sábado, 27 de novembro de 2010

A Sunshine

Depois de quase finalmente suicidar-se, ele saiu pelas ruas sem destino. Era um sábado à tarde, as pessoas passeavam tranquilamente pelo centro, algumas até mesmo animadas. Ele não compreendia há muito tempo como alguém podia ser feliz, afinal, ele própio nunca fora feliz e só havia piorado nos últimos cinco anos. Ele se sentou numa cafeteria, fumou um cigarro e tomou uma xícara de café, enquanto apenas observava o movimento. Fazia sol, um sol quente de junho. Tentou ficar por mais alguns instantes ali, mas estava inquieto. Queria caminhar pela bela cidade onde vivia, já que decidira por adiar sua própia morte mais uma vez. Levantou-se e saiu pelas ruas apinhadas de pessoas. 
      Depois de ter caminhado por muito tempo, chegou perto de um playground. Haviam muitas crianças brincando animadamente e, como era seu hábito, ele procurou, já sabendo ser um gesto inútil, por sua menina. É claro que não a encontrou, como sempre. Nesse playground havia uma casinha de bonecas, onde várias meninas saíam, mas ele podia ver que uma ainda estava sentada a uma mesinha. Ela tinha longos cabelos lisos e lhe parecia muito com... Mas não, certamente não poderia ser. Contrariando todo o seu pessimismo, a menininha saiu da casinha e ele mal podia respirar: era ela! Há meses não a via em lugar algum da cidade, mas ali estava ela, sua franja voando com o vento, o rostinho sério e lindo, o vestido vermelho e rodado cheio de florzinhas amarelas brilhando sob a luz do sol, contrastando com a pele branquíssima dela. Ela se sentou na varanda da casinha, apoiando sobre uma mão o delicado rosto. Os olhos castanhos perdiam-se num ponto à sua frente, numa expressão melancólica e pensativa, atípica à uma menina de apenas quatro anos como ela, mas nela isso era comum. Ele conteve as lágrimas, ela havia crescido tanto em tão pouco tempo! O problema é que sua tristeza também parecia haver crescido. Apesar de ser completamente errado, ele se aproximou dela e sentou-se ao seu lado. Ela não estranhou que um adulto se sentasse ao seu lado.
- Está tudo bem? - perguntou ele, sem poder se segurar. Não podia vê-la assim sem ao menos tentar ajudá-la.
- Uhum, tudo bem, obrigada - disse ela, olhando-o pela primeira vez. Sorriu de leve então, um sorriso tão puro e tão parecido com o seu própio que ele novamente se emocionou. - É gentileza sua perguntar. É só que não gosto muito de brincar.
- Por que não? As outras crianças não te convidaram ou algo assim?
- Não, nada disso - sorriu ela, afastando a ideia com um gesto de mão, que o fez sorrir. Ela tinha quatro anos mas falava com mais eloquência do que muitas meninas de vinte anos. - As crianças até me incomodam de tanto que me convidam para brincar. O problema é que elas são agitadas demais, eu não sou assim. Gosto de brincar de coisas mais calmas, gosto de montar quebra-cabeças, gosto de ler também. Eles quase nunca querem fazer isso e não entendem que eu não goste de correria. Mas eu já estou habituada.
- Mas isso é admirável! Você deve ser muito inteligente para gostar de ler e montar quebra-cabeças...
Ela corou e deu um sorriso tímido, satisfeito, quase escondendo o rosto com as mãos.
- Imagine... Eu só sou apaixonada por livros, só isso - o seu sorriso fechou um pouco. - Pena que não posso ler os livros que eu quero.
- Por que não? Sua mãe não os compra para você? - ele perguntou com tanta preocupação que acabou dando graças a Deus por ela ser uma criança e não perceber isso. Certamente ficaria desconfiada do fato de ele se importar tanto com ela, mas, ao invés disso, ela apenas continuou conversando com ele.
- Mamãe compra livros, mas não os que eu quero. Ela diz que Harry Potter é grande demais para mim, só vou poder ler quando eu crescer - ela disse, parecendo desolada. - Eu já cansei de assistir todos os filmes, os livros sempre são melhores. Sabe, quando ela me leva à Biblioteca, eu sempre leio uma página de Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas o avanço, infelizmente, é muito lento. Só vamos lá uma vez por semana e mamãe fica desconfiada quando eu saio da parte dos livros infantis.
Ele a observava falar, encantado. Ela contava sua história como se fosse uma mulher atravessando um grande drama em sua vida. Tinha uma dicção perfeita, falava educadamente... Ela se desenvolvera muito, e era a criança mais linda que existia, ele tinha a mais absoluta certeza. Reconhecia-se na linha que se formava entre suas sobrancelhas quando ela ficava apreensiva, nos olhinhos castanhos e brilhantes, na cor dos cabelos, no desenho dos lábios e até mesmo nos gestos. A menina era quase que uma projeção dele própio. Ele se manteve sério a despeito de sua felicidade em estar ali com ela, em vê-la daquela forma, e tentou consolá-la:
- Mas você certamente logo poderá ler todos os livros de Harry Potter, não se preocupe. Você tem alguma curiosidade em especial? Eu posso te contar o que quiser, eu já li todos muitas vezes.
Os olhos dela iluminaram-se e ela sorriu, completamente encantada.
- Sério? O senhor já leu todos os livros? E eles são tão incríveis o quanto parecem ser?
- Só respondo se você me chamar de você, senhorita.
Ela riu e logo falou:
- O que você achou deles? Conte, por favor!
- Na verdade, posso te contar um segredo? - ela assentiu rapidamente com a cabeça, entusiasmada. Ele, com um tremendo esforço, manteve-se sério e falou baixo, assumindo um ar muito grave: - Os livros são muito mais fascinantes do que parecem!
- Meu Deus do céu! Por Merlin! - ela só faltava pular de excitação. - Eu preciso crescer e lê-los inteiros, milhares de vezes!
- Você é realmente apaixonada por Harry Potter, não é mesmo? - perguntou ele, finalmente permitindo-se rir. Ela era a menininha mais encantadora que ele poderia ter!
- Sim, absolutamente - confirmou ela, finalmente parecendo alegre. Ele mexeu em sua própia franja e ela, meio tímida, começou. - Hum... Eu posso fazer uma pergunta?
- Já fez uma, mas pode fazer quantas outras quiser - respondeu ele, sorrindo bondosamente. Ela se sentiu encorajada e sorriu também.
- Sua mamãe também o obriga a usar essa franja? Porque eu acho minha franja muito bonita mesmo, mas incomoda, você não acha? A minha pelo menos sempre fica bagunçada, e eu não gosto muito de pentear os cabelos.
Ela tentou ajeitar sem sucesso a franja de seus cabelos lisos, idênticos aos dele. Ele sorriu outra vez, ela sabia ser encantadora como ele jamais conseguira sonhá-la.
- Não, minha mamãe não me obriga a usá-la, mas eu gosto. Concordo com você, incomoda mesmo - ele fez uma careta e ela riu. - Mas por que sua mamãe não deixa que você não use mais franja?
- Porque ela diz que quando eu uso franja fico muito mais bonita, e eu nunca entendi o que ela quis dizer com isso, mas ela diz que eu "pareço mais comigo mesma" - disse ela, franzindo o cenho e fazendo com que uma linha se formasse entre suas sobrancelhas, exatamente como acontecia com ele. Ele se tornou repentinamente sério. Diferentemente dela, ele entendia muito bem o que significava o que sua mãe dizia. Ela ficava, inegavelmente, a cara dele, usando franja. Poderia ela ainda amá-lo, ter se arrependido de todos os terríveis erros que cometera para com ele?
- Estranho, não é? - perguntou ela, e ele concordou, por razões diferentes das dela. Mas repentinamente ele se lembrou de algo que podia animá-la. Mexeu na sua mochila, enquanto ela o observava, e depois de revirar um pouco, achou o que queria. Segurando-o dentro da mochila, olhou para ela e perguntou:
- O seu sonho é ler Harry Potter e a Pedra Filosofal, certo?
- Corretíssimo! - respondeu ela, alegre.
- Então, se você me prometer que, se algum dia me reencontrar conversará comigo, eu tenho um presente para você.
- Eu prometo, com ou sem presente - disse ela carinhosamente. - Você é muito legal e gentil, e ainda por cima leu todos os livros! - ela nem tentava disfarçar a admiração. - Eu até mesmo procuraria você para conversar.
Ele sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, mesmo que isso não devesse acontecer. Em alguns momentos de conversa, conseguira encantá-la, coisa que ele temia jamais acontecer se a reencontrasse. Antes que chorasse, ele tirou seu volume muito bem conservado de Harry Potter e a Pedra Filosofal de dentro da mochila e estendeu a ela, que ficou olhando-o, estupefata e completamente encantada. A imagem de seu pequeno e delicado rosto iluminado pela felicidade, com seus cabelos voando e um sorriso tímido e profundamente feliz jamais sairia da sua mente como a imagem mais bela que ele já havia visto. Delicadamente, ela pegou, com todo o carinho e cuidado o livro que ele lhe estendia. Alisou carinhosamente a capa com as pontas dos dedos brancos, observando cada milímetro, como se quisesse constatá-lo finalmente real. Depois de passar alguns segundos assim ela levantou os olhos cheios de lágrimas e sorriu para ele, em seguida inesperadamente voando e abraçando-o apertadamente. Ele chegou a ficar sem ação, mas logo abraçou-a feliz, profundamente feliz. Ela tinha cheiro de perfume de bebê e bloqueador solar, cheiro de filha amada e bem cuidada. Ele sorriu, sem evitar mais as lágrimas.
- Muito, mas muito obrigada mesmo!
- De nada filha, de nada - ele sorria, e sobressaltou-se ao chamá-la de filha, mas ela não percebera nada. Ela o largou, limpando as própias lágrimas e ele fez o mesmo, disfarçadamente. Olhou-o sorrindo, feliz.
- Você tem a mesma cor mágica de cabelos que eu tenho - ela falou, muito feliz. - Seu cabelo também é castanho mas tem partes loiras e ruivas e etc.
- Sim, nossos cabelos são exatamente iguais - assim como todo o resto, pensou ele, sorrindo alegremente. Nunca se sentira tão feliz por estar vivo. Repentinamente, o momento eterno onde eles se olhavam sorrindo mais pelos olhos do que pelo rosto, plenamente felizes, foi cortado pelo som da mãe dela que a chamava, insistentemente. O sorriso dela desmanchou-se, mas ela ainda foi capaz de lhe dar mais um sorriso. Ela se precipitou e beijou-o carinhosamente na testa.
- Serei eternamente grata - disse, muito alegre. Ele sorriu e fez um carinho no rostinho arredondado e um pouco magro.
- Também serei eternamente grato.
- Pelo quê? - perguntou ela, confusa.
- Você não compreenderia - disse ele, sorrindo. - Procure-me quando acabar de ler esse livro, se gostar. Eu tenho todos os outros.
- Sério? - ele confirmou com a cabeça. - Nossa! Mas, como eu vou te encontrar? Ah, espere! Por que você não escreve uma dedicatória para mim? Assim eu saberei como te encontrar e o meu livro vai ser, oficialmente, um presente seu.
- Ok - ele sorriu e procurou uma caneta em sua mochila. Escreveu sobre o quanto ela era admirável, elogiando-a de todas as formas possíveis. Quando acabou, ela educadamente pegou o livro de volta e esperou chegar em casa para ler a dedicatória. Ele, depois de beijá-la carinhosamente no topo da cabeça, foi embora. Ela acharia estranho ele ter começado a dedicatória com "Querida Filha", mas ele não se importava, afinal, supostamente ele não sabia o seu nome. Ele não conseguia parar de sorrir e sentia-se mais vivo do que nunca: a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido, aconteceu. Depois de observar ela se afastar ao longe, indo em seu carro para casa, ele próprio foi embora, sentindo-se um homem feliz, verdadeiramente. Pela primeira... e provavelmente única vez.

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