segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Bruises

Mesmo que seja tão costumeiro, mal acredito que estou aqui outra vez, olhando o lago que fica nos fundos de minha casa, o lago onde eu costumava brincar quando criança. Sinto-me tão profundamente cansada que me sento à sua margem, observando as leves ondulações que a brisa produz em sua bela superfície. A noite não possui estrelas, e talvez a neve caia logo, eu pelo menos espero que sim.
Quanto do seu próprio sangue você derramaria, para ver aqueles que você ama sorrirem despreocupados? É uma boa pergunta, mas acredito que quase ninguém se faz. Eu derramo demais, para falar a verdade. Mais do que eu podia perceber, mais do que é concebível. É doloroso, mas não consigo parar, não quando penso no que isso pode causar às pessoas. Então destruo-me sorrindo, todos os dias. É bem mais doloroso do que possa parecer, acredite.
Tentando aliviar a dor, acabo me despindo e, ignorando as marcas que os vícios tem deixado em meu corpo, jogo-me na água não tão fria do lago. Ele é mais fundo do que eu me lembrava - mergulho fundo, fechando os olhos, sentindo a paz que é ser envolvida inteiramente pela água. Gosto da sensação dos meus cabelos se movendo sob a água, da sensação de estar submersa. É uma paz inatingível de outra forma.
Quantas mentiras e falsas forças constroem a pessoa que sou hoje? Não quero nem fazer a mínima ideia. Sei que são muitas, que não sou a "nº1" à toa. Mas isso satisfaz aqueles que me amam, os faz orgulhosos. É difícil tentar ser tão forte, mas eles sorriem tanto, ficam tão felizes... O egoísmo tem formas estranhas de existir, e o meu esvaíu-se estranha e inteiramente. Esvaiu-se demais. Tão demais que eu já nem sei mais o que eu própria desejo, não sei cuidar de mim. E é isso que tem me matado há muitos anos.
Fico me movendo lentamente sob a água, aproveitando a mansidão escura e imensamente agradável. O ar começa a faltar-me, mas fecho os olhos e mordo meu lábio inferior. Quando eu tinha três anos, caíra nesse mesmo lago e quase morrera afogada. Agora eu caíra de propósito e, 30 anos depois, era mais do que justo que o lago dessa vez pudesse levar a minha vida. Deixando de lado a possível dor e/ou preocupação que todos sentiriam, todo o trabalho que eu daria, aos poucos, deixei que minha consciência se esvaísse, lutando contra o instinto de sobrevivência. De alguma forma, venci o meu próprio instinto. E então a neve começou a cair, porque era inverno e o lago se tornava ainda mais lindo nas noites de inverno.

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