Como de costume, ele se levantou um pouco depois do que ela, foi até a cozinha, beijou-a e foi sentar-se à mesa, enquanto ela terminava de arrumar o café. Antes de pegar o jornal para ler, ele a observou: ela ficava absurdamente linda naquele robe de seda negra. Os longos cabelos louro-prateados caíam lisos por suas costas, movendo-se conforme ela se mexia, preparando omeletes e outras coisas que ele gostava. Sorriu, ainda não acreditava que aquela era a sua esposa, a mãe de seu filho. Ainda sorrindo, ele pegou o jornal para ler. Não havia notícias ruins: desde que a guerra havia acabado, as coisas estavam bem tranquilas. Ele prosseguiu lendo, até que chegou até a coluna social, onde realmente preocupou-se. O homem com o qual a sua mulher um dia namorara, o único o qual ele temera que pudesse ocupar exatamente o lugar que ele própio ocupava agora, havia se casado. Sua mulher havia sido muito desejada na faculdade, mas esse tal homem a conhecia há muito tempo, e muitos diziam que eles eram mutuamente apaixonados. Apesar disso, era com ele própio que ela namorara, casara e agora tinha um filho, e era isso que importava, ou pelo menos era isso que ele tentava acreditar.
- Hoje fiz o omelete com outros ingredientes - disse ela, sorrindo e servindo-o. Ele levantou os olhos do jornal, observando-a. Ela sorria docemente como o de costume, não havia nada que demonstrasse que ela sabia do ocorrido. Ela era imensamente linda, e o outro havia casado com uma mulher comum, quase feia. Ela também havia estudado na mesma faculdade, era uma sabichona insuportável para todos, inclusive para ele própio, então, por que se casara com ela? Isso o fazia desconfiar de que eles haviam se casado simplesmente porque ele não conseguia esquecer a sua mulher, a qual nunca dera esperanças para ele. Depois de um momento, ele conseguiu sorrir e começar a comer como se nada houvesse acontecido.
- Ficou ótimo, querida - disse, finalmente sorrindo. - Você realmente aprendeu a cozinhar.
- Você foi um ótimo professor - disse ela gentilmente, enquanto servia a si própia de café. - Meu amor, você pode me passar o jornal, por favor?
Ele hesitou. Não queria que ela visse aquela notícia, e tinha receio de sua reação, afinal, ela poderia magoar-se - e isso não seria uma confirmação de que um dia ela realmente fora apaixonada por aquele amigo de infância? Ele temia a reação dela, não queria que ela sofresse e tampouco queria que se confirmassem suas suspeitas. Não suportaria perdê-la, ela era o seu sonho. Era ela quem havia lhe dado aquele filho lindo e perfeito, era ela a mulher que habitava seus sonhos desde que a conhecera. Apesar disso tudo, ela possuía o hábito de ler o jornal, e cedo ou tarde ela iria acabar por lê-lo. Ainda hesitante, ele lhe entregou o jornal, fixando seus olhos cinzentos nela, prestando atenção a cada expressão que dominava o rosto dela. Por um momento, seus olhos desviaram-se do rosto atento ao jornal para a mão esquerda que o segurava. A aliança de ouro branco reluzia no anelar esquerdo, uma marca inegável de que ela lhe pertencia. Ela virou a página e então ele pôde ver que ela havia chegado à notícia. Seu semblante imediatamente anuviou-se, e ela franziu o cenho, enquanto lia a notícia.
- Está tudo bem, querida? - perguntou ele, acariciando-lhe a mão.
- Sim, está, está sim - disse ela, com a voz ligeiramente embargada, mas logo largando o jornal e tentando sorrir. - É só que ainda me choco com os crimes que ocorrem na nossa cidade, afinal, estamos na Inglaterra... Nada disso deveria acontecer, certo?
- Certamente - aliviado, ele quase sorriu. Ela se levantou e fez a volta na mesa para se sentar ao seu lado, repousando seu rosto no pescoço dele. Ele a puxou para si e começou a acariciar-lhe os cabelos, beijando-lhe carinhosamente a testa. Ele percebera que ela um dia amara aquele homem, mas agora, por mais que pudesse haver qualquer resquício desse sentimento, quem mais importava para ela eram ele e seu filho, afinal, ela odiava fingir, mas mesmo assim reprimia todo e qualquer sentimento para continuar ao seu lado. Ela o beijou intensa e amorosamente, com uma urgência que há tempos eles não ousavam sentir. Eles certamente amavam-se e deveriam esquecer tudo mais, inclusive o passado. Esqueciam-se então de todos os incovenientes, exatamente como deviam, porque se amavam mais verdadeiramente do que jamais realmente saberiam.
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