãs ela lembrava bem que por vezes, era ele que se perdia nela e era inexplicável. Então ela, mesmo sem perceber, tinha uma esperança leve, tinha uma alegria a mais, tinha mais sorrisos para seu dia. Era uma esperança tão delicada e tão pequena que ela nem ousava formulá-la em palavras, não tentava racionalizá-la, pensar o que poderia significar, não ousava sonhar de fato com o que poderia acontecer, pois não queria perdê-la. E talvez, de fato, jamais viesse a perder.
Mas um dia as coisas mudaram - ou teria sido gradualmente? Sim, provavelmente foi aos poucos que tudo fluiu, a cada olhar, cada palavra trocada, aos pouquinhos ele existia mais nela e vice-versa, e junto com tudo isso a esperança. Algo de inexplicavelmente bom e totalmente inominável de tão novo crescia rápida e silenciosamente dentro dela, e era maravilhoso, era quase um desabrochar, que provavelmente era daquela esperança tão pequena e delicada por fim se desenvolvendo gigantesca e livre. Mas então um pequeno ato mudou tudo, uma madrugada de conversa franca mudou tudo, aumentou o que já crescia e trouxe mais brilho para os olhares. Mas acabou por quase destruir tudo.
Agora a paz parecia haver voltado para ambos. Era difícil, mas de alguma forma a vida seguia em frente e eles sempre estavam ali, sentados um defronte do outro, às vezes sorrindo em silêncio, às vezes apenas se olhando, e nesse ato mesmo que sem querer, entregando-se um ao outro. Era maravilhosamente bom outra vez, apesar de todo e qualquer apesar.
O problema era que aquela manhã era perfeita demais - o dourado da luz solar, a brisa refrescante, as belas palavras, os risos que ameaçavam encher a cafeteria: outra vez eles eram um do outro sem que se dessem por conta. Tudo parecia dizer para que ela consumasse o ato, mesmo que ela própia considerasse que tudo já havia sido feito e dito. Olhou então para os brilhantes olhos verdes que já a olhavam. Respirou fundo, tomou coragem e permaneceu em silêncio. Era um dia perfeito demais para poder ser estragado por qualquer palavra errada, por qualquer esperança grandiosa em demasia. Ambos sorriram e coraram, e ela teve certeza que jamais se arrependeria de ter dito sim a ele um dia. Porque sim, ela estava à mercê de qualquer ato, qualquer palavra, qualquer brilho de olhar. Mas nada aconteceria, nada jamais acontecia. Então o ato se tornava o amor trocado em silêncio, os olhos brilhando inexplicáveis. E os sorrisos tímidos que por si só já eram um ato de amor.
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