terça-feira, 16 de novembro de 2010

Clarisse

Sorrir -  (latim subrideo, -ere)
v. intr. e pron.
 1. Rir sem gargalhada, fazendo apenas um pequeno movimento com os lábios.
 2. Indicar por meio de sorriso algum sentimento, tal como a ironia, o desprezo, a incredulidade, etc.
Não compreendo como as pessoas podem pensar julgar corretamente o estado de espírito de outra simplesmente por uma expressão facial. E acham que todo sorriso é sinônimo de felicidade, logo, a ausência dele é tristeza. Pois uma coisa não tem absolutamente nenhuma relação com a outra. Se fôssemos parte de um desenho animado, talvez sim pudéssemos ser julgados pelo que aparentamos, mas somos pessoas. Pessoas reais. E algumas, em carne viva.
Não sei de onde surgiu o conceito de que temos de ser felizes. Particularmente, no Brasil, parece que temos de ter o "espírito carnavalesco" o ano todo. Ao menos em alguns países (como as incomparáveis Finlândia e Inglaterra), o silêncio e a seriedade são respeitados, ou seja, pode-se ficar em silêncio sem ter de suportar julgamentos e perguntas preocupadas. Ninguém percebe o quão opressivo pode ser ter alguém que se importe, que importune o tempo todo querendo saber o que se passa em sua mente. Preocupação é bom, mas há uma linha tênue entre a preocupação e o respeito pelo espaço do outro, pela liberdade existencial do outro. E ninguém mais percebe isso.
Supostamente, devemos estar o tempo todos aptos a piadinhas e saltitantes, mesmo que você tenha a plena consciência do quanto as coisas estão erradas não só consigo próprio, mas com o mundo e com a vida. Temos de sorrir quando tudo é uma grande vertigem dolorosa, quando a autodestruição atinge níveis insuportáveis. Temos de comer bem, dormir bem, foder bem, como se nada nunca acontecesse, como se nada abalasse a falsa riqueza e bonança da vida cotidiana. Arte é bom, mas melhor ainda é consumir qualquer coisa, porque só se pode ser feliz consumindo alguma coisa. Consumimo-nos então, sem nem mais sentir dor.
O mundo está todo errado e as pessoas dizem querer salvá-lo, mas não são capazes de perceber o quanto elas próprias precisam se salvar. Na verdade ninguém se importa com nada, querem prazer e alívio imediato da dor, como se isso fosse resolver qualquer coisa. Os narcóticos, o álcool, a automutilação, tudo que não adianta de nada. Temos de ser fortes a todo e cada amanhecer, mas simplesmente não somos, não as pessoas que tem uma mínima percepção do quanto tudo está sujo e errado. Na verdade, acho que todas as pessoas percebem, mas mentem para si mesmas e se enganam, comemorando idiotamente cada sexta-feira, cada feriado, vivendo suas vidas como cordeirinhos dóceis e obedientes ao esperado. Algumas pessoas talvez tenham pendor para isso, mas não todas. Não eu. Não muitas outras pessoas.
Adequar-se virou praticamente uma necessidade, mas é justamente isso o que destrói e mata - ou pior, não mata, mas deixa viver aleijado mesmo. Acabamos por fazer tudo no horário certo, como se isso fosse bom e certo, como se estivéssemos felizes com isso. Mas, em alguns momentos, a lucidez retorna para algumas pessoas, e para algumas, ela nunca vai embora. Os calmantes simplesmente não fazem efeito e você sangra tudo o que reprimiu, toda a dor de fazer o que você não quer, toda a dor de ser bonzinho para com os outros e se destruir com um sorriso no rosto, de bom moço. As pessoas esperam de você coisas boas, esperam que você possua altos valores morais, que seja um exemplo, mas elas mentem e enganam você, mesmo dizendo que você deve permanecer puro e belo. Como alguém tem a coragem de exigir de outra pessoa que faça o que ela própria não pode fazer? Somos aprisionados das mais diversas e odiosas maneiras, e ainda assim respiramos. Temos 7, 15, 25, 70 anos, e as coisas nunca mudam. Os sonhos utópicos de encontrarmos calma e força nunca se realizam, porque na verdade o amor não existe, há apenas a remota possibilidade dele. E sangramos e morremos internamente todos os dias na esperança de que ele exista e traga sentido para nossas existências, o que jamais ocorrerá.
Uma das coisas mais tristes é que já não se tem mais liberdade para sentir dor. Os filósofos talvez tenham sido felizes, mesmo que as pessoas não aprovassem a vida deles, pelo menos, alguns viveram como queriam. É profundamente doloroso adequar-se, limitar-se ao cotidiano frívolo, conter suas dores e seus rompantes todos, prender-se a uma rotina que não tem nada a ver com o que se precisa. O vilipêndio e a dor dominam as existências mais sinceras. E ninguém imagina o quão lancinante pode ser adequar-se a uma sociedade onde todos são felizes e saudáveis, quando tudo o que se quer é morrer.
Salvar-se talvez não seja uma opção viável, não com essa vida, com esse cotidiano. Fingir força é pior do que se entregar, só que ninguém é capaz de ver que não há nada pior do que a falsidade. Menininhas fúteis cortam os pulsos para chamar a atenção, jovens se drogam e vivem desregradamente para serem "legais", mas na verdade são tão ocos o quanto uma árvore podre pode ser.

"De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
[...]
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto"

Meninas de 14 anos rasgam a noite com seu grito de dor. E essas mesmas meninas tentam seguir em frente como se tudo estivesse bem como tanto repetem a elas. Mas os anos passam, e a dor só vai aumentando, e então essas meninas sangram e morrem, ou de uma vez por todas, ou por todo o sempre. Mas um dia a morte chega, e esse vazio é o único que liberta.

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