Ela esperava-o fazia horas, mas parecia que ele jamais entraria pela porta daquela cafeteria. Já tinha lido três capítulos de seu livro, fumado cinco cigarros e até mesmo tomado uma xícara de café, mas nada de aparecer. Justo ele que era tão pontual, tão certo em tudo que fazia. Algo deveria estar errado, algo só podia estar errado.
Apesar de todos os seus medos, ela tranquilizou-se quando viu-o surgir, mesmo que uma hora e meia depois do combinado. Mas ela imediatamente percebeu que ele estava diferente. Os longos cabelos castanhos, geralmente soltos, haviam sido metade presos. Sua expressão era dura e sombria, seus olhos pareciam mais escuros e sua pele bem mais clara. Ele apagou o cigarro antes de sentar-se e sorriu. Um sorriso enigmático, irônico. O sorriso que ela amava.
- Por que você se atrasou meu amor? - perguntou ela, correndo a abraçá-lo e beijá-lo. Como sempre, ele apenas afagou-lhe a cabeça e sentou-se, acendendo outro cigarro.
- Estava ocupado. Minha mulher queria garantias que eu voltaria para casa hoje à noite - ele riu de leve, dando uma tragada profunda em seu cigarro. - Como se ela não soubesse que eu sempre volto.
- Você...você voltou para ela? - os olhos dela já estavam marejados. Ele riu da preocupação dela, seus olhos negros eram frios como aço.
- É claro que sim. Ou você esperava que eu conseguisse permanecer longe dela? Você sabe perfeitamente bem que eu construí minha vida ao lado dela e é lá onde permanecerei. Você esperava que eu a abandonasse assim, tão facilmente? Já são sete anos de casamento, e bom casamento. Isso não é algo que simplesmente pode ser jogado pela janela.
- Mas...mas - ela sentia-se sem ar. Ele sempre fora frio, independente, com um passado completamente surpreendente e fascinante, ele era instável, encantador. - Você não pode voltar para a Finlândia tão facilmente assim. As passagens são caras, talvez as pessoas não te recebam bem de volta...
- Todos os meus amigos moram lá, sem contar a minha mulher e todos os meus parentes - respondeu ele, secamente, o que era seu natural. - A Finlândia, especialmente Kitee, sempre foi minha casa. Não há argumento contra isso, eu estou definitivamente indo embora.
- Você não pode fazer isso comigo! - bradou ela, apontando-lhe com o cigarro e ficando de pé. Ele riu, era adorável a cena daquele corpinho frágil e magro todo ereto e tremendo de raiva. Mas diferente do habitual, ela não se acalmou com o riso dele. Ele percebeu então que era chegado o momento de esclarecer alguma coisa.
- Primeiro de tudo: eu posso fazer exatamente o que eu quiser de minha vida, inclusive acabar com ela se eu quiser, porque você só ligou-se a mim porque quis, eu sempre avisei-lhe que sou instável e por vezes até mesmo insuportável. Segundo: você já deveria ter aprendido que estar transando com alguém, ainda mais se for comigo, não quer dizer que você não esteja sozinha, de fato, não faz a mínima diferença. Terceiro, eu já lhe disse que você pode construir a sua fortaleza em si mesma, procurando em si própia a cura de suas angústias. Lembra de como eu te contei que me encontrei no heavy metal sinfônico e nos livros? - ela assentiu com a cabeça, as lágrimas a rolarem pelo rosto - Pois bem. Não digo que o heavy metal vai salvá-la, você tem que descobrir por si própia que forma artística e que tipo de vida irá salvá-la. Minha vida é finlandesa, não vivo sem minha mulher, minha música, meus livros e minhas noites cheias de neve. Eu não suportaria passar o Natal longe de Helmi e de toda a minha família, não suportaria ouvir outro idioma sendo falado por perto de mim, enfim, não posso suportar minha distância de Kitee. Também não posso suportar a distância de meu trabalho, apenas na Finlândia eu posso encontrar a paz necessária para me entregar completamente ao trabalho.
- Eu não quero que você se entregue ao trabalho outra vez - disse ela, segurando-se para não chorar. Ela conhecia-o bem, e sabia que quando ele queria voltar com tanta certeza, ele dificilmente voltava se não fosse chamado por razões realmente fortes. - Aposto que até mesmo Helmi não quer isso.
- Aí é que você se engana e eu percebo o quanto você não faz ideia da mulher incrível que Helmi é - disse ele, gelidamente. - Uma das coisas que menos suporto nesse maldito lugar é essa mania de que todos têm de ser felizes e que dedicar-se ao trabalho é uma tortura. Onde eu vivo todos são sérios e nem por isso são tristes, todos respeitam o silêncio e calmaria, a alegria não é forçada por ninguém. Por que vocês não respeitam a introspecção, o silêncio e a seriedade? Sorrir o tempo todo não é felicidade, tampouco ser sério é ser infeliz.
- É só que não compreendo como você pode ser tão frio e não sofrer com isso...
- Minha natureza é assim, e estou cansado desse lugar onde exigem que eu seja de uma forma absurdamente contrária. As pessoas desse lugar deveriam respeitar a seriedade e a frieza das pessoas, pois nem todos necessitam se expor ou fingir uma alegria inexistente. As pessoas que já encontraram sua força em si própias não andam rindo alegres por aí, elas mantém sua felicidade interiorizada, não precisam que os outros vejam seus sentimentos para terem certeza deles. Perdoe-me, mas preciso realmente ir, e se eu for contar todos os motivos, passarei dias aqui, e meu vôo sai em meia hora.
- Você tem certeza de que isso é o melhor para você?
Ele sorriu, absolutamente confiante.
- É óbvio que sim. Meu único erro foi justamente ter vindo morar aqui. Estarei em paz, protegido e amado em meu país, lá terei tudo que necessito e até mesmo mais. Minha única forma de ser feliz é lá, perdão, ou melhor - ele abriu um largo sorriso que iluminou seus olhos quase negros - anteeksi, näkemiin.
Ele levantou-se e se foi, acendendo um cigarro. Ela ficou paralisada, observando-o se afastar, o sobretudo negro esvoaçando em suas costas, os longos cabelos movendo-se ao vento. Ele fora embora, então, exatamente como ela temia, e sorridente, ainda por cima. Ela sabia perfeitamente bem que ele possuía a "natureza finlandesa", que era de uma seriedade quase religiosa que não podia ser entendida em qualquer outro país, ela sabia que ele tinha uma família completamente bem estruturada e era em Kitee que ele se sentia bem, seguro e amado, como um homem frio como ele dificilmente admitiria precisar. Mas ela sabia que, mesmo que ele fosse tão frio por fora, ele era tão carente o quanto uma criança católica finlandesa pode ser. E ao invés de chorar, ela sorriu: cedo ou tarde ele acabaria voltando, com um maço de cigarros finlandeses e um sorriso nos belos lábios desenhados que se espalharia pelos intensos olhos escuros e iluminaria seus dias até que ele partisse para sempre.
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