segunda-feira, 29 de novembro de 2010

“A Solidão é meu Cigarro” *

Há muitas campanhas na mídia que alertam sobre os riscos que os mais variados vícios trazem para a vida das pessoas. Não há apenas comerciais, mas também reportagens e filmes que retratam e alertam sobre os problemas derivados dos vícios, mas mesmo assim jovens e adultos ainda procuram não apenas narcóticos, mas também outros hábitos (como apostas e jogos) que viciam e, em 99% dos casos, são prejudiciais a todos os aspectos da vida da pessoa. Mesmo sabendo de todos os contras, parece completamente impossível que alguém possa sujeitar-se a esses riscos, não parece haver nada que justifique essa escolha. Mas isso acontece o tempo todo e, na verdade, existem muitas justificativas para isso.
Apesar de toda a informação disponível, existem dois grandes problemas que só as informações não podem resolver: as ideologias que apoiam os vícios e a solidão. Mesmo que, de alguns anos para cá, as ideologias que apoiam os vícios estejam sendo lentamente substituídas por ideologias antidrogas, ainda existem fortes resquícios da antiga e forte ideologia. Muitos jovens ainda acreditam e levam como lema de vida a sentença “Sexo, drogas e rock n'roll”, mesmo que o verdadeiro rock tenha praticamente sido extinto há décadas e estejamos num país muito distante dos países onde viveram as grandes lendas do rock. Há quem julgue interessante e poderoso dizer-se contra as regras, autodestruir-se e ações desse gênero. Por um mero status, muitos jovens entram para uma vida desregrada sem sequer saber o que realmente estão fazendo, apenas para serem “legais” aos olhos dos outros. Isso pode parecer uma prática obsoleta e irracional (o que, de fato, não deixa de ser), mas infelizmente isso ainda é surpreendentemente comum, ainda mais em jovens do ensino médio, que ainda estão tentando definir e criar uma imagem “legal” aos olhos dos outros, pois ainda não são maduros o suficiente para perceber que ser legal não é a coisa mais importante do mundo.
Aqueles que escolhem deliberadamente vícios apenas por influências externas e auto-afirmação ainda conseguem se livrar destes vícios com menor dificuldade, afinal, nesse caso isso é apenas uma questão de amadurecimento. O grande problema se dá mesmo é com aqueles que acabam procurando nos vícios a distração para a solidão, para as próprias dores existenciais. Essas pessoas sim, tentam esquecer-se de grandes problemas ou simplesmente encontrar um último prazer que seja na vida, pois já não possuem motivação para viver. Nesses casos, os vícios são realmente preocupantes, porque se tornam o único motivo para a pessoa viver.
Com o avanço da tecnologia, o contato com as pessoas tornou-se infinitamente mais fácil. Temos os telefones, a internet, os meios de transporte, enfim, o isolamento espacial não existe mais. Mas o problema é que não basta termos pessoas por perto, precisamos de fato ter relações verdadeiras com as pessoas para que a solidão não nos domine. A correria do cotidiano nas cidades e a facilidade da comunicação acabou por, ao invés de aproximar, afastar as pessoas, pois todas vivem correndo para não perder o horário e acabam passando nada mais do que o tempo estritamente necessário com outras pessoas. Todos estão, aparentemente, ocupados demais para ter amigos, família e tudo mais que possa manter a solidão bem longe. O estresse acaba por dominar as pessoas e deteriorar as relações, fazendo com que estas existam de modo insatisfatório e logo, levando as pessoas à tão temida solidão. É claro que a solidão é extremamente importante para o desenvolvimento humano, desde que o ser solitário seja maduro o suficiente para encarar a solidão com sabedoria e calma, e por vezes até mesmo desejá-la, o que geralmente não é o que acontece. Numa ânsia por se mostrar feliz aos olhos dos outros, o homem moderno tira fotos sorridente e finge ter relacionamentos maravilhosos, mesmo quando sequer vê as pessoas de suas relações com frequência. As brigas com as pessoas próximas surgem, e o homem, imaturo para a solidão, procura amenizá-la e até mesmo curá-la através de entretenimentos nada saudáveis: álcool, jogos, drogas. Os jovens, por vezes abandonados por pais ocupados dessa forma, acabam seguindo o exemplo, e então não há como culpá-los, afinal, quem pode exigir que alguém jovem tenha força suficiente para suportar ser ignorado por aqueles que
supostamente deveriam amá-lo, e não tentar fugir ou esconder-se disso de alguma forma? É complicado tentar impedir que alguém tente aliviar a sua dor, por mais errada que seja a maneira que esse alguém procure fazê-lo, e todos nós também fazemos isso, de alguma forma. Apenas alguns tem dores mais profundas e maior sensibilidade.
Provavelmente, algum dia o mundo acreditou que através da educação todos os problemas poderiam ser resolvidos, mas isso não deu certo. Hoje, que a educação é muitíssimo mais acessível, os mesmos problemas persistem e até alguns novos surgem, e os vícios parecem assolar ainda mais os jovens do que antigamente. O caso é que a informação, por si só, não faz nada. O que realmente pode fazer algo pelos jovens são as pessoas em si: um jovem que tenha não apenas acesso à educação, mas também carinho e compreensão, ajuda psicológica e bons amigos, dificilmente deixará-se levar por qualquer vício, ou melhor, sequer terá inclinação para isso, afinal, quase não existem grandes dores nem tampouco grandes problemas em suas vidas. Quando as pessoas perceberem que a única solução que temos é ajudarmos umas às outras, talvez tenhamos um mundo mais tranquilo, menos viciado em solidão, menos narcótico e bem mais belo. Até lá, o que nos resta é tentarmos nos manter sóbrios mesmo quando a solidão pede um cigarro, um vício qualquer. Pois qualquer dose pode ser a primeira de muitas – e todos sabemos bem disso e de seu perigo incalculável.

* O título é o primeiro verso da música Cigarro, de Zeca Baleiro, que também aborda a desilusão do homem perante à vida.

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