sábado, 11 de setembro de 2010

Mariana

- O... papai... está... muito velho para isso! - arfava ele, levando a pequena nas costas, fazendo-a rir. Eles já estavam quase no corredor quando a pequena olhou para a mãe que permanecera no sofá com seu livro, dizendo:
- Mas mamãe, hoje não é dia de você me contar histórias antes de dormir?
- Você tem razão, meu bem - disse a mãe, levantando-se deixando o livro de lado.
- Traz seu livro mamãe!
- Mas filha... - ela hesitou, olhando para o livro. Era uma seleção de contos de Clarice Lispector, era adaptável à filha. Pegou o livro então enquanto ele corria com a menina nas costas, falando que a havia sequestrado por aquela noite, fazendo a menina rir. A mãe balançou a cabeça dando um sorriso tímido, que era sua forma de rir por dentro. Era tão feliz que às vezes tentava se esquecer de tudo que tinha só para se surpreender com uma realidade tão perfeita. E sorria com os olhos, sempre.
Entrou no quarto já lembrando do quão parecido com um sonho tudo aquilo era. A menina já estava na cama e ele ainda a fazia rir, como sempre. Observou os dois, tão cúmplices e tão profundamente parecidos. Temera que o supostamente inevitável acontecesse: que a filha fosse mais apegada a um dos dois, mas ela parecia ser uma exceção. Amava-os sem distinção, e isso os encantava ainda mais.
Ao ver que ela estava na porta, ele beijou carinhosamente a filha no topo da cabeça e, ao passar pela mulher, afagou-lhe os cabelos, dizendo:
- Vou permitir que as mulheres que dão beleza e sentido à minha existência fiquem a sós - ele sorriu e beijou a mulher no rosto antes de finalmente se retirar. - Estarei lendo na sala, como sempre.
As duas trocaram um sorriso cúmplice e a mãe foi sentar na poltrona ao lado da cama da filha.
- O que vai ser hoje, moça?
- Bem, eu tinha pensado em algum conto do seu livro mas... - ela franzia o cenho exatamente da mesma forma que seu pai fazia. Já não bastasse ter herdado seus brilhantes olhos verdes, tinha também suas feições, suas maneiras. - eu estive pensando mamãe, por que diabos eu me chamo Mariana? Com tantos nomes bonitos nesse mundo, com você e papai sempre lendo livros com personagens de nomes incríveis... Por que Mariana? Qualquer pessoa por aí coloca um nome desses. Vocês dois poderiam ter me chamado de tantos outros nomes tãão mais bonitos!
Mariana bufou e sua mãe riu. Ela era uma mistura tão perfeita dos dois que ela nunca teve dúvidas de que esse era o nome perfeito.
- Bem, você não vai gostar de ouvir, meu amor - disse a mãe, já rindo. - É longa história, mas pode ser resumida se você ouvir uma só música.
- Qual?
- Ana e o Mar, você deve se lembrar dessa.
- Claro mamãe, você sempre ouve essa música - disse ela, sorrindo. - Mas pelo menos é uma das que eu mais gosto. Já achei que você ia me contar uma história terrível.
- Não é terrível, não, querida, mas talvez você ache - ela observou a filha, que mantinha os olhos atentos sobre a mãe. Ela quase podia ver o mesmo brilho de outros olhos verdes ali. Sabia que se chegasse à sala agora, ele levantaria os olhos verdes do livro, iguais aos da filha. Esses detalhes, esses encontros evidentes da mistura que Mariana era dos dois, encantavam a ambos, como se fossem pequenas novas confirmações de que estavam eternamente ligados. Mas com ou sem Mariana, sempre foram ligados, no fundo sabiam disso - mas era uma alegria grande demais para que eles se permitissem acreditar.
- Bem, você se lembra da história da música, certo? - Mariana, com total atenção e interesse assentiu com a cabeça, num gesto que segundo ele, ela fazia exatamente igual à sua mãe. - Pois bem, você é Mar i ana - falou ela, pausadamente. - É toda essa mistura incrível do mar que se apaixonou por uma menina, por mais errado e impossível que seja. Você tem olhos verdes de mar e cabelos ruivos e livres de menina que ama o mar. Você é a consumação viva de um sonho, a prova viva de que o amor verdadeiro não conhece qualquer tipo de limite ou empecilho!
- Mamãe, eu nunca vi você falando tão empolgadamente assim sobre algo que não fosse filosofia, seus olhos estão brilhando e eu não quero te desapontar, mas... Isso é tão brega mamãe! Porque é óbvio que papai é o mar e você é "Ana". Eu tenho os "olhos verdes de mar" iguais aos do papai e os teus cabelos ruivos, e todo mundo vive dizendo que eu sou exatamente a mistura de vocês dois, não puxo mais pra nenhum lado. Clarice seria tão melhor mamãe, tãão melhor - disse ela, dando um muxoxo baixo e fazendo sua mãe rir. Não sabia de onde Mariana tirava tanta astúcia tendo apenas 7 anos, mas ela era perfeita. Sim, um anjo perfeito.
- Tudo bem meu amor, você tem razão - disse ela, ainda rindo. - Eu e seu pai deveríamos ter escolhido um nome melhor, como Clarice, que era mesmo uma das opções, ou Alice quem sabe?
- Hum, Alice é bom, mas ainda prefiro Clarice - disse Mariana, com seus olhos brilhando sonhadoramente. - De qualquer forma, você não se importaria de ler Alice no País das Maravilhas outra vez para mim, mamãe?
- É claro que não, meu bem - disse ela sorrindo e indo buscar o livro na estante da filha. Quando ela voltou, Mariana a olhou com apreensão e timidez em seus brilhantes olhos verdes.
- Desculpe mamãe, por ter dito que era brega essa história toda do meu nome - então, mesmo à luz do abajur, pode-se perceber que ela corou. - É só que amo vocês dois demais e tenho vergonha de dizer. Na verdade, é o maior elogio que me digam que eu sou a mistura exata de vocês dois, porque eu admiro muito vocês. Chamar-me de Mariana já é um grande elogio, mamãe.
A mãe não respondeu, dando apenas um enorme sorriso e um carinhoso beijo no topo da cabeça da filha. Leu então o livro e logo Mariana adormeceu. Ela permaneceu ali a admirar a filha adormecida: tinha seus lábios e seus cabelos, mas os olhos e o nariz dele. Tinha uma incrível mistura das manias e dos gestos de ambos, herdara também de ambos o amor pelos livros, o encantamento pela vida. Era livre e alegre como nenhum dos dois jamais fora, e isso os fazia ainda mais felizes.
- Ela é totalmente perfeita, não é mesmo? - disse ele, se juntando a ela para observarem juntos aquele ser, aquela pessoinha que era formada por uma parte de cada um deles, que os encantava dia após dia, que era um reflexo do que ambos eram.
- Sim, e ela tem razão - disse a mãe, pensativa. - É realmente brega esse negócio todo do nome dela. Por que não Clarice? Nós dois sempre gostamos e vivemos relendo os livros dela.
Ele riu, abraçando-a carinhosamente contra si enquanto iam para seu quarto. Ela sorriu no escuro, beijando demoradamente o rosto dele.
- Vocês duas não tem do que reclamar, principalmente você - começou ele, fingidamente furioso. -  Você que se escolheu se casar com um poeta velho e incorrigivelmente sensível. Eu avisei que você tinha o mundo pela frente mas você insistiu, então não reclame de minhas breguices e eu não me importo, eu vou continuar escrevendo poesias para você, mesmo que você se oponha ferozmente à isso!
Ambos riram baixinho para não acordar o sonho deles que dormia no fim do corredor, e foram para mais uma noite juntos. Para eles, não havia qualquer conceito de brega ou não: eles viviam intensamente todo e qualquer sentimento que tinham, sem se importar com tudo mais. Daí é que tiraram coragem para seguir se amando, apesar de tudo. Daí nascera Mariana - e era lindo.

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