- Ah, mas mesmo assim, O Lobo da Estepe é inegavelmente bom. Mesmo que você seja completamente contra os alemães, não pode negar que é um ótimo livro, e a versão cinematográfica é uma das mais fiéis que eu já vi...
- Isso porque em 17 anos não dá para ler muitos livros e ver seus respectivos filmes - disse o homem loiro, provocando-a, depois rindo com ela.
Ele se aproximou, ainda observando-os. Ela ria, fumando seu cigarro favorito e bebia tranquilamente com aquele homem que tinha quase o triplo de sua idade. Tinha toda a sua atenção naquele homem loiro, de longos cabelos, que a conhecia desde que nascera. Os dois conversavam feito dois velhos amigos que mal conseguem disfarçar um profundo desejo sexual mútuo. Isso lhe causava um ciúmes completamente irracional, mas ele sabia que também era desejo de protegê-la. Ele sabia o quão dolorosas eram as inúteis ilusões que podemos ter. Mas logo que ela o vira, afastou todo e qualquer mal humor que poderia dominá-lo.
- Papai! - exclamou ela sorrindo, correndo a abraçá-lo fortemente, como se não o visse há séculos ao invés de horas. Ele sorriu, puxando-a contra si e beijando-lhe carinhosamente os longos cabelos lisos, iguais aos da mãe. - Está pronta para irmos?
- Sim, absolutamente pronta – ela sorriu e foi pegar sua mochila, enquanto ele ia cumprimentar seu amigo.
- Quanto tempo cara! - o loiro abraçou-o alegre.
- Nem sonhe com a minha filha, cara – sussurrou ele, ameaçadoramente. - Nunca vou entregá-la a você, entendeu?
- Calma – ele se afastou, tentando fingir inocência, mas o rosto corado traía-o. - Não tenho a intenção de...
- Vamos?
- É claro, filha.
Os dois despediram-se do homem loiro que ficou abismado com a súbita compreensão do amigo. Subiram no carro e foram em silêncio até a praia, mais especificamente num local mais afastado que parecia ser conhecido apenas pelos dois. Havia enormes pedras ali e o entardecer sempre era maravilhoso. Ali se tinha a ideia de uma praia completamente deserta. Como de costume, eles foram sentar-se sobre uma pedra e ficaram lado a lado, observando as ondas calmas do mar.
- Ele estava mentindo, papai – disse ela, sem olhá-lo. Naquele canto isolado da praia sempre tinham suas conversas mais íntimas, era um acordo tácito entre ambos.
- Você sempre soube, não é mesmo?
- É, mas sempre quis acreditar também – ela deu um sorriso amargurado. Ele odiava ter de vê-la assim, amadurecendo tão cedo, mas ela sempre fora assim e ele sabia bem que sempre seria. Só não conseguia se habituar a ver dores adultas demais no delicado rosto de sua filha, sua filhinha que há tão pouco tempo perguntava-lhe porque todo mundo não falava inglês e se o vento levava tudo embora de verdade. Não queria que toda a pureza que vinha daquele olhar fosse destruída por pessoas cruéis, mas isso vinha acontecendo através dos anos e ele se sentia cansado e abatido. Ela havia atravessado as crises mais difíceis, profundamente sozinha, e reerguera-se com sua própria força interior, apenas. Ele a puxou para si, acariciando-lhe os cabelos. Ela se aconchegou no colo dele, permitindo-se chorar, não pelo o que havia ocorrido (não, mentiras já não a surpreendiam), mas sim por toda a inocência perdida, por estar no Brasil, por ter de viver com quem mentia por maldade, por não poder fazer com que seu pai ficasse orgulhoso dela sempre – por mais que ele continuamente dissesse, ela nunca se sentiria boa o suficiente para merecer o título de sua filha, de possuir seu sobrenome.
- Shhh... O que é isso, filha? - perguntou ele baixinho, com sua voz grave, enquanto lhe acariciava os cabelos. - Você sabe que não pode se culpar por nada dessa vez... Mas o que é que estou dizendo? Sei que você não está chorando pelo o que aconteceu.
Ela nem precisou assentir, ele sabia que estava certo. Ele nunca conseguiria fazê-la feliz, nunca conseguiria protegê-la da mesma forma que o outro pai dela fazia. Não, ele sabia bem que estava muito além do seu alcance ser não apenas pai dela, mas guardião, tutor e melhor amigo, como o outro era. Ela se sentia puramente amada com o outro, ele sabia. E não podia mais prendê-la.
- Eu vou comprar sua passagem para Liverpool depois que sairmos daqui.
Ela levantou rapidamente, olhando-o estupefata. Os olhos castanhos iluminaram-se imediatamente, feito criança que ganha exatamente o que havia pedido de Natal. O rosto branco estava manchado de lágrimas, mas ela já estava quase sorrindo.
- Você não pode estar...
- Ora, vamos, nós dois sabemos que você nunca deveria ter vindo para cá – disse ele, com tristeza e resignação. - Lá é o seu lugar, e ele é seu pai tanto o quanto eu, ou podemos dizer mais? Afinal, você é exatamente a cara dele.
Ela riu, um riso emocionado, enquanto corria a abraçá-lo. Sussurrou-lhe:
- Vocês dois são meus pais, exatamente no mesmo nível – ela respirou fundo. - Eu jamais te abandonaria, papai, mas você pode compreender que eu me sinto sufocada aqui, não é mesmo?
- É claro que posso, filha – disse ele, olhando o horizonte, enquanto abraçava-a fortemente contra si e sentia lágrimas correndo pelos olhos. Não havia outra palavra para definir a situação: era justo. Era simples e profundamente justo que ela voltasse a viver onde ela pertencia. Doía-lhe entregar a sua menininha, que enchia de alegria os seus dias com seu jeito inteligente e sensível, exatamente como ele fora quando menino.
- Eu te amo, papai, e te escreverei sempre – sussurrou ela, voltando a sentar-se. Ele passou um braço sobre os ombros dela, depois de haver limpado as próprias lágrimas, e conseguiu até sorrir. Ela estaria em paz, mesmo que do outro lado do oceano.
- Eu também te amo filha, te amo muito.
E então os dois assistiram o sol se pôr pela 300ª vez naquele ano, e seria o último pôr-do-sol que veriam juntos. O vento fustigava-lhes os cabelos e como sempre, tranquilizava. Tranquilizava porque, não importa onde ambos estivessem, sempre que o vento vinha forte assim no rosto, um se lembrava do outro e então já não se sentiam tão sozinhos nesse mundo tão errado, tão sujo. Ela fechava os olhos e já sorria, só de imaginar seu outro pai esperando-a no aeroporto. Mas o vento batia-lhe no rosto e ela abria os olhos e beijava aquele homem de óculos de grau, aquele homem que lhe ensinara não apenas a língua portuguesa, mas também política, filosofia, e 50% do que ela sabia. A outra metade ela havia aprendido com o inglês de olhos castanhos, os olhos que ela herdara, e que estariam brilhando como nunca quando se reencontrassem – mas um dia, o vento a traria de volta para seu pai de óculos, seu pai que morreria levando toda a (pouca) alegria que existia nela.
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