quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Black

Ansiosamente, ele olhava para o cume da escadaria, as portas estavam abertas mas ela nunca, nunca parecia chegar. Sua esposa já havia percebido a sua inquietação, mas ele mentira dizendo que só estava ansioso porque ela finalmente iria conhecer aquela que era a sua melhor amiga, o que a tranquilizou quase que instantaneamente, apesar de haver algo em seus olhos que diziam que ela ainda estava pensando sobre isso, mas não importava. A qualquer momento ela surgiria ali, ela e seu desgraçado noivo. Preocupava-se muito com ela, sabia que o atraso provavelmente havia sido causado por discussões, por brigas que aquele homem insistia em causar, por ciúme, por crueldade e o que mais fosse. 
Depois de mais alguns instantes que pareceram se arrastar eternamente, ela surgiu no topo da escada, e ele chegou a levantar para vê-la. Ela estava absurdamente linda num longo vestido branco que deixava os belos ombros nus, os cabelos castanhos presos num coque de onde caíam belos e perfeitamente modelados cachos. Ela sorriu para ele, que estava nervoso demais para retribuir, e começou a descer as escadas. Estava de mãos dadas com seu noivo que, a despeito de sua arrogância, parecia ser perfeitamente digno dela, um homem alto, de pele clara e cabelos negros, olhos verdes e intensos, expressão sombria e atraente. Eles se aproximaram da mesa e ele, ansioso, aproximou-se dela para cumprimentá-la com um beijo no rosto. O cheiro dela era o mesmo cheiro de rosas de sempre, rosas e algo indefinível, algo puramente dela. Era difícil beijá-la apenas no rosto e não tomá-la nos braços, difícil não tê-la inteiramente para si, mas paciência. Era uma ocasião formal, era um lugar onde não podiam ser um do outro como de fato eram.
- Bem, essa é Emma, minha mulher - disse ele, sorrindo nervosamente. - Essa é Julia e ele é Tom, seu noivo.
Todos se cumprimentaram educadamente e ele não pôde deixar de notar que Julia mediu Emma dos pés à cabeça e vice-versa. Mas diferentemente de Emma, Julia estava segura, até porque, Julia não tinha uma barriga gigante e não tinha seus hormônios alterados por esperar gêmeos. E com os olhares apaixonados dele, não seria difícil se sentir confiante mesmo em frente à esposa dele. Sem conseguirem evitar, eles trocavam olhares cúmplices, conversavam mais entre si, riam de coisas que apenas eles entediam. Tudo poderia correr bem, se eles não fossem tão intensa e perdidamente apaixonados um pelo outro. Eram mais do que apaixonados, eram melhores amigos que se descobriram em paz um no outro. Não podiam evitar de aproveitar cada segundo juntos, mesmo que já houvessem vivido muitas coisas juntos, mesmo que não passassem um dia sequer sem se ver. O fato é que eram muito mais importantes um para o outro do que podiam perceber, eram praticamente essenciais.
Tom observava silenciosa e perigosamente os dois. Além de ter ciúmes de todo e qualquer ser humano que chegasse perto de Julia, conhecia a relação dela com ele o suficiente para saber que ali deveria haver muito mais do que aquela simples afinidade que era inquestionável. Ele foi ficando cada vez mais calado e Julia nem percebia o quão perigoso ele ia se tornando aos poucos, os olhos escurecendo, as mãos fechando-se. Emma mantinha-se calada e ressentida, tanto por estar enjoada quanto por não ter a mesma autonomia que Julia para conversar e rir com tanta afinidade com seu marido. Nunca o tivera da mesma forma que Julia tinha-o, uma forma inexplicavelmente simples e perfeita.
- Julia, vamos lá fora, preciso fumar um pouco - falou Tom, numa gravidade que fez os pelos da nuca de Julia arrepiarem-se. Ela sabia o quão perigoso era esse tom que ele usava, e o quão bravo ele deveria estar para não chamá-la de amor ou querida. Sem dizer nada, ela aceitou o braço que Tom lhe oferecia e saiu, observada por ele. Ele ficara preocupado, conhecia suficientemente bem os relatos de Julia para saber que Tom deveria estar furioso. Ele não conseguia desviar os olhos da porta, precisava urgentemente saber se Julia estava bem. Tom nunca ousara, mas e se repentinamente se sentisse tentado à agressão física? E se magoasse ainda mais profundamente Julia? As preocupações mais reais e mais absurdas tumultuavam sua mente, quando ele foi tirado de seu devaneio pela voz amargurada de Emma:
- Então essa é a famosa Julia - ela deu um sorriso triste. - Ela é bonita, sabe, eu compreendo. Ela é legal e interessante enquanto eu sou apenas a sua mulher...
- As coisas não são assim - apressou-se ele a tentar se justificar, mas ela apenas balançou a cabeça.
- Vocês dois são completamente transparentes, não é preciso tentar negar. Eu acho que no fundo até entendo, afinal, ela parece encher você de vida, não é mesmo? Vocês dois parecem se alegrar, se iluminar juntos. Não quero e não posso lutar contra isso.
- Olhe, você está completamente errada - disse ele, nervoso e sem firmeza. Era fácil saber que Emma tinha razão, mas não se destruía um casamento tão facilmente, ainda mais quando ela carregava seus filhos ainda no ventre... Mas Julia era o que ele sempre quisera, era o melhor que ele jamais poderia ter, era como um sonho, o tempo todo. Não suportava vê-la com Tom, se pudesse passaria dias e dias apenas num quarto com ela e ele sabia que não precisaria de mais absolutamente nada no mundo. Ela era o seu sonho, a sua menina, e não era justo que eles só houvessem se conhecido quando ele já era casado.
Pedindo licença para Emma, ele foi lá fora em busca de Julia, porque estava extremamente preocupado, afinal, ele estava perdido em pensamentos há quase meia hora e eles não voltavam nunca. Subiu correndo as grandiosas escadas brancas e logo viu Julia sentada na beira do belo chafariz que enfeitava a entrada. Ela estava abraçando os próprios joelhos com dificuldade por causa do vestido e tinha seus olhos perdidos num ponto fixo à sua frente. Os pés repousavam descalços sobre a pedra fria da borda do chafariz. 
- Você vai se resfriar - disse ele, tirando o longo paletó de gala que usava e se aproximando para vestí-la, quando ela o olhou com os olhos rasos d'água. Isso fazia com que ele odiasse Tom ainda mais. 
- Por que ele tem de ser assim? Quer dizer, eu não posso sequer conversar com meu melhor amigo, por Deus, ele tem ciúmes da própria sombra! Por ele, eu seria mantida num aquário ou qualquer...
Sem dizer nada, ele a levantou em seus braços, pegando-a no colo. Ela se aconchegou no seu colo, afundando seu rosto no pescoço dele. Como sempre, o simples fato de tê-lo ali, de poder sentir o seu cheiro, já fazia com que ela se acalmasse, com que ela já não conseguisse se preocupar com muita coisa. Ela deu um demorado beijo na bochecha dele, fazendo-o sorrir involuntariamente. Ela suspirou, sorrindo em seus braços:
- Honestamente, eu não seria nada sem você - eles sorriram, enquanto ela acariciava-lhe o rosto. - Amanhã podemos passar o dia juntos?
- Inteirinho - disse ele, aumentando o sorriso dela e sua própria felicidade na mesma proporção. - E vamos passar o dia inteiro na cama rindo e ouvindo as músicas que você quiser...
- Eu te amo, eu te amo - sussurrou ela, beijando-lhe outra vez a bochecha. Olharam-se nos olhos, sorrindo por dentro. Ele sabia que logo ele teria que colocá-la num táxi e voltar para casa com Emma, e com o tempo ele seguiria sua vida, seus filhos nasceriam e ele perderia Julia, sem que pudesse fazer nada. Outra pessoa ouviria ela dizer como havia sido seu dia, ouviria o seu "eu te amo", veria seu sorriso, suas lágrimas. Ele estaria cuidando dos seus filhos, sonhando com a vida que poderiam ter tido juntos. Mas por ora, eles se pertenciam como jamais seriam de outras pessoas, e por enquanto tinham um ao outro da melhor forma que poderiam ter. Mal sonhavam eles o quanto ainda viveriam juntos e o quanto se amariam através dos anos. 

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